CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

9 de julho de 2013

REVOLUÇÃO DE 1924


Capa do livro
Capítulo reproduzido do livro de Creso Coimbra, A Revolução de 30 no Pará: análise crítica e interpretação da História, editado pelo Conselho Estadual de Cultura, em Belém, 1981.
 
A revolução de 1924 no Baixo Amazonas.
Os acontecimentos que se desenrolaram em várias cidades do Baixo Amazonas, no estado do Pará, no fim de julho e durante agosto de 1924, foram resultantes da revolta do 27º BC e da Flotilha do Amazonas, que em Manaus, em 23 de julho, conquistaram a cidade, depuseram o governo, e organizaram uma força para descer o rio com o fito de tomar Belém, e consolidar assim "a revolução na Amazônia”.
No início da noite de 23 de julho, os oficiais do 27 BC reuniram-se no quartel, sob a chefia do capitão José Carlos Dubois, comandante daquela unidade. Mandou o comandante, que sargentos e soldados do 27 prendessem todos os oficiais, sargentos e praças da Polícia Militar do Estado vizinho que se encontrassem pelas ruas, e que o tenente Magalhães Barata e Euclides Lins prendessem o comandante da Flotilha do Amazonas e o Capitão dos Portos, missões estas que foram cumpridas sem qualquer dificuldade.
Logo depois as tropas do 27 BC tomaram os quartéis da Polícia Militar onde não encontraram resistências significativas e assaltaram o Palácio do Governo, obrigando o Dr. Turiano Meira, presidente da Assembleia, no exercício do governo, a fugir.
No dia seguinte, os revoltosos dominavam completamente a cidade, e comunicavam à população que havia perfeito entendimento entre as tropas do Exército e da Armada ali sediados através de um Aviso, assinado pelo capitão Dubois e pelo tenente Lemos Cunha, que havia assumido o comando da Marinha de Guerra no Amazonas.
Tenente Ribeiro Junior
O "Jornal do Povo", órgão que apoiava os revoltosos, na sua edição de 25, publicava uma matéria intitulada "Deliberação" na qual informava que os comandantes militares e os oficiais do Exército e da Armada decidiram investir o 1º tenente do Exército Alfredo Augusto Ribeiro Júnior no cargo de governador do Estado. O governador,
por sua vez, nomeou Secretário Geral do Estado o professor Crisanto Jobim; superintendente (prefeito) de Manaus o Dr. Francisco das Chagas de Aguiar; comandante da Polícia Militar, o 1º tenente Joaquim de Magalhães Cardoso Barata; e Chefe de Polícia, o Dr. Olegário da Luz Castro.
Os revolucionários apoderaram-se do navio Bahia, e nele fizeram embarcar cerca de 700 homens, quatro canhões pesados, metralhadoras e a munição que dispunham. Este navio transformado em transporte de guerra, acompanhado pela canhoneira Missões e pelo
Ajuricaba, da Flotilha do Amazonas, dirigiu-se então para Óbidos, onde ocupou a cidade e a fortaleza ali existente.
O comandante da fortaleza de Óbidos, capitão Oscar Bastos Nunes, entregou a praça e acabou por aderir ao movimento sedicioso. Naquela cidade foi também feito prisioneiro o Intendente, Dr. Corrêa Pinto.
Seguiram então para Santarém, onde prenderam o Intendente Dr. Rodrigues dos Santos, e apoderaram-se da estação telegráfica. O Intendente foi levado a bordo do Ajuricaba e solto em São Francisco de Jararaca, de onde partiu para Muaná, e depois para Belém.
Nas cidades em que passavam, os revoltosos inutilizavam o telégrafo, retirando os aparelhos. Durante estas operações não entraram em Alenquer e em Monte Alegre, pois que, naquelas cidades, não tinham nenhuma vantagem a colher.
Em São Francisco de Jararaca, o Bahia abasteceu-se de lenha, e se preparava, para junto com o Missões e o Ajuricaba vir para Belém, mas ali, os oficiais leram os jornais da capital paraense que davam notícias da vitória das tropas legais contra os revoltosos do 26 BC, comandados por Assis de Vasconcelos. Ante este fato resolveram voltar para Óbidos, onde ficariam fortificados aguardando as tropas legalistas. O regresso a Óbidos deu-se a 4 de agosto quando a expedição do general Menna Barreto já havia deixado o Rio de Janeiro em direção de Belém, de onde partiria para o Baixo Amazonas e, finalmente, para Manaus.
Frente ao movimento de Manaus e de seu prolongamento pelo Baixo Amazonas, a reação do governo da União não se fez esperar. No dia 7 de agosto, o coronel Raimundo Barbosa, comandante da 8ª RM, recebeu um telegrama do Presidente da República, informando, oficialmente as medidas que haviam sido tomadas para sufocar a rebelião:
 
