CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

11 de maio de 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS (2)

Quartel da Polícia Militar (fundos), visto da rua Lima Bacury,
foto do Album Findanza, 1902
 
Há, todavia, outro pormenor a apreciar sobre o aparecimento da música na PM do Amazonas. Trata-se da existência de corneteiros, já referida em 1878, dois anos após a reativação da PM, referida pelo seu comandante, major Silvério Nery (pai do governador de mesmo nome). Um detalhe: é sabido que compete a esses profissionais anunciar cada atividade de qualquer corpo militar, ou seja, o toque de corneta anuncia a atividade diria dos quarteis. Ou anunciava, pois a modernidade vem “aposentando” esse profissional.
Em janeiro de 1890, com a posse do primeiro governador, tenente Ximeno de Villeroy, a organização politica do Estado toma novo encaminhamento.  A Polícia Militar (Batalhão Militar de Segurança) ocupa o edifício na praça da Polícia, ainda que em sua dimensão original, todavia, capaz de abrigar com mais conforto aos policiais. A ampliação do mesmo quartel que herdamos ocorreu em 1895, realizada na administração de Eduardo Ribeiro (1892-96), e era comandante da Força Estadual o major Raimundo Afonso de Carvalho.

A Banda de Música ocupava uma parcela nesse novo endereço. Acompanhava a corporação, que crescia a par da evolução do Estado ou, para ser mais consequente, da capital do Amazonas. Tratando-se de Segurança Pública, em janeiro de 1897, o governador Fileto Pires amplia a Força, organizando o Regimento Militar do Estado, composto de dois batalhões e, quanto ao assunto que interessa a este trabalho, de 56 músicos.
A existência de dois batalhões levou a criação de duas bandas de música. Era a pujança da capital da borracha que permitia ainda o aparecimento de terceira banda, esta para atender ao Corpo de Bombeiros. Há registro de seu maestro e de alguma presença nos coretos de Manaus, apesar de sua pouca duração. Todavia, cabe uma indagação: com tantas bandas militares, como a corporação conseguiu tantos músicos?
Objeta o contramestre Augustinho: os músicos que formaram os primeiros naipes, “podem ter vindo do Nordeste”. Entretanto, ocorre-lhe outra hipótese: aqueles profissionais podem ter adquirido o gosto pela música durante o ensino secundário, que  abrigava o ensino desta arte. Muitos deles “passaram pelo  Estabelecimento dos Educandos Artífices”, cujos mestres de música também ministravam aulas particulares.  De minha parte, acredito que a hipótese mais viável foi o da importação nordestina, cujo sistema ocorreu até o final do século passado.
Essa presença de duas estruturas musicais na Polícia Militar ensejou a criação de uma direção superior, acima obviamente dos maestros. Deu-se a este organismo o título de Inspetor de Música, função que podia ser exercida por oficial do ramo ou da tropa. Alguns aspectos de seu desempenho são descritos pelo autor de A música na Polícia Militar do Amazonas... Era o responsável pela assinatura de contrato musical com particulares para execução pela banda. Cabia-lhe ainda “o recebimento do valor acertado”, e a divisão entre a corporação e os músicos empregados.
Um desses contratos, recolhido pelo Augustinho, em documento de 1910, detalha muito bem o enunciado: “Aprova-se o contrato feito pelo Sr. Inspetor de Música com a diretoria do Whit-club, de sete orquestras da Banda de Música, para tocarem nas funções do mesmo, a realizarem-se (sic) nas noites (de) 8, 15, 22 e 29 do corrente, e nas (de) 5, 6 e 8 de fevereiro; sendo nas noites de 8 e 22 as orquestras de cinco músicos cada uma e as demais de dez ditos, inclusive a pancadaria (instrumentos de percussão), a 150$000 devendo seguir as orquestras às 9 horas da noite e tocar durante seis horas”. Em resumo, orquestras da Banda animaram o carnaval de 1910, no Whit-club, consolidando a elevada categoria nesse tipo de festejo, condição que se perdurou durante décadas.
Neste ensejo, o tenente Manoel Joaquim Pereira da Silva (ainda não bem identificado) era o Inspetor das bandas. Ainda alcancei, ao ser incorporado na Polícia Miliar em 1966, esses dois assuntos: 1) o contrato da Banda para tocar em festejos particulares, com a divisão da renda, e 2) o nível da orquestra na condução em especial de bailes carnavalescos.  
“Outra função do Inspetor de Música era a indicar os músicos à promoção funcional”, assegura Augustinho. Antes de elucidar esse aspecto, devo acrescentar que na primitiva composição da Banda, em 1890, apenas se referia a músicos, sem qualquer hierarquia. Mais adiante, em 1892, no governo atabalhoado de Thaumaturgo de Azevedo, surge a distinção de “músicos de 1ª, 2ª e 3ª classe”, inclusive com a elevação do soldo. Somente no meado do século passado é que os músicos tomaram as divisas de sargentos e o maestro, a de oficial.
Em janeiro de 1912, morreu o capitão Lavor, nascido no Ceará, com 48 anos, regente das bandas da PM. O necrológio foi extraído do Jornal do Commercio: “de uma enfermidade pertinaz, que há dias o prendia ao leito, veio a falecer ontem 13, às 10h da noite, em sua residência no bairro da Cachoeirinha, o capitão Manoel Napoleão Lavor, do 1º Batalhão de Caçadores da Força Policial do Estado”. Prosseguiu o matutino: cidadão que prestara grandes serviços ao Estado, soldado que soube ser sempre disciplinador e brioso, o capitão Lavor era também um músico de merecimento real, compositor distinto e executante de técnica apurada. E, encerrando, assegurou que Lavor “dirigia ultimamente as duas bandas de música da Força, como ensaiador geral”.  (segue)