CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, outubro 15, 2026

MEUS OITENTANOS (21)



Fascículo 21 

 1981

Ingressei naquele novo ano com a vida profissional em acentuado declínio, visto que, apesar de integrado numa seção do comando-geral, me encontrava no “corredor”, no jargão militar. E, na vida sentimental, ocorria outra turbulência. Fui transferido para os Bombeiros, porém, a maior complicação foi me desentender com o comandante-geral – coronel Wilson Raizer; o episódio mais grave foi minha presença na inauguração do quartel em Itacoatiara acompanhado de funcionárias civis. Em coisa nenhuma prosperou minha explicação: agi na condição de divorciado, disse-lhe; todavia, o comandante era evangélico convicto, por isso, não adiantaram minhas explicações. Outro disparate: Raizer costumava visitar a residência dos oficiais; quando comunicou a visita à minha família, reagi de forma descortês, ao cancelar a recepção alegando minha formação católica.  E mais. O inferno prosperava na Auditória, com a demanda que poderia me excluir da Polícia Militar. Para agravar, outra adversidade: a família de meu pai mudou-se da residência no Tiradentes para a rua Urucará, 1181-B, na Cachoeirinha, subúrbio com amplos recursos e ocupar uma casa que, apesar de geminada, dispunha de mais conforto. Intentei me manter na minha casa, para isso contratei alguns reparos, o principal foi a construção de mais um quarto, que não passou dos alicerces.

A bordo do catamarã, era
julho, e fazia friagem

Para usufruir as férias de julho, consegui com o governo passagens de barco para Tabatinga; segui em companhia do meu filho Roberto.  Saiu numa quarta-feira a excursão, que durou uma semana, pois era a viagem experimental do protótipo de embarcação, tipo catamarã, encomendado pelo governo Lindoso, e carecia conhecer o beiradão. Além da maleta, ao embarcar, reuni dois livros e os quatro jornais diários. Acomodado em um beliche, viajava com mais privacidade. E o catamarã subiu o rio Solimões, demorando-se em cada sede municipal, a fim de exibir a embarcação. A cada dia, após o café, com os mesmos jornais, me abancava na popa do barco, onde plagiava a leitura. Mas sempre se achegava um passageiro pedindo emprestado o jornal, para ler seu horóscopo; afastava-se sorridente com o diário, para logo voltar tristonho me recriminando pela desatualização do matutino. Passei aquela semana sem conhecer qualquer notícia do país, dada a inviabilidade de sintonizar o rádio – o único meio de comunicação – naquele fim de mundo.

Durante o trajeto conheci um negociante de Tabatinga que, muito prestativo, nos acolheu – a mim e meu filho Roberto – ao final da viagem. Ao atingir a cidade de Benjamin Constant, entrei em contato com a guarnição policial local, que me prestou uma acolhida calorosa. Afinal, na semana seguinte, ao atravessar o rio Solimões, desembarquei em Tabatinga. Decidi alcançar Iquitos, no Peru, na transição entre o Solimões e o Marañon – rio considerado a cabeceira do rio Amazonas – e consultei meu amigo, que me informou tratar-se de uma viagem efetuada apenas pela FAP (Força Aérea Peruana) em hidroavião. E me repassou instruções: não existe horário fixo – os voos chegam e partem imediatamente; o embarque ocorre no flutuante em Santa Rosa, já em território peruano na margem oposta; o pagamento é realizado nesse próprio flutuante e é obrigatório esperar ali pela chegada da aeronave. Enquanto aguardava o transporte, comi e bebi à vontade, como os demais passageiros. O avião chegou cerca das quatro horas da tarde, o embarque foi rápido e, após a decolagem, a tripulação informou ser impossível chegar em Iquitos. No ar, começou nova aventura para eu alcançar a pátria de meus antecessores peruanos. 

