CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, agosto 17, 2026

MEUS OITENTANOS (14)

 

FASCÍCULO 14 


Enquanto concluía a baixa do contrato no Tropical Hotel, comuniquei ao quartel da Praça meu retorno, que se concretizou no final de janeiro. A empresa liberou-me no dia 20, mas, ainda dispondo de alguns dias de licença na corporação, só voltei a envergar o uniforme em fevereiro. Retornei ao serviço no 1º Batalhão, em Petrópolis — conhecido como “presídio” —, afastado do centro e imerso nas agruras de um bairro ainda em formação. À época, a unidade estava sob o comando do coronel Pedro Lustosa. Sob sua liderança, o batalhão transformou-se: as instalações passaram por ampla reforma e a disciplina ganhou rigor. Lustosa era respeitado, meticuloso e excessivamente organizado; atributos que, paradoxalmente, causavam estranhamento entre seus pares. Foi nesse contexto que me indicaram para subcomandante, esperando que minha irreverência e suposta negligência desestabilizassem o coronel. Nada disso ocorreu; pelo contrário, estabeleceu-se uma colaboração sólida.

Quartel do 1º BPM, atual Comando-Geral, em
Petrópolis - Manaus

Voltei ao batalhão com outra disposição, consciente de meu dever de apoiar o comandante. Realizei minhas funções de forma relevante, embora discordasse de alguns de seus métodos, como a formatura matinal, que expunha os oficiais diante da tropa em semicírculo, ouvindo longas admoestações. Muitas vezes, a cerimônia se estendia em demasia e chegou a ser motivo de altercação. As instalações, devidamente restauradas, foram entregues aos cuidados dos comandantes intermediários. Em certa ocasião, alguém escreveu um gracejo “espirituoso” na porta do banheiro envolvendo o coronel Lustosa; imediatamente fui escalado para descobrir o autor. Confesso que nem sequer iniciei a busca.

O aquartelamento, originalmente construído para receber o comando superior instalado na Praça da Polícia, era desmedido. Aproveitando suas amplas dependências, ali se realizavam cursos diversos, o que mantinha constante movimento. O efetivo circulante era respeitável, e o batalhão pulsava como um organismo vivo, onde disciplina e irreverência se cruzavam em um cotidiano intenso.

Vista do campo de futebol no Batalhão

Demorei a compreender a liturgia das formaturas conduzidas pelo coronel Lustosa. Só mais tarde, convivendo com oficiais oriundos das academias de polícia, percebi que cada um aplicava o gestual aprendido em sua formação, já que na corporação amazonense não havia regras estabelecidas. Recordo-me do coronel Medeiros, comandante-geral, que sempre alertava os oficiais formados em São Paulo: ao receberem uma missão, deveriam reduzir a projeção da operação por cem. Um deles, intrigado, perguntou o motivo. Medeiros explicou: “Cem mil é o efetivo da PM paulista; no Amazonas, somos apenas dez mil.” Era uma lição de proporção e realidade.

Detalhe do meu Currículo, Faculdade de
Direito, entre 1975-77

Assim transcorreu aquele ano. Frequentei a faculdade com ânimo renovado, cursando quatro disciplinas no primeiro semestre e três no segundo, todas aprovadas com coeficiente entre cinco e seis. Morava na rua Amazonas, no Morro, com minha companheira, em uma casa de madeira modesta, sem regalias e até sem privacidade, já que os jovens vizinhos “brechavam” nossa intimidade. A vida era simples, marcada pelo Fusca que exigia reparos constantes, mas também por uma rotina que me ensinava a valorizar o essencial.

Residência no Morro da Liberdade, em 1977

Guardo ainda duas tramoias pessoais daquele tempo. A primeira ocorreu no encerramento de um curso de soldados, quando era imprescindível atualizar as fichas individuais para encaminhá-los aos novos destinos. O coronel Lustosa chamou o capitão Maciel, responsável pela seção de pessoal, e determinou que organizasse os documentos, ressaltando que cada ficha deveria conter obrigatoriamente a fotografia do formado. Ao abrir o fichário, Maciel constatou que a maioria das fichas estava sem foto. Em pânico, correu ao meu gabinete em busca de auxílio. Lembrei-lhe que havia uma caixa com fotos sem identificação na seção. Recomendei: “Coloque qualquer foto na ficha; o comandante não conhece todos os soldados.” O capitão retrucou: “E se ele descobrir a armação? Você será preso. E se não colocar a foto, também será punido.” Seguiu minha orientação — e deu certo. Ao final do expediente, reunimo-nos para relaxar com algumas geladas, celebrando a astúcia que nos livrara de maiores complicações.

