CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

22 de dezembro de 2011

A Cadeira 21 da Academia (2/2)


Sede da Academia Amazonense de Letras,
 1984
Competiu ao acadêmico Mithridates Corrêa a indicação deste salesiano, prontamente acatada pela assembleia de 26 de fevereiro de 1955. Quase um ano depois, em 27 de janeiro, ocorreu a posse do terceiro sacerdote na Casa de Adriano Jorge. No entanto, meses depois, padre Pereira Neto foi transferido para Salvador (BA), do que se infere ter ele passado à categoria de correspondente, em consequência, abrindo vaga.

Para supri-la, a Academia Amazonense elegeu em novembro de 1959 o novo legatário: Socrates Bonfim (1908-84). Nascido em Eirunepé (AM), este juruaense tornou-se “imortal” pela extensão de suas terras em Manaus e, na classe dos industriais, como fundador da falida Siderama.
Apesar de o Silogeu amazonense ter aguardado com bastante benevolência pela sua investidura, concedendo-lhe repetidas prorrogações de prazo, a mesma não sucedeu. Desse modo, em 1º de fevereiro de 1963, a diretoria manteve a vaga, ou seja, dispensou o eleito. E prontamente tratou de preenchê-la.

Em 23 do mesmo mês, escolheu ao bacharel Plínio Ramos Coelho (1920-2001). Oriundo de Humaitá (AM), obteve graduação pela Faculdade de Direito do Amazonas (turma 1947), porém, envolvido na política, foi eleito deputado (estadual e federal) e governador pela legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Quando escolhido para a 21, governava o Estado no segundo mandato.
Certamente as vicissitudes do encargo não lhe permitiram de pronto que tomasse posse. Em outubro de 1963, os acadêmicos em reunião marcaram-lhe a primeira prorrogação para a posse: até 31 de março de 1964. Que data aziaga para o eleito!

Plinio Coelho, 1958

Nesse dia, aconteceu no País o golpe militar que acabou por defenestrá-lo do Poder Executivo do Amazonas. Cassado em seus direitos políticos em junho, Plínio Coelho desinteressou-se da Academia de Letras. Entretanto, a direção desta tratou de consertar o dano. Para isso, em agosto, despachou duas “expedições” acadêmicas: uma, em direção ao eleito, guiada pelo próprio presidente, Leôncio Salignac; outra, rumo ao governador Arthur Reis, capitaneada pelo acadêmico Álvaro Maia e mais quatro sócios.
O rendimento da operação foi conhecido no mês seguinte. A 12, a diretoria decidiu conceder ao escolhido o prazo “sine die” para a posse. Traduzindo: até quando Deus quiser, o sagrado aqui era o “Ganso do Capitólio” (alcunha política de Plínio Coelho).

Arthur Reis, c1966

Este, então, usufruiu integralmente do benefício, tanto que estabeleceu um recorde imbatível. Somente 21 anos depois, em 1984, quando seu compadre Gilberto Mestrinho havia assumido o governo do Estado (1983-87), e a redemocratização do País já era enunciada, a Cadeira 21, enfim, foi novamente conquistada.
Plínio Coelho, quando estudante, publicara alguns poemas em jornais da cidade, porém, seu intenso vigor político talvez tenha ofuscado esse exercício do espírito. No entanto, como para manter poetificada esta poltrona publicou, em 2001, Vozes da Amazônia (São Paulo: Imaginária). Morreu no mesmo ano; cremado seu corpo, as cinzas fertilizaram seu sitio no Puraquequara, para atender ao seu desejo expresso em Quando eu morrer... (1944)

Que, em cinzas, o meu corpo adube a terra fria,/ Donde ressurgirei ao despertar do dia,/ Em selva transformado, ou transformado em sangue.
Desde 2005, o sexto ocupante desta poltrona sustenta-lhe um estigma. Segue ocupada por um consagrado poeta: Luiz Franco de Sá Bacellar, opa, Huet-Bacellar. Diante de tantos embaraços, que registrar sobre Bacellar, em relação a 21? Apenas que ele ampliou o seu sobrenome, enobrecendo-o, e que considera ter sido embaraçado pelos colegas, pois seuprecursor, quando governava o Amazonas, teve ímpeto de... Mas isso é outro capítulo, quem sabe um dia a gente conheça o final. Por isso, vida longa ao visconde Huet-Bacellar.