Palácio do Catete,
Coronel Barbosa - Belém –
O governo da República, fazendo justiça à sua correção e lealdade, apreciou com viva satisfação a atuação que teve na defesa da lei e da ordem ameaçadas nessa capital e se congratula convosco e os que vos acompanharam nesse transe por um louvável sentimento do dever militar. Agradeço as notícias sobre os rebeldes do Amazonas, contra os quais marcham forças legais que não tardarão a chegar ao seu destino.
Cordiais saudações
Arthur Bernardes.
 
No dia 9 de agosto, chegava ao porto de Belém, o cruzador Barroso, comandado pelo capitão-de-fragata Adalberto Nunes, e no dia 11 chegaram ao Guajará, o destroier Sergipe, do comando do capitão-de-corveta Galdino Pimentel Duarte, e o Mato Grosso, comandado pelo
capitão-de-corveta Augusto Pacheco de Araújo.
Nesse mesmo dia, atracou no cais de Belém, às sete horas da manhã, o transporte de guerra Poconé, comandado pelo capitão Acácio Faria, que trazia a bordo o general João de Deus Menna Barreto, à frente de três batalhões de infantaria e uma tropa de cavalaria, perfazendo o total de 2.700 homens. Além disso, vinham dois hidroaviões da Marinha.
Em Belém, o general Menna Barreto assumiu o comando da Região, e reorganizou a força-tarefa para subir o rio Amazonas em perseguição dos revoltosos e para atacar e tomar a cidade de Manaus.
Já no dia 16, partiram os destroieres Sergipe e Mato Grosso; o cruzador Barroso, o Poconé; os navios transportes Belo Horizonte e Rio Mar; e mais o Sobralense e o Cuiabá. Mas, somente a 21 zarpou de Belém o Campos Sales, levando a bordo a artilharia de apoio à expedição Menna Barreto.
Três dias depois, a 19, era retomada a cidade de Santarém, e investido no cargo de Intendente, o coronel Joaquim de Vasconcelos Braga. A tomada de Óbidos deu-se no dia 26, e assim foi relatada num comunicado oficial de 27 de agosto:
Tendo partido de Santarém no dia 24, a 25 atingimos as proximidades de Óbidos, tendo o Exmo. Sr. General Comandante do Destacamento ordenado o desembarque de vários elementos de nossas forças em ambas as margens do rio Amazonas, onde havia artilharia dos rebeldes, e também na Ilha Grande, em cuja ponta existiam dois canhões Krupp 75. Tendo progredido durante os dias 25 e 26, tomamos os canhões aos revoltosos e aprisionamos as respectivas guarnições, apreendendo, ao mesmo tempo, grande quantidade de munição de guerra e de boca. No dia 26 pela manhã os canhões dos revoltosos fizeram vários disparos sobre nossas forças. A estas foi dada ordem de apertarem o cerco. Nesse mesmo dia 26, os revoltosos, depois de um pedido de cessação de hostilidades, que não foi atendido, avisaram ao Exmo. Sr. General que estavam dispostos à rendição ncondicional. Pouco depois a cidade foi ocupada por nossas forças, tendo sido encontrada em completo abandono por parte do elemento civil. O capitão José Carlos Dubois, comandante do 27 BC, os tenentes Aluísio Pinheiro Ferreira, Abelardo d'Eça Rangel e Ademar Rocha fugiram para Manaus. Entre os prisioneiros feitos pelas nossas forças, figuram o capitão Oscar Bastos Nunes, que comandava a Fortaleza de Óbidos; tenente da Armada José Backer Azamor,
que comandava o Aviso Ajuricaba;
tenente do Exército Joaquim de Magalhães Cardoso Barata; 1º tenente Saint'Clair Peixoto Paes Leme e 1º tenente Aurélio Linhares
(a) Ângelo Mendes de Moraes, chefe da 2ª Seção do Estado Maior do Destacamento do Norte.  
 