A segunda tramoia aconteceu na organização do almoço de confraternização dos oficiais pelo Natal. Eu já estava de férias, portanto livre do festejo, mas ainda assim sugeri ao chefe do rancho que servisse uma iguaria apreciada: pato no tucupi. O tucupi havia em abundância; o problema eram os patos. Convicto de que minha sogra poderia suprir a necessidade, prometi entregar-lhe as aves. De fato, vieram três, mas eram apenas filhotes. Diante da carência, o cozinheiro recorreu a mim. Reconheci o impasse e recomendei-lhe que completasse a panela com frangos. O resultado desconheço, pois já estava a caminho de Belém.

A viagem foi realizada em um navio da extinta ENASA, embarcação antiga cujo sistema de propulsão consistia em uma enorme roda na popa. Eu estava bem, desfrutando das férias ao lado de minha companheira, hospedado em um camarote. Na véspera do Natal, a embarcação atracou em um flutuante à entrada da baía do Marajó, aguardando a vazante da maré. O atraso forçou-nos a comemorar o Natal a bordo. Já altas horas, um membro da tripulação flagrou um jovem consumindo drogas e comunicou o episódio ao comandante, que participava da confraternização. Eu estava ali, comendo e bebendo, quando o comandante determinou que o jovem fosse isolado, após consultar-me. Contudo, os colegas do rapaz atribuíram a mim a ordem de repressão. Madrugada adentro, deitei-me exausto, mas às seis da manhã o comandante convidou-me para assistir à atracação do barco. Em Belém, permaneci para celebrar o Ano Novo com os Valois, familiares de minha companheira.

No início de 1978, embarquei em um ônibus rumo a Brasília, em mais uma das típicas viagens pelos rincões amazônicos. O percurso, apelidado de “pinga-pinga”, acumulava paradas em pequenas localidades, onde famílias inteiras subiam com todos os seus pertences. Episódios pitorescos se sucederam: em um deles, um bebê no colo encheu as fraldas além da conta, e o vazamento contaminou o interior do ônibus, exigindo parada para desinfecção. Em outra ocasião, houve parada para banho à beira de um córrego, e foi necessário fiscalizar para garantir a separação entre os sexos. Na Capital Federal, fui hospedado por parentes ligados à CVC: um tio funcionário do Banco do Brasil e dona Olímpia, sua avó de olhos verdes. Prosseguimos até Curitiba, de onde retornei a Manaus, carregando comigo lembranças de uma viagem tão árdua quanto singular.

 

segunda-feira, agosto 03, 2026

MEUS OITENTANOS (12)

 FASCÍCULO 12

* * *


No início de 1973, fui nomeado subcomandante da Companhia de Trânsito, que operava no quartel da Praça com entrada pela rua José Paranaguá, nas proximidades do Detran. Pouco durou minha atividade naquele setor, pois logo fui transferido para a Companhia de Bombeiros, operando em quartel na avenida Sete de Setembro, cujo serviço de combate a incêndios e afins fora encampado pelo governo estadual. Até então era este emprego exercido com bastante deficiência pela Prefeitura. Sem nada entender das atividades dos homens do fogo, cuidei do sucesso administrativo da nova unidade, para isso, busquei aprender com os bombeiros municipais incorporados, ainda assim acredito que o mais estravagante enfrentado foi o único teste em mergulho em igarapé de Manaus.

Quartel do Corpo de Bombeiros, quando
incorporado à Polícia Militar, em 1973

Em outubro, o comandante dos Bombeiros viajou a Paris para frequentar um curso sobre atividades do ofício; em função de seu afastamento, assumi o comando. Já havia de certo modo assimilado as atividades da companhia e nessa condição assisti ao início da construção do novo quartel erigido no bairro de Petrópolis. Permaneci no comando até o Carnaval de 1974, quando, na quarta-feira de Cinzas, fui afastado do comando por mau comportamento, ante as várias transgressões cometidas no “reinado momesco”. Uma, em dose dupla, distribui garrafas de uísque que ganhei de cortesia, no baile de carnaval que o comando promoveu na sede do Atlético Rio Negro Clube, no qual levei convidadas fora da minha família.

