CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de julho de 2013

VICENTE REIS: HISTÓRIA FACETA


Capa do livro
Este causo, contado pelo saudoso mestre Mário Ypiranga, já teve vários personagens. Acho que o último mais conhecido foi Leonel Brizola.
 

O VICENTINA
O Dr. (bacharel em Direito) Vicente Torres da Silva Reis era baixinho, comilão e apegado ao seu Jornal do Comércio, na época localizado do lado esquerdo da avenida de Eduardo Ribeiro, número noventa, mais ou menos onde foi a "Farmácia Barreira" quase à esquina da rua Henrique Martins. O fundador do jornal fora um jornalista português naturalizado.

Depois de instalado o jornal no edifício da mesma artéria, no "Açaizal," é que adquiriu as linotipos (a segunda frota, porque a primeira foi adquirida por Eduardo Ribeiro para equipar o Diário Oficial do Estado) que deram prestígio ao jornal mais lido no Amazonas e com sucursais na "Oropa”, França e Bahia.

Foi quando estava no apogeu da carreira brilhante de "jornalista festejado", que o Dr. Vicente Reis achou de entrar na política, pelo lado esquerdo, isto é, pela oposição. Candidato a deputado estadual foi eleito com "expressiva votação’’, mas a sua frásica politiqueira não o ajudou muito, arranjou inimigos que hierarquicamente vinham do governador ao mais baixo salafra da Polícia Civil.

O governador era então o "Vatapá de Suíças", codinome do médico Dr. Jonatas de Freitas Pedrosa, baiano de nação e dominado pela prole que ditava ordens no palácio e desordens na via pública. Ameaçado de pau e de ter a redação varejada pela polícia à paisana, o Dr. Vicente refugiou-se no lugar mais próximo do jornal e menos perigoso, que foi à casa do seu amigo o comendador Antônio de Matos Areosa, vice-cônsul de Portugal e representante-gerente das duas mais fortes companhias de seguros, a Sagres e a Aliança da Bahia, ambas em prédio de sua propriedade, situadas bem mesmo ao lado da polícia, à rua Marechal Deodoro.

Durante três dias e duas noites ficou o Dr. Vicente Reis homiziado ali, garantido pela circunstância de "território neutro", inviolável.

Mas o jornal chamava-o, não podia deixá-lo entregue à visão pouco esclarecida (esta sempre foi a opinião do jornalista à respeito do mérito dos seus devotados auxiliares) do Dr. Antônio dos Passos Gomes. Por isso determinou fugir logo que a noite baixasse. A casa nobre do comendador Matos Areosa ficava na rua de Vinte e Quatro de Maio, mística a do Dr. José Pais de Sousa Brasil, advogado, e muito perto da do deputado Dr. Antônio de Sá Peixoto, seu inimigo figadal, até à morte.

Fugiu. E como fugiu di-lo melhor as picuinhas que circularam em volantes impressos, depois da patuscada. Eu não sei se o leitor está a par de que o Dr. Vicente Reis havia escrito farsas que foram bem recebidas pelo público no Rio de Janeiro e servido de delegado-auxiliar na polícia daquela cidade, quando teve oportunidade de escrever um folheto versando a gíria dos ladrões daquela capital. Estava, portanto, o jornalista no seu metier.

A versalhada abaixo nos foi comunicada pelo Dr. Pais Brasil, quando professor de Direito Constitucional na Faculdade de Direito.

Vicente Reis, o embusteiro,
Escapou dos seus apuros
Porque usou o roupeiro
Da madame dos seguros.

O Vicente deputado
Que não gosta de biraias,
Escapou todo cagado
De chapéu, sombrinha e saias.

Com uma barriga de meses
E uns peitos monumentais,
O Vicentina das reses
Fugiu dos policiais.