Por ordem do general Menna Barreto, assumiu o comando do Forte de Óbidos, o capitão Frederico Villeroy, e como comandante da guarnição de Óbidos ficou o coronel Jeremias Fróis Nunes. Dava-se a notícia, que entre os que conseguiram fugir de Óbidos, estava o único representante dos revoltosos do 26 BC, o cabo Corumbá.
Na noite de 24, próximo à ilha das Marrecas, o destroier Sergipe, da esquadra legalista, avistou um vapor mercante que se aproximava. Era o Jary, de propriedade do senador José Júlio de Andrade e que havia sido aprisionado dias antes pelos revoltosos, em Gurupá. O Jary vinha armado com canhões e metralhadoras e andava em serviço de reconhecimento por parte dos revoltosos. Logo ao avistar o Sergipe rompeu fogo contra o destroier, que revidou com energia, e após uns cinco disparos meteu a pique o Jary.
No dia 27 de agosto, o Destacamento do Norte, sob o comando do general João de Deus Menna Barreto, partiu de Óbidos para Manaus e no dia 30 ocupou a capital amazonense, prendendo o tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, vários oficiais do Exército, da Armada e da Força Pública, que foi dissolvida.
O general Menna Barreto nomeou, como governador provisório do Estado do Amazonas, ao coronel Raimundo Barbosa. Estava reestabelecida a paz, com a vitória dos legalistas na Amazônia.
Estes acontecimentos beneficiaram, politicamente, ao governador Souza Castro, tão combatido durante todo o quatriênio, e que no seu final, saía engrandecido perante a opinião pública. Disso podemos ter certeza, se compulsarmos as manifestações da imprensa oposicionista daqueles dias. Um longo editorial da "Província do Pará", depois de historiar os acontecimentos na órbita nacional, não regateava aplausos e elogios ao governador que tanto havia combatido:
(...) Falemos agora do nosso caso, dos acontecimentos paraenses que nos surpreenderam na noite de 26, enlutando as famílias, trazendo-nos amargurados durante cerca de 36 horas; com os corações opressos pela cerrada fuzilaria de parte a parte dos combatentes, todos irmãos, todos ligados à família paraense, uns jovens incendidos, vítimas de sua loucura, bravos, os outros servidores do Estado, os heroicos milicianos da gloriosa Brigada Militar do Estado, no seu posto de honra, defendendo a ordem do Estado. Se São Paulo teve na pessoa de Carlos Campos o expoente da coragem serena dos destemidos bandeirantes, pioneiros da civilização e da conquista dos ínvios sertões patrícios, nós tivemos também na figura imperturbável de Souza Castro, o digno governador do Pará, o exemplo emocionante da coragem cívica na sua mais legítima expressão. No meio do tumulto, das horas de angústia que atravessamos era um alento para todos quantos estavam ao lado da legalidade a certeza de que sua excelência rebento vigoroso da tradicional bravura paraense de outras eras, não desertaria de seu posto, como não desertou, nunca perdendo o contato com os valentes da Brigada Militar, que tão bem souberam cumprir o seu dever. Não há nenhuma opinião mais insuspeita que a nossa. Fora uma injustiça ocultá-Ia.
Ela vale também, como ser uma homenagem devida à figura máxima que sintetizou a resistência ao motim de anteontem, como uma demonstração de nosso critério jornalístico, que se distribui em juízos imparciais onde esteja a benemerência, sem preocupações outras que não sejam a render aos que 'merecem os preitos da justiça.
O governo teve a felicidade de ver ao seu lado a opinião pública paraense. Cercado de seus secretários e amigos leais, de pessoas que têm a compreensão da amizade pessoal, como da solidariedade política, S. Exa. sentiu o calor e o contato do povo
paraense.
É que a causa, pela sua pureza e relevância, devia unir todos os cidadãos, desde o mais alto, ao mais humilde".