À época, o governo de João Walter (1971-75) ansioso por melhorar a atuação dos Bombeiros disponibilizou elevados recursos financeiros, tais que possibilitavam a farta aquisição de materiais específicos às operações. Óbvio que interessados em vendas se aproximaram com seus materiais e bastante agrados ao quartel. A subsidiária local da empresa Bucka Spiero (fabricante de equipamentos de combate a incêndios) era gerenciada pelo Orlando Novaes e possuía notável vendedor, o cearense desembaraçado Gonçalves, que possuía moderno veículo e frequentava as dependências do quartel, da cozinha ao alojamento. Ante tamanha mordomia, seu automóvel estava à disposição; uma tarde, no intervalo do almoço, tomei este carro e sai para um rolê, cujo passeio marcou minha vida, pois nesse giro alcancei a jovem C. que vivenciou comigo incontáveis aventuras. Nesse interim, aconteceu um desarranjo familiar devido meu envolvimento com a jovem Conceição Valois, ardor que durou décadas.

Dos Bombeiros fui transferido para o 1º Batalhão, em quartel recém inaugurado que era um primor de arquitetura, porém cercado por vielas mal cuidadas, com pouco transporte e nenhuma comunicação, sequer telefone, no distante bairro de Petrópolis. Por essas mazelas era tido como local de castigo para oficiais, assim fui apresentado ao comandante coronel Hélcio Motta que, de tanto verborrágico, era alcunhado de “caixa d’água”. Afinal a instalação deste aquartelamento foi fundamental para a evolução do bairro. Afastado da direção, seguia a rotina e as obrigações deste batalhão. Bom que após a formatura, ocasião em que o comandante falava “pelos cotovelos”, fazíamos a educação física, que se encerrava no futebol de salão, hoje futsal. Sequer a Faculdade de Direito me atraía, depois que me desencontrei da turma e passei ao crédito, em cada disciplina, a novos colegas. Preferia seguir pela noite alimentando as paixões, que me trouxeram tormentosas encrencas. Em minha residência, em 2 de agosto, a esposa deu à luz a filha Gabriela, hoje moradora de Brasília, com os filhos Caio e Gabriel.

Quartel do 1º Batalhão, em Petrópolis, hoje
servindo ao Comando-Geral da PMAM

Ao final de74, viajei a Santos e de lá prossegui para Curitiba, onde festejei o Ano Novo que pouco havia para me alegrar. A motivação da viagem era ver Roberto, filho da Conceição Cortez, a jovem que conheci no rolê, nascido em 20 de dezembro. De Santos, onde festejei o Natal, segui no carro emprestado por meu irmão Antonio e, em Curitiba, alcancei o descendente na residência da cunhada no bairro Mercês, então um simples arrabalde, onde me hospedei. Permaneci parte de janeiro em Curitiba cuidando do recém-nascido acometido de deformidade em ambos os pés. A partir do cuidado ortopédico ali dispensado, e sustentado em Manaus, não restou qualquer deficiência. Hoje, o Roberto Cortez se encontra servindo à Polícia Militar amazonense.

 

sexta-feira, novembro 18, 2022

PMAM – BANDA DE MÚSICA (II)

 Acerca do salão de ensaio e dos espaços ocupados pela Banda de Música em quartéis da Polícia Militar do Amazonas, escrevi este capítulo para um pretendido livro sobre esta corporação musical.
 

AQUARTELAMENTOS & SALÃO DE ENSAIO

Músicos da Banda em apresentação, década de 1970


A posse do colossal aquartelamento de Petrópolis, inaugurado em novembro de 1971 pelo 1º BPM, sob o comando do tenente-coronel PM Flavio Rebello, redundou em novel ocupação policial de Manaus e a consequente expansão da corporação. O Cosme e Damião acabava assim de atingir a periferia, pois, até então policiava o Centro da cidade e um escasso entorno. Em tempo oportuno, a Banda iria ocupar dependência dessa edificação, aliás, um segmento insignificante e malcheiroso, que findou constituindo-se na paragem provisória/definitiva. 