Roberto filho (à esq.) na travessia de Benjamin
Constant para Tabatinga, com direito à "segurança"

    O problema não estava em alcançar Iquitos, mas na proibição de aquela aeronave pousar – única alternativa – no lago Moronacocha, em razão da cor escura da sua superfície; o toque era autorizado até às dezessete horas, informou a tripulação. No entanto, passageiros brasileiros, estimulados pelos aperitivos, tentaram subornar aos militares, oferecendo uma contribuição coletiva. Nada feito. Pouco depois o avião aterrissou no leito do rio Marañón, próximo ao ancoradouro de um pelotão do Exército, que nos conduziu de lancha até a cidade de Pebas, então um lugarejo “perdido na selva”, desprovido de local para acomodar aproximadamente vinte passageiros e, para resumir a penúria, a energia elétrica foi desligada às 22 horas. Dormi bem, em razão do meu estado etílico e do silêncio que tomou a cidade; não reclamei do colchão, nem das carapanãs (mosquitos). De manhã, fui cobrado pela hospedagem; felizmente o cruzeiro (moeda brasileira) estava valendo bastante no câmbio. Até paguei a parte de um brasileiro que – sem grana – seguia a Iquitos para “aventurar a vida”. Enfim, cerca das 10 horas, o hidroavião de fabricação canadense me apresentou à cidade dos meus precursores.

quarta-feira, maio 08, 2019

MUNICÍPIO DE BENJAMIN CONSTANT

Em agosto de 1961, o governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, preparou a cidade para receber a VI Reunião de Governadores, apontado o comparecimento do presidente Jânio Quadros. 

Brasão do município
Organizou igualmente as reivindicações estaduais, as quais foram listadas em espessa brochura. No entanto, Quadros renunciou à presidência dias antes e, desse modo, a reunião não aconteceu e a brochura acabou no Arquivo Público.
Restaurei dela as notas aqui compartilhadas sobre o município de Benjamin Constant.

(...) Alfredo Bastos, que havendo passado por várias vicissitudes em sua vida, um tanto aventureira, ali se estabeleceu, vindo do Peru, naquele ano, onde encontrara alguns moradores. Dera-se bem no lugar, e então “resolveu nele fixar-se, como um remate aos seus males. Colocou na fachada do seu barracão o dístico “Remate de Males”, designação que se estendeu a todo o lugar.
Desmembrado do município de São Paulo de Olivença, foi criado pela Lei n° 191, de 29 de janeiro de 1898, o município de Benjamin Constant constituído de um só distrito e com sede no povoado de Remate de Males, elevado então à categoria de vila. Nessa mesma ocasião foi criado o Termo Judiciário, subordinado à Comarca de São Paulo de Olivença.
Capa da brochura
Em 1901, por efeito da Lei n° 328, de 4 de janeiro daquele ano, foi suprimido o município de Benjamin Constant, cujo território foi anexado ao de São Paulo de Olivença.
