CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

22 de maio de 2013

IGREJA DOS REMÉDIOS (1ª parte)

LIGEIRO HISTÓRICO DA IGREJA DE N. S. DOS REMÉDIOS

Francisco Bemfica (*)

A ânsia de descobrimentos marítimos no século XV – força poderosa que tanto impedia o homem a ir “sobre o dorso das ondas conquistarem a predestinação dos heróis” em busca do desconhecido, na glória de desvendar novas terras – jogando o aventureiro audaz à Terra do Cruzeiro, trouxe com ele a religião católica.
 
Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em
construção, no início do século passado
 

E foi esta – à qual mais deve o Brasil a sua civilização – a primeira que, pela palavra purificadora de seus missionários, veio dar a ideia do verdadeiro Deus aos nossos nativos, sendo também a primeira que erigiu templos, desde o litoral aos sertões mais distantes das nossas matas, cujas modernas catedrais e as ruínas de antigas igrejas atestam em nossos dias a obra formidanda do Cristianismo no Brasil.

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Majestosa, embora o seu tamanho, olhando a mansidão das negras águas da baía do mesmo nome, está a igreja N.S. dos Remédios encerrando em si um capítulo magnífico da história da religião católica no Amazonas, a terra que “ainda não estava preparada para receber o homem”.
Em 1818, toma conta do governo da Capitania Manoel Joaquim do Paço. Homem escravo do ouro, ambicioso, tratou logo de arranjar meios, embora ilícitos, por onde pudesse realizar sua desmedida auricídia. E assim pensando, erigiu, uns 609 passos abaixo da povoação da Barra, uma capela que denominou de N.S. dos Remédios.

Escudado sob a falsa aparência de seu benfeitor, organizou uma lista dos moradores que podiam dispor de dinheiro, e mandando-os chamar um a um, “arguia-lhes sobre o crime do cordeiro pelo lobo da fábula, e sem mais os deixava ir passear na Barra, e lhes impunha a taxa de esmola para a igreja N.S. dos Remédios de 500$000, 400$000 e 300$000”. E mais, era praxe oferecerem-lhe uma ceia, aumentando as despesas de mais uns 80$000. E só assim poderiam se ver livres...

Felizmente que esse salteador mascarado não demorou muito no governo da Capitania, sendo logo deposto.

Ao chegar, em 1821, a notícia do movimento constitucionalista, foi a metade da igreja destruída pela fúria inconsistente de alguns exaltados patriotas, sendo, porém, pelos esforços do ouvidor Dr. Manuel de Bernardino Figueiredo, reconstruída e franqueada ao público mais ao menos no ano de 1828. Erroneamente J.B. (João Batista de Faria e Souza), em uma monografia publicada sobre a igreja dos Remédios, assinala essa reconstrução no mesmo ano de 1821, pois em ofícios encontrados no arquivo público verificamos que só em 1827 é que chegou à Barra o ouvidor Manuel de Bernardino Figueiredo.
Logo, os reparos por ele feitos, só poderiam ter sido depois de 1827...
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Quando, em 1850, no dia 2 de julho, a igreja matriz N. S. da Conceição foi destruída pelas labaredas de um incêndio, os Ofícios Divinos passaram a ser celebrados na igreja dos Remédios. Devido estar esta situada no bairro do mesmo nome, a E. (Leste) da cidade, e para se ir até lá fosse preciso atravessar alguns igarapés que cortavam a cidade, e em tempos de cheia só houvesse passagem em pequenas canoas, que punham em perigo de vida os seus tripulantes, ou então uma péssima estrada, muito longa, que contornava a cidade, algumas dificuldades se opunham aos fieis dos outros bairros – S. Vicente e Matriz – a irem comumente à improvisada matriz.
Na presidência do Dr. João Pedro Dias Vieira, em 1867, foi-lhe levantada uma torre, que as chuvas não deixaram terminar os últimos reboques, causando isso, mais tarde, a quase destruição da parede-mestra. Também lhe reformaram interior e exteriormente, erigiram à entrada um coreto para música e ao lado do altar uma tribuna, correndo todas as despesas por conta do município e de uma subscrição feita pelo reverendo cônego Vigário-Geral.
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Em consequência de não terminarem os reboques derradeiros da torre e a parede-mestra ameaçar desabar, novos reparos se impunham à igreja, e que não eram descuidados pelos governos, desde 1857.
Wilkens de Matos, em seu relatório à Assembleia Legislativa, em 25  de março de 1870, declara que as obras da igreja dos Remédios estão quase concluídas, tendo feito uma despesa de 10.626$304 (dez contos, seiscentos e vinte e seis mil e trezentos e quatro réis).

No ano seguinte foram os reparos terminados, na presidência Miranda Reis, que gastou mais 2.269$343. Foi somente em 1878 – cinco anos mais tarde depois de sancionada a lei nº 564, dividindo a freguesia de N.S. da Conceição de Manaus em duas – que o bispo diocesano Dom Macedo Costa, canonicamente instituiu a paróquia de N.S. dos Remédios, por ter sido então promulgada a referida lei nº 564.
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Em 1896, a 23 de maio o Congresso dos Representantes do Estado decretou e promulgou uma lei que autorizava o governo a “entregar os próprios estaduais e municipais, destinados aos ofícios da religião católica, ao Bispado do Amazonas”. Como não pudesse entrega-los em perfeito estado, o Dr. Fileto Pires, governador do Estado, ordenou que fosse entregue ao Bispado a quantia de 50.000$000 (cinquenta contos de réis), a fim de serem renovados os próprios ofertados. Desse dinheiro, 10.000$000 tocaram à igreja de N.S. dos Remédios. (veja a 2ª parte)

(*) Reproduzido da revista Victória-regia, circulada em abril de 1932. O autor do texto era seu proprietário e editor.