Construído para abrigar os serviços da PMAM, então possuindo um efetivo próximo de 1.000 homens, seu idealizador, o arquiteto Severiano Mário Porto, talvez tenha “olvidado” das dependências para a Música. Ou, oxalá planejadas, foram alocadas em um dos pavilhões deixados de construir. Somente o projeto com as plantas devidas, ora em “local incerto e não sabido”, poderia aclarar essa controvérsia.

Em meado de 1972, ao remodelar o interior do quartel da Praça da Polícia, o coronel Paulo Figueiredo removeu a Banda para o 1º BPM, como segue conhecido o quartel de Petrópolis, apesar da presença hoje do comando superior da corporação. A despeito de imensos espaços vazios, dada a desproporção de efetivo existente, nele não foi ajeitado um local apropriado para os músicos regidos pelo 1º tenente Raimundo Alves Bezerra, o Bezerrão, devido sua contextura corporal.

Tenente Bezerra, em dois momentos

Em decorrência disso, mestre Bezerra passou a ensaiar os músicos em uma casa de madeira mal-ajambrada “com dois pavimentos, coberta de telhas de alumínio, dispondo de uma porta e um janelão de frente” nos dois pisos, medindo 6x12, existente na rua Aristides Rocha, aos fundos do 1º Batalhão. Esse terreno somente seria adquirido a Fernando França de Melo e esposa, em fevereiro de 1977, no comando do coronel EB Mário Perelló Ossuosky (1975-79).

Removida a Banda da rua Aristides Rocha para o 1º Batalhão, o imóvel foi ocupado pelo CFAP (Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças), que ali permaneceu até ser instalado no quartel da Ponte da Bolívia (hoje Barreira), quando foi substituído pelo Pelotão de Polícia Feminina, em 1983. Ainda no mesmo ano, este pelotão foi alojado precariamente no quartel da Praça da Polícia, no espaço desocupado foi instalada a Creche Infante Tiradentes, iniciativa do coronel PM Hélcio Motta (1983-87), que ainda ocupa o referido edifício, em nossos dias amplamente modificado.

Esta breve rememoração obtive do sargento reformado Lucas de Souza (1933-), que ingressou na PMAM em 1962, nela permanecendo até 1986. Segue ele relembrando: a Banda foi transferida para o 1º Batalhão, ocupando uma dependência anexa aos xadrezes desta Unidade. Para encurtar a conversa, onde ainda se encontra a “briosa” Banda, com uma sutil distinção, na caserna o xadrez foi desativado (já não há lugar para preso disciplinar!), o recinto após relativo arranjo passou a abrigar os músicos. “Não há estímulo para se convidar alguém para visitar nossas acomodações”, lamenta-se o atual regente. E completa acabrunhado: “ao ocorrer uma inspeção ou visitação oficial, o vexame, então, é acabado”. Neste local os músicos permaneceram, até que... houve novo terremoto.

 

A Companhia de Polícia Rodoviária, em maio de 1993, teve sua extinção cumprida. Quando essa OPM (Organização Policial Militar) desocupou o aquartelamento, ainda existente no entroncamento das avenidas Constantino Nery com Djalma Batista, cujo Elevado de Flores serve de referência, a Banda de Música ensaiou sua ocupação. Era seu regente, o tenente Francisco das Chagas de Souza Lima (1987-94). Todavia, não conseguiram se estabelecer na edificação, depois de circular pelo Japiim, voltaram para o quartel de Petrópolis.

segunda-feira, março 28, 2022

DESPEDIDA DO CORONEL HILDEBERTO

A Polícia Militar do Amazonas celebrou na sexta-feira (25) os 30 anos de serviço do coronel Hildeberto Barros, despedindo-se dele com euforia. Estava eu na ativa, quando este oficial ingressou na Polícia Militar do Amazonas, em 1992. Vindo de Recife-PE, onde cumpriu o CPOR, para o estágio de serviço na guarnição federal do Amazonas, porém, acabou arrebatado pelo chamamento da Força Estadual, onde nela ingressou. E dela fez seu único emprego, apesar de exercitar algumas vezes sua formação acadêmica de Veterinário. Todavia, consagrou-se na PMAM pelo estudo e pelo ensino do Direito.

