CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

25 de maio de 2013

HISTÓRIA DE MANAUS


Mais um texto sobre a história do Amazonas, dessa vez sobre os primeiros momentos da sua capital, escrita pelo autor de História do Amazonas, em 1931. Dois anos depois, em colaboração para a revista Victoria-regia, assina o artigo aqui postado.

A VILA DE MANÁOS (*)

Arthur Cézar Ferreira Reis

 

Foi em 1669, que um oficial português, Francisco da Motta Falcão, de ordem do governador paraense Coelho de Carvalho, veio levantar o fortim de São José do Rio Negro.
Quem verificou o fato? O ouvidor Ribeiro de Sampaio, homem-ação, espírito atilado, culto, ao lado do cumprimento de suas obrigações judiciárias, recolhia quanto interessava o povoado da comarca que lhe tinham confiado. A história do fortim, nos seus primeiros instantes, devemo-la a ele, que a recolheu em meia dúzia de linhas de seu muito estimável “Diário da viagem de Correição etc.”.

Registros dos primeiros momentos de Manaus-AM
 
O estabelecimento militar era de pouca eficiência bélica. Artilhado com quatro peças, servia antes à proteção dos sertanistas ousados que inventavam a escravização do braço indígena. Daí, talvez, a lição de João Ribeiro, quando escreveu que a guarnição ali era volante, querendo deixar patente a constante movimentação da tropa, saída não poucas vezes para cooperar com o sertanista em perigo às sortidas violentas do ameríndio.

À sua volta logo principiaram os tapiris indígenas. Barés, banibas, passés, trabalhados cristãmente por dois jesuítas, cujos nomes se perderam, aldearam-se ali. Foi aos poucos nascendo um povoado. Brancos também começaram a chegar-se à sombra da casa forte.
Na sexta década do século XVIII, refere-se o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, alguns centos de nativos, às ordens de Manuel Dias Cardoso, criminoso perdoado por D. José, vieram para o lugarejo, o Lugar da Barra, como então lhe chamavam.

Até 1791, nada de importância lhe veio dar nomeada. O general Pereira Caldas, chefe da comissão de limites com as colônias espanholas no setor norte, votava-lhe simpatia. Por que a capital da Capitania de São José do Rio Negro, edificada em Barcelos, não se levantava ali, ponto magnífico, posição central para as províncias ao Solimões, ao Baixo Amazonas, ao Madeira e ao próprio Rio Negro?
A velha Mariuá fora escolhida, asseguram alguns autores, porque oferecia, no momento da criação da Capitania, melhores acomodações aos governantes, uma vez que Mendonça Furtado fizera edificá-la pomposamente, para o grande espetáculo político-internacional que seria a reunião das comissões portuguesas e espanholas encarregadas dos limites na Amazônia. Então as razões de estado que aconselhavam a transferência da sede da administração não se levavam agora em conta?

Lobo d’Almada, o mais arguto e o mais digno estadista que a Amazônia conheceu, -- fiado em que lhe bastavam essas mesmas razões, aventurou-se ao passo arriscado, dispensando a autorização do Pará e da metrópole. E em 1791, com o pessoal que formava o aparelho diretivo do rio Negro, estabelecia-se no Lugar da Barra.
São unânimes os cronistas, na afirmativa que o povoado não desse ares de maravilhar. Menos que isso até – com população minguadíssima, na maioria gentilidade, ano a ano mandada, pelos decimentos, a engrossar as fileiras dos moradores do pacatíssimo lugar nascente.

Lobo d’Almada, na futura Manaus, não descansou mais um instante. Reformou o pouco que havia. Rasgou ruas, abriu caminhos, construiu os edifícios públicos, instalou fábricas, animou a vida econômica do lugar com o comércio e a agricultura a que deu o mais franco impulso.

Em breve tempo já era outro o Lugar da Barra, provocando, naturalmente, as ciumadas das vilas do Solimões, Baixo Amazonas e Rio Negro. Mas, Lobo D’Almada governava o Amazonas, convém não esquecer. E governava-o com heroísmo, com vontade de acertar. Não era possível, portanto, continuar aquilo assim. O Amazonas progredindo?... A intrigalhada começou. D. Francisco de Souza Coutinho, capitão-general do Grão-Pará, a quem Almada estava subordinado, dispunha de força, de prestígio junto à Corte, em Lisboa – um irmão no ministério! Suspeitando que Almada pudesse vir a substituí-lo nos destinos do vale todo, apressou-se em criar-lhe ambiente negro. Foi feliz na empreitada, pois lhe deram crédito – Almada andava a engordar o bolso a custa da Fazenda Pública, fez crer na metrópole.

Não houve defesa que servisse, mesmo porque a correspondência do infamado não chegava às vistas do pessoal da metrópole, interceptada em Belém ou em Lisboa pelo muito nobre mano de D. Francisco. A história de sempre, não parece ao leitor? Almada era bom, honesto, empreendedor, procurava elevar o Amazonas, logo...
A sede da Capitania, por ordem régia, obra das maldades de D. Francisco, regressou a Barcelos. Ano de 1798, mês de maio. Em 27 de outubro desse ano, Almada, abatido ante tanta miséria (como os tempos se parecem) não pode mais resistir.