Poucos anos depois, ou seja, em 1904, deu-se a restauração do município de Benjamin Constant, por força da Lei nº 446, de 2 de setembro de 1904. A reinstalação ocorreu a 12 de outubro daquele mesmo ano. Foi restaurado, então, também o Termo Judiciário.
Remate de Males não oferecia as condições necessárias e desejadas para continuar como sede do município. Situada em local baixo, na foz do rio Itecoai, inundava-se todos os anos por ocasião das enchentes. As casas eram edificadas sabre esteios. Gramavam ali após as enchentes febres palustres.
Atendendo a essa situação, é determinada, pela Lei n° 759, de 5 de agosto de 1909, a transferência da sede municipal para o povoado de Santo Antonio. Essa transferência, todavia, não chegou a realizar-se.
Nos quadros de apuração do Recenseamento de 1920, figura o município de Benjamin Constant com cinco distritos a saber: o da Sede, e os de Campo Alegre, Colon, Curuçá e Sentinela.
Em 1928, finalmente, a sede municipal foi transferida para o povoado Esperança, elevado, então, à categoria de vila, por força da Lei n° 1375, de 4 de janeiro daquele ano. Dois anos após, todavia, era suprimido o município pelo Ato Estadual n° 45, de 28 de fevereiro de 1930. A sua restauração, entretanto, deu-se logo a seguir, por efeito do Ato n° 33, de 14 de setembro de 1931.
Na divisão administrativa de 1933, aparece o município de Benjamin Constant com um só distrito, e a sede municipal mantém ainda o nome de Esperança. Essa denominação foi mudada para a de Benjamin Constant em 1934, por força do Ato Estadual n° 4344, de 31 de dezembro daquele ano.
Nas divisões administrativas de 31-XII-1936 e 31-XII-1937, figura o município de Benjamin Constant do Alto Solimões. Em 1938 passa a denominar-se comarca de Fonte Boa a comarca do Alto Solimões.
Em 1938 a sede do município foi elevada à categoria de cidade pelo Decreto-lei estadual n° 68, de 31 de março daquele ano.
Também em 1938, foi determinada, pelo Decreto-lei estadual n° 97, de 4 de julho do mesmo ano, a indenização dos terrenos desapropriados em Esperança, para que nele fosse instalada a sede do município. Ainda em 1938, deu-se a criação do distrito de Remate de Males, por força do Decreto-lei estadual nº 176, de 1º de dezembro daquele ano.
Em 1952, por força da Lei n° 226, de 24 de dezembro daquele ano, foi criada a Comarca de Benjamin Constant. Perdeu o município em 1955, por efeito Lei nº 96, de 19 de dezembro do mesmo ano, o distrito de Remate de Males que passou a constituir o novo município de Atalaia do Norte.
Nas eleições de 3-X-1955, foram eleitos para Prefeito, o senhor Antonio Braga, e para vereadores: Francisco Chagas de Almeida, Otávio de Souza Farias, Manuel Leão da Silva, Jovina Campos de Albuquerque, José de Souza Lima e Mário José Soares da Silva. Votaram 1391 eleitores.

