CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de abril de 2013

HISTÓRIA FACETA


Mário Ypiranga Monteiro
Nota 1. Na quinta-feira 25, a Secretaria de Estado da Cultura promoveu o lançamento de três livros, um deles pertence ao finado escritor Mário Ypiranga Monteiro – Histórias facetas de Manaus: anedotas envolvendo figuras amazonenses. Um desses chistes, reproduzo no espaço. 

O DIAGNÓSTICO DO DR. W. R. C.

Ele chegou aqui, na sua cidade, mais recomendado como intelectual do que como médico. Pelo menos de medicina não entendia patavina, mas conseguiu ser coronel médico da Polícia Militar do Estado, uma sinecura que já lhe assegurava o pirão diário. Como detestava o pai, desligou-se da comunhão da família e foi morar no "Esquadrão': uma república de moços instalada nos altos do prédio de esquina da avenida Sete de Setembro com rua Guilherme Moreira. Lá residiam também os celibatários Dr. Genésio Cavalcanti, Mirandolino Borges etc. Ficava mais perto da "boia" gratuita na briosa.

Capa do livro
O homem já havia publicado o seu romance No circo sem teto da Amazônia, páginas em que o pai sentara a pua, corrigindo os erros de gramática. Por isso não se beijavam e toda vez que o Dr. R. se referia ao genitor era para chamá-lo "cavalier".

O primeiro diagnóstico do médico da PM foi também a sua primeira deserção da área da medicina curativa. Ele compreendeu que os cinco anos de boêmia literária na Bahia não o autorizavam a exercer dignamente a profissão e abandonou tudo.

Melhor assim: como intelectual era brilhante, e tanto poetava como cronicava, mau grado (sic) seus exageros fazerem mal a certos prosadores da paróquia. Sustentou galhardamente uma coluna no jornal A Tarde, de Aristofano Antony, “Quadrilátero da quinta hora”.

O caso do diagnóstico criou fama e deitou ramalhos. A esposa de um da Polícia Militar surgiu na enfermaria com um problema que a torturava: dores uterinas e cefalalgias contínuas. O Dr. W. R. não teve dúvida: tamborilou no bucho da mulher e receitou quinino para paludismo (hoje os médicos diriam bestamente "malária': imitando os do Sul). As doses fortes de quinino não surtiram efeito e a barriga da mulher intumescendo a olhos vistos: dois, cinco, sete, nove, doze meses ... E tome quinino!

Chamaram apressadamente o Dr. Flávio de Castro e este ficou assombrado com o estado da mulher: havia engravidado e o filho jazia morto... Escapou, todavia, mas a infeção eliminou nela a possibilidade de vir a ser mãe algum dia.


Nota 2. Este médico da Polícia Militar do Estado eu conheci. Trata-se do Dr. Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier (1909-72). Ou, simplesmente, Ramayana de Chevalier, que viveu e morreu no Rio de Janeiro. Dirigiu a Secretaria de Administração do Estado, no governo de Gilberto Mestrinho (1959-62). Pertenceu a Academia Amazonense de Letras e ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. E, de fato, como médico foi um excelente escritor.