CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de maio de 2013

FACETA DE QUINTINO CUNHA


Reproduzida do livro Histórias Facetas de Manaus: anedotas envolvendo figuras amazonenses, de Mário Ypiranga Monteiro, 2013
 
A Chicana do Poeta
O poeta cearense Quintino Cunha (1875-1943) quando veio de embrulhada na corrente migratória do fim do 19º século, a fim de "cooperar na colonização da selvagem Amazônia”, só trazia de seu talento e a roupa enxovalhada. Seu estado de miserabilidade comoveu ao parente, comandante Luís Gonzaga Frota, que lhe deu a morar sua baia na rua [Princesa] Isabel, e apresentou-o a diversas pessoas de influência comercial na cidade.
Naquela altura o comandante Frota dava as cartas, até que a muita liberdade dos filhos (da primeira enxurrada) o atirassem na desgraça. Por uma besteira. Por causa de pombos o comandante da Amazon River viu-se de repente assassino do comerciante português da esquina das ruas Isabel - José Paranaguá. Levado às barras do tribunal duas vezes, foi absolvido, mas perdeu o lugar porque a poderosa firma J. G. Araújo impôs condições à companhia.
Acabou funcionário medíocre do Mercado Público quem fora rico proprietário de cavalos que bebiam champanha nas cavalgadas domingueiras e tinham ricas acomodações de cantaria de pedra. Nessa baia foi ele residir com a família da segunda esposa, quando veio a decadência. Hoje, aquilo pertence aos herdeiros do Dr. Felismino Soares.
Quintino Cunha não foi sujar as mãos no corte de seringueiras. Ficou em Manaus, rondando os tribunais, pois arranjara uma carta de solicitador. Mas de vez em quando viajava no navio comandando pelo parente Frota, e nessas viagens esporádicas coletou material para o livro - Pelo Solimões, hoje raro, publicado em Paris [FRA] com o dinheiro adquirido na chicana. (Este livro foi reeditado pela Editora Valer).
No princípio do século 20 deu-se um naufrágio no rio Juruá, em que se perderam a lancha "Luci" e o batelão "Lucimar”, este carregado de borracha, segundo a palavra do comandante, no processo aberto pelo proprietário da embarcação e do produto, coronel L. G., a fim de fazer jus ao prêmio de seguros.
O comandante Frota solicitou ao coronel entregasse a questão ao rábula. Quintino Cunha viajou para o rio Juruá, a fim de incorporar-se ao ambiente, mas no seu foro íntimo com propósito diferente: armar o esquema de fraude jurídica, pois na verdade o batelão nada trazia no porão, embora houvesse realmente submergido. Essa manobra não constituía novidade: tempos depois se verificou o caso conhecido como das "alvarengas”, em que foi personagem principal um português gordo, fiel da Manáos Harbour. Mas este cometeu o erro de naufragar as alvarengas perto do porto, e os mergulhadores constataram a fraude.
Quintino Cunha trouxe do Juruá duas pelas com as marcas L. G., que um ribeirinho havia pescado à deriva e que serviram de provas. Naturalmente houve controvérsias e até exigências de depoimentos técnicos, do tipo de só haverem boiado duas tristes pelas etc.
O chicanista poeta respondeu aos quesitos formulados pelo advogado da companhia de seguros, que era o Dr. Celso Valverde e ganhou a questão, que lhe renderia cento e vinte contos de réis, só pelo prejuízo da borracha perdida (que não havia) e mais duzentos contos de réis ao proprietário das embarcações. De posse dessa panela de ouro o poeta escafedeu para sua terra, foi estudar Direito e casou-se.