sábado, novembro 21, 2015

ITINERÁRIO ANDINO

Recorte da capa do impresso
Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, o saudoso cientista extremamente conhecido, fez publicar o relato da experiência.
Primeiro, expos os acontecimentos em conferência na Academia Amazonense de Letras, da qual era membro, em 29 de setembro de 1951. Logo, o periódico A Gazeta a reproduziu nas edições de 15, 16 e 17 do mês seguinte.  
Enfim, foi transformada em impresso, sob o título: Itinerário transadino, que o autor dedicou ao companheiro de viagem – Moura Tapajós, outro finado médico competente de nossa cidade.


UM VÔO DO AMAZONAS AOS ANDES
 Na manhã venturosa de 7 de julho, dois médicos manauenses desenharam no céu um ângulo reto, olhando pela janela do Catalina, ao infletirem para o oeste, com o pensamento no roteiro seguido por Pedro Teixeira, durante doze meses, a partir de outubro de 1 637, para cobrir a distância até Quito, — réplica heroica dos portugueses à expedição pioneira de Pizarro-Orellana, um século antes, desvirginadora do mundo amazônico. 
Apenas trezentos e tantos anos depois do notável capitão luso mudaram os meios e os caminhos, passando os meses a serem contados em horas... O que aqui vai relatado reflete o pensamento e a observação dos dois itinerantes, dos quais me estou arvorando a intérprete, avisando de antemão que o sal da história foi sempre posto pelo meu companheiro, com muita finura e extraordinário espírito clínico e crítico. 
À medida que o avião remonta o [rio] Solimões, vai-se tendo uma impressão oposta à da viagem a jusante de Manaus: a água diminui de volume e não ocupa tanto espaço, e a floresta é mais densa, parecendo até mais verde... 
Em frente a Benjamin Constant, quando se dá adeus à pátria, olhando a margem peruana fronteiriça (o povoado de Ramon Castilla não fica ao alcance da vista), o "real rei dos rios do Universo" como que perde a sua majestade, nesta época de vazante; e a cidade distante, comburida pelo sol e asfixiada pelo mormaço, erguida sobre giraus semelhantes aos de meu Togar natal, no Acre remoto, dá uma pena terrível ao brasileiro que a pisa pela primeira vez: não parece ter a seus pés um monstro líquido cuja correnteza atinge às vezes a milhas por hora. 
Benjamin Constant como que reflete a psicologia de um lago...Decolado o anfíbio da Panair [do Brasil] divisam-se riscos amarelos fendendo a superfície verde: verde e amarelo como que a traduzirem o destino brasileiro de guardião daqueles pagos distantes, onde três povos irmãos disputam ou mantém uma cunha de seus próprios territórios: peruanos, colombianos e equatorianos. E sobrepairando a tudo — interesses, ambições, desejos de hegemonia — um senhor todo-poderoso, que é o deserto! 
Quando se chega a Iquitos [Peru], duas horas depois de Benjamin Constant (500 ou 600 quilômetros de distância!), o espírito como que se abre, depois de se ter contraído a meditar sobre a pequeneza do homem em face ao mundo amazônico. Porque Iquitos já é uma cidade!
Basta dizer que possui luz e água... O Palace Hotel Malecon, instalado em bonito prédio azulejado, está longe porém de ser um palace hotel. Em compensação está pronto para ser mobilado e funcionar um bem apresentado estabelecimento, que integrará a cadeia da Corporação Nacional de Hotéis de Turismo, do governo peruano. 
Na capital do Departamento de Loreto há cerca de 45.000 almas, 10.000 das quais devem ser contadas como corpos: são soldados... Não esquecer que as geografias equatorianas incluem Iquitos na Província Oriental da pátria de Garcia Moreno... 
Em verdade muito mais afinidade existe, na região, com o Brasil, que com qualquer das repúblicas irmãs do lado de lá dos Andes: e é pena que esta afinidade, decorrente naturalmente da proximidade geográfica, da identidade de problemas e da semelhança das populações nativas, não seja aproveitada largamente pelo comércio, pela indústria e pela cultura, para formação de um necessário espírito panamazônico, que não deve ser interpretado como expansionismo do Brasil, país líder e senhor da chave da bacia, pelo próprio destino histórico. 
Neste sentido, vale a pena não esquecer as sugestões e observações argutas de Napoleão Bezerra, que já escreveu, primeiro com gasolina e depois com óleo cru, crônicas de sensação sobre o Médio Amazonas. (continua)

domingo, agosto 16, 2015

REINAUGURAÇÃO DA PONTE DE FERRO

Denominada de Ponte Benjamin Constant, essa festa aconteceu no governo de Eduardo Braga. Foram luzes para todos os lados. Hoje... não há qualquer lâmpada acesa.


quarta-feira, junho 30, 2010

Deu no JORNAL DO COMMERCIO II

Em 28 de junho de 1970, o Jornal do Commercio passou a imprimir em offset seu matutino. Com essa mudança, renovou substancialmente a apresentação gráfica, em especial, o setor de fotografias. Até então, em todos os periódicos, era um desastre a exibição de fotos.
O jornalista Epaminondas Barauna, dirigente do JC, desdobrava-se para atender aos inúmeros visitantes, autoridades e jovens alunos de escolas da cidade, desejosos de conhecer a maravilha. 

Reproduzo duas fotos da época: a primeira mostra o Governador Danilo Areosa em desobriga ao interior, desembarcando de uma lancha muito modesta, em companhia do Prefeito de Manacapuru, Jamil Seffair. Ao fundo, aparece o futuro governador José Lindoso.

Governador Areosa (à frente), Jamil Seffair, José Lindoso (à dir)

A segunda foto, mostra o ato de inauguração da Central Elétrica de Benjamin Constant. Deve ter sido um acontecimento soberbo para aquela localidade. Era a superação, ainda que temerária, da lamparina.

A solenidade exigiu paletó e gravata