CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de janeiro de 2017

MAIS QUE CENTENÁRIO DE NASCIMENTO

Manuel Mendonça