Hildeberto, em nov. 2000, entre carimbos e livros da burocracia,
no venerando quartel da Praça da Polícia

Retira-se para a capital pernambucana deixando comigo a melhor impressão, de cunho familiar e de profissional dedicado, tanto que a atual comando da corporação sugeriu ao coronel mais algum tempo de serviço ativo. Repito um aforismo: o fim coroa a obra. Explico: Estava eu envolvido em homenagear um esquecido tenente da Força, tendo “prometido” à família o sucesso, quando encontrei o amigo Hildeberto na 1ª Seção, local favorável para o impulsionamento do feito. Ele prontamente solucionou a questão e, com este aporte, “coroou a obra”. Sucesso, meu Amigo!

Com a placa comemorativa entregue pelo
chefe do Estado-Maior

O oficial recebeu uma medalha e placa como forma de homenagem.

A Polícia Militar do Amazonas (PMAM) realizou, na manhã desta sexta-feira (25/03), uma cerimônia em homenagem ao coronel PM Hildeberto de Barros Santos, que completou 30 anos de serviço na instituição. O evento ocorreu na sede do Comando-Geral, localizado na rua Benjamin Constant, Petrópolis.

Na ocasião, o oficial superior recebeu a Medalha de 30 anos de trabalho. Além disso, o chefe do Estado Maior Geral, coronel Eyderson Fonseca entregou uma placa de agradecimento pelos serviços prestados, dedicação ao trabalho, destaque individual e contribuição excepcional para a melhoria do conceito da PMAM na sociedade amazonense.

O coronel Hildeberto iniciou sua carreira na PMAM em 1992, tendo sido declarado aspirante em 1993 e, em 2018, foi nomeado Corregedor-Geral da Secretaria de Segurança Pública. Assim como contribuiu para o ensino do Direito Militar a centenas de alunos nas escolas de formação de oficiais.

Após a cerimônia, foi oferecido um café da manhã com a presença de oficiais do Estado Maior.

Comando superior da PMAM na despedida do 
coronel Hildeberto (3º a partir da dir.)


sexta-feira, setembro 25, 2020

QUARTEL DE PETROPÓLIS: 50 ANOS

A pandemia do covid19 embaraçou muitas celebrações. No dia da criação da província do Amazonas, a Polícia Militar do Estado não se lembrou da inauguração do seu principal aquartelamento situado no bairro de Petrópolis, acontecido há 50 anos. Ainda que somente estivesse concluído o pavilhão principal, destinado a abrigar o comando superior da corporação, como em nossos dias acontece, o fato é que o governador Danilo Areosa o realizou solenemente.
Muro frontal do quartel,
em Petrópolis (2019)

Areosa efetuou com dupla solenidade. A primeira, ocorreu no quartel do CIM (Centro de Instrução Militar), localizado na rua Dr. Machado, sobre o barranco do igarapé do Mestre Chico, onde atualmente o CPM (Comando de Policiamento Metropolitano) preserva o que restou do velho quartel do “Piquete” de cavalaria, o portão de ferro construído no final do século 19.  No espaço esportivo ali existente, local de tantas “peladas”, o governado do Estado realizou a entrega das medalhas Tiradentes e Cidade de Manaus.

Detalhe: no CIM, a instrução policial foi inicialmente realizada em barracão de madeira, que fora improvisado, a fim de treinar o primeiro grupo de soldados, antes deste enfrentar os problemas da rua. Em 1972, o Piquete foi demolido e dele foi guardado o portão da entrada, ainda agora exposto no pátio do novo aquartelamento.

Uma descrição jornalística relata a segunda parte da solenidade, que diz respeito à inauguração do pavilhão (ainda inominado) principal do quartel em Petrópolis. A planta da edificação prenunciava mais quatro pavilhões, no entanto, somente mais dois foram concluídos. Com esse fato, parte do vasto terreno adjudicado para a edificação foi ocupado por terceiros. Ainda assim, o quartel sempre foi grande demais para sua ocupação.