A Capitania, o Lugar da Barra entraram a definhar. Em 1804, já o Pará entregue aos cuidados do Conde dos Arcos, a memória do inesquecível batalhador pela grandeza do Amazonas foi louvada, com a determinação claríssima para que a Barra voltasse a agasalhar os governadores do Rio Negro.
É bem verdade que os homens mandados a continuar a obra gigantesca de Almada não lhe souberam seguir as pegadas. A Barra, consequentemente, não teve progresso assinalável. Até o fim do domínio colonial. Teatro de acontecimentos remarcáveis na história amazonense, no período que vai de 1823 a 1833, cresceu em população, desenvolveu o comércio. Nas atas da Câmara de Serpa, que por vezes veio funcionar aqui, há abundante material para conhecer-se do aumento do Lugar com os chãos concedidos, com as autorizações para a abertura de casas de negócio, aspectos sociais interessantes que vou detalhar inteiro mais adiante, em livro em preparo.

Em 1832, havia onze ruas e duas praças, o perímetro urbano grosso estava a área entre São Vicente e a face esquerda do Jardim da Matriz, onde corria o igarapé do Espírito Santo e se levantava uma ribeira de construção de embarcações.
Nos Remédios, começava a formar-se um bairro, em torno da capela iniciada em 1818. Era de difícil acesso, por separada do restante da Barra por igarapés. Da delegacia fiscal para a praça general Osório e daí para cima era a campina. Na Cachoeirinha, aqui e ali, sítios.

*  *  *

Em 1832, em novembro, o governo da regência fez entrar em vigor, para todo o Império, o Código do Processo Criminal. Reformava-se, pela lei sábia, a organização judiciária da Nação. Em Belém, a 25 de junho de 1833, o Conselho Provincial na sua alta ciência de legislador, cumprindo o que estava ali estatuído, alterou a divisão do Pará. A comarca do Rio Negro passava a denominar-se do Alto Amazonas, com novos limites, ilegalmente mandados observar sem a aprovação do Parlamento Nacional como era de direito. Das vilas antigas foram mantidas Barcelos e Ega, sobre os primitivos nomes de Mariuá e Tefé; Serpa (Itacoatiara), Silves, Borba, São Paulo de Olivença, São Jose do Javari, Moura, Tomar, passaram a simples termos, subordinados às duas vilas conservadas e às duas novas criadas – Manaus e Luzéa (hoje Maués).

Esta era dos mais novos núcleos humanos criados. Datava de fins do século XVIII, quando os Mundurucus tinham sido pacificados. Ainda obra de Almada. Contava com a população de 1.627 indivíduos, que cultivavam 129.000 pés de café, 23.700 de cacau, 24.500 de tabaco e 51.900 de algodão. Daria que falar nos dias sangrentos da Cabanagem, com os feitos de Bararoá e de Miranda Leão, o famoso Quebra Ferro.

Manaus, com o título ambicionado, enchia-se de alegria. De então em diante, dominaria o Amazonas. Pelo decreto citado, passava a ter câmara municipal, juiz de direito, juiz de órfãos, juiz de paz, promotor público. Não demorou muito a execução do que a lei mandava.
A Câmara foi instalada a 21 de dezembro de 1833, no edifício da Fábrica Imperial. Os vereadores escolhidos em eleição, realizada a 17 de dezembro, foram – Manoel Gonçalves Loureiro Filho, presidente, Francisco Gonçalves Pinheiro, Matias da Costa, João Inácio Rodrigues do Carmo, Henrique João Cordeiro, Cláudio José do Carmo e Francisco de Paula da Silva Cavalcante.

Houve regozijo público. Na matriz da Nossa Senhora da Conceição, ao tempo no que é hoje a praça Nove de Novembro, frei José dos Santos Inocentes celebrou solene Te Deum. As casas dos moradores estiveram iluminadas por espaço de três dias. A Câmara não pagou logo as despesas. Frei José, a 5 de abril de 1834, compareceu de requerimento em punho, cobrando o que lhe deviam – 26$000!

Os demais cargos também foram preenchidos – juiz de direito, interino, Henrique João Cordeiro; juiz de órfãos, João da Silva e Cunha; promotor, Francisco Alexandre Leite, o primeiro da lista tríplice apresentada à escolha do presidente do Pará pela Câmara manauense.

De humilde Lugar da Barra, sujeito à Câmara de Serpa, à Câmara de Barcelos, Manaus era agora vila, sede da comarca do Alto Amazonas. A Cabanagem (1835-40) estava a estourar e com ela o relevo político do burgo que nascera à sombra da casa forte de Motta Falcão.

(*) Reproduzido da revista VICTORIA-REGIA, circulada em Manaus, em outubro de 1933.