CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de maio de 2013

PALÁCIO DAS LÁGRIMAS

Mário Ypiranga Monteiro (*)

Palácio em nossos dias
Infelizmente esta não é uma história divertida; ao contrário, é sinistra e pouco verossímil, mas juro que é verdade, aconteceu de fato e era conhecida ao tempo em que morei na rua Quintino Bocaiuva e costumava jogar dominó no reservado da mercearia botequim "Canto dos Valentes". Eu sempre joguei mal e meu jogo era outro, escutar histórias contadas pelos parceiros, dois homens de idade e de muita experiência, residentes por perto: Jacaúna Maia e o velho Gondim. Aquele muito competente em matéria de cultura popular, e este porque fizera parte daquela celebrada "coluna patriótica" que, com Efigênio Ferreira de Sales e outros cem abnegados, marchou para defender o Acre.
Foi seu Gondim quem me relatou a história do "Palácio das Lágrimas". A família Gondim deixou uma tradição honrosa no Amazonas, pois nos deu poetas (Joaquim Gondim, que era também indigenista), músicos (Benjamim Gondim, violinista disputado nas orquestras) e outros.
O tal palácio, que era realmente uma casa nobre, de esquina (casa de esquina, morte ou ruína), vinha de 1900 e trazia a data assinalada no escudo da platibanda. Possuía grandes janelas para a avenida  Joaquim Nabuco e rua Quintino Bocaiuva, e largo portão de madeira que servira nos bons tempos à carruagem do proprietário. Este era o famoso desembargador José de Luna Alencar, cearense vindo para Manaus no tempo das vacas gordas e aqui ele também engordara, de tanto roubar.
Era pequeno, a cabeça metida nos ombros, e nunca abandonou nem o colete, que disfarçava o aleijão do tronco nem a bengala de castão de ouro nem o relógio do bolso do colete.
Andava sempre de branco, no melhor linho HJ, brilhante de trincal e a pé, até encontrar a parada do bonde da linha "Plano Inclinado', no canto do Ginásio. Tinha por mote "Jabuti de colete': e nunca ria, era carrancudo e mau, corrupto e, sobretudo, caloteiro.
Caloteiro da marca. Dos mais solertes conhecidos na praça
. Solerte e sem-vergonha, cara dura e de uma maldade sem limites. As crianças evitavam passar na calçada do prédio, de medo da "bruxa que comia menino", alusão à mulher do "ilustre desembargador" que atravessara governos e cambalachos empacotado de branco e com uma falsa aura de "honeste vivere”.

Uma manhã de agosto de 1938, sábado, dia de folga do magistrado, bateu-lhe à porta um moço empregado na seção financeira dos Armazéns Adrião Barroco. Vinha cobrar velha conta de um lustre de cinquenta lâmpadas e um relógio de pé. Foi mandado entrar e sentar-se na cadeira de balanço, na sala de jantar, enquanto sua excelência se afeitava. A demora era tediosa, ouvindo aquele tique-taque monótono do grande relógio, mas o moço fora alertado pelo gerente da casa a ter paciência e receberia uma comissão vantajosa, no caso de ser paga a dívida que já andava pelos três anos. O rapaz esperava... Esperou... quinze minutos, meia hora, uma hora, com os olhos pregados no grande ponteiro que se aproximava do meio-dia...

E então sua excelência entrou de calças brancas e suspensórios e camisa de punho arregaçado, calçando pantufas. O rapaz falou-lhe delicadamente na conta e exibiu a fatura.
- Dê-me cá, e espere...

Foi-se e o relógio pacientemente bateu uma hora e ia passar às duas quando o magnata da safadeza entrou e com espanto disse:
- O senhor "ainda" está aqui?
- Vossa excelência mandou que esperasse...
- Mas eu já lhe paguei, seu tratante, ponha-se daqui para fora ou chamo a polícia...

Naquela altura as únicas testemunhas do fato foram a mulher do tal e o jardineiro, que ousadamente pegou o rapaz pelo braço e o foi empurrando para a rua. Dali o próprio desembargador telefonou para o armazém, relatando o fato, e dizendo estar o rapaz pretendendo receber duas vezes a mesma quantia já paga em dinheiro.

A situação do empregado era de desconforto moral. O gerente desconfiava dele e deu queixa na polícia. Preso, fixado (sic), desmoralizado publicamente, o pobre moço só teve uma saída: pendurar-se numa corda.

Mas antes deixara uma carta à noiva, contando a verdade. Dizia-me o velho Gondim que a jovem noiva havia ajoelhado e ao meio-dia rogado uma praga contra o bandido de anel no dedo e a bruxa que acolitara a infâmia. E que a praga pegara, pois logo depois a bruxa dava urna queda na escada da cozinha, ficando capenga para o resto da vida.
Quanto ao desembargador, aposentou-se com uma úlcera duodenal, que o "levou para o inferno" já na sua terra, o Ceará.

O "Palácio das Lágrimas" teve o mesmo destino. Vendido, passou a hotel ratuíno que logo fechou as portas e depois foi posto a baixo, porque, no dizer do adquiridor, a casa estava amaldiçoada.

(*) Reroduzido de HISTÓRIAS FACETAS DE MANAUS, de Mário Ypiranga Monteiro. Manaus: Governo do Estado/SEC, 2012.
Nota 1: O nome correto do desembargador (aposentado em 1934) é Martinho de Luna Alencar. O “palácio” demolido vem sendo substituído sem qualquer afobação por uma edificação, cujo térreo está revestido de vidro (foto).