Terminada a aposição das condecorações, os presentes se dirigiram às novas instalações da PM, no bairro de Petrópolis.  O governador inaugurou o pavilhão lá existente e prometeu que entregaria em dezembro os outros quatro pavilhões que formarão o Quartel General da Polícia Militar do Amazonas. O pavilhão tem linhas discretas, modernas, e foi feito para alojar 150 homens. (Jornal do Commercio, 6 set. 1970)

Pretendi, esforcei-me com afinco para que a corporação afixasse sequer uma placa – dessas de alumínio modesto – no pavilhão, com o fito de assinalar a sua fundação. Não obtive vitória. Desse modo, vou afixar a minha, ainda que virtual.

Em 5 de setembro de 1970, ocorreu a inauguração deste pavilhão, 

que compõe o complexo policial de Petrópolis, obra do Arquiteto

SEVERIANO MÁRIO PORTO

nascido nas Minas Gerais, mas que adotou a capital amazonense,


onde produziu suas mais premiadas obras, daí seu reconhecimento


 internacional.

 

Com o respeito deste rabiscador

Roberto Mendonça


Solenidade no CIM, coronel Maury apõe medalha no prefeito Paulo Nery;
ao fundo, a extinta castanheira; (à dir.) a inauguração do novo quartel
(Jornal do Commercio, 6 set. 1970)


sexta-feira, julho 06, 2018

CORONEL PM FLÁVIO REBELLO (1936-2018)

Coronel Flávio Rebello
O velho coronel vinha travando uma luta desigual para manter a saúde, porém, ontem não resistiu. Encerrou o bom combate. Hoje os familiares, os amigos e os companheiros de farda estiveram presentes para as despedidas. Neste dia, marcado pelo futebol mundial, em que o Brasil decide sua progressão. Por isso, o sepultamento ficou para depois da partida, e, como o esquife estava marcado pela bandeira da “Estrela Solitária”, registro que o futebol nacional foi derrotado.
Já escrevi alguns posts sobre o coronel Flavio, estando espalhados neste Blog. Entretanto, vou expandir as anotações, as de motu proprio, e para atender uma solicitação de seu sobrinho, o amigo coronel PM Eber Rebello.

Flávio Augusto da Silva Rebello nasceu em Manaus, em 25 de janeiro de 1936, ao falecer, ontem, era o oficial mais idoso da corporação. Sua vida profissional começou no Rio de Janeiro, em 1957, onde concluiu o curso de infantaria do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), da 1ª RM/RJ. O estágio obrigatório foi realizado no 17º Regimento de Infantaria, em Cruz Alta (RS). Tão pronto regressou à Manaus, foi incluído na Polícia Militar do Estado, no posto de 2º tenente, em 19 de outubro de 1960. Em decisão do governador do Estado, o professor Gilberto Mestrinho (1959-1963), e apoio do comandante da PMAM, o coronel Assis Peixoto. 

Em outubro de 1965 alcançou o posto de capitão, passando a exercer atividades de direção e controle do trânsito da Capital, com tal intensidade que sobreveio-lhe o codinome de “capitão seta”. Na ocasião, essa repartição ocupava um prédio fronteiro ao Quartel da Praça da Polícia, na rua José Paranaguá com avenida Floriano Peixoto. Somente para os mais jovens: transferido o Departamento de Trânsito (Detran) para outra sede, ali funcionou uma agência do BEA e hoje pertence a uma empresa de importação.
Outro detalhe de sua funcionalidade, ao tempo em que o Dr. Assis Peixoto governou o então Território Federal de Roraima (1963), Rebello, ainda tenente, integrou esse governo.

Os cursos exigidos pela caserna foram realizados todos no estado da Guanabara, ora Rio de Janeiro. Dessa maneira: na Polícia Militar, concluiu os Cursos de Aperfeiçoamento de Oficiais e o Superior de Polícia (1967), e, no Exército, o de Técnica de Ensino (1969).
Alcançou, então, o posto de tenente-coronel em setembro de 1969, coincidindo com uma reorganização no comando da Polícia Militar, por determinação da IGPM (Inspetoria-Geral das Polícias Militares), a criação da chefia do Estado-Maior. Esta função foi exercida por ele em duas oportunidades: em 1970, em substituição ao coronel Neper Alencar e, entre 1973-76, quando foi promovido ao último posto.
  
Quartel em Petrópolis, 1975
Não obstante, o nome deste oficial encontra-se enraizado, fundamentado na história do 1º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Não apenas pela primazia de ter sido o primeiro comandante (1971-73), mas pelo judicioso cumprimento da missão de estabelecer o “Batalhão Amazonas” no quartel do distante bairro de Petrópolis, em instalação. Foi esta OPM que inaugurou aquele próprio estadual em 7 de novembro de 1971.
A idealização do complexo policial pertence à genialidade de Severiano Porto, construído para abrigar o efetivo da PMAM, então concentrado na Praça da Polícia. Próximo de celebrar o cinquentenário, o edifício apresenta-se muito, muito desfigurado, em parte pela transferência do Comando-Geral e outros organismos policiais, e de vários efetivos.
A decisão do coronel Paulo Figueiredo, então comandante-geral, de deslocar apenas o 1º Batalhão para aquele quartel, deu início à expansão da Polícia Militar. Assim, pode-se afirmar que a presença do batalhão no bairro de Petrópolis possui relevantes valores, a cada ano mais elevados.
Teve o mérito inquestionável de sobreviver num quartel digno pela arquitetura, porém cercado de vielas mal cuidadas, com pouco transporte e nenhuma comunicação, sequer telefone. Tudo isso mudou, hoje o bairro apresenta-se urbanizado e devidamente ocupado.
O velório do coronel Flávio Rebello foi realizado na funerária Almir Neves, da avenida Joaquim Nabuco. O sepultamento ocorreu no cemitério São João Batista. RIP

sexta-feira, junho 01, 2018

PMAM: PARA SUA HISTÓRIA

A foto mostra o momento do hasteamento da
Bandeira Nacional
A postagem foi recolhida do jornal A Crítica (5 abril 1983), descrevendo a solenidade comemorativa do aniversário da Polícia Militar do Amazonas, que completava 146 anos de existência.
O governador era Gilberto Mestrinho, eleito no ano anterior, e Manuel Ribeiro, o vice, a quem coube presidir a formatura. Na chefia da Casa Militar estava o tenente-coronel PM José Cavalcanti e, na subchefia, o autor desta, ainda major.
Coronel Hélcio Motta comandava a corporação, ainda em caráter interino, por questão administrativa. Todavia, foi efetivado e cumpriu o quadriênio daquele governador. Assim exerceu, a partir da redemocratização do país (1983), o comando mais duradouro (1983-87).


O governador, em exercício, Manuel Ribeiro presidiu, ontem pela manhã, no quartel do 1° BPM, em Petrópolis, a solenidade militar comemorativa à passagem dos 146 anos de existência da Polícia Militar do Estado do Amazonas.
A cerimônia foi prestigiada pelo secretário de Segurança, coronel [Henrique] Lustoza, diretor do Detran, coronel [Mario] Ossuosky, secretário de Interior e Justiça, deputado José Dutra, chefe da Casa Civil, Luiz Verçosa, desembargador Mário Verçosa, chefe da Casa Militar, Tenente-coronel [José] Cavalcanti, futuro secretário para Assuntos Fundiários, Yomar Oliveira e toda oficialidade da PMAM, tendo à frente o coronel Hélcio Mota, que responde pelo comando-geral.
Manuel Ribeiro passou revista à tropa, hasteou o Pavilhão Nacional, ouviu a leitura da Ordem do Dia do [coronel] Hélcio Mota sobre o evento, a Canção da PM e, no final, a tropa desfilou em sua continência.

 ORDEM DO DIA
"Como policiais militares, pretendemos, ainda que envolvidos por esses fatores antagônicos, sermos bem orientados pelos ditames da consciência profissional, jamais permitindo que sejamos envolvidos por nossas fraquezas, ambições ou caprichos e que, tampouco, sejamos indiferentes ao nosso trabalho.
Seremos eternos sentinelas voltados para o bem servir e baniremos constantemente os vícios que representam falhas de sinceridade, de propósitos — disse Hélcio Mota.
Mais adiante, afirmou que o momento histórico que hoje vivemos na PMAM, este sim, não deve deixar de ser lembrado, pois decidiu o presidente João Figueiredo que os comandos das Polícias Militares de todo o Brasil passarão a ser prioritariamente exercidos por oficiais das próprias corporação, o que foi corroborado pelo governador Gilberto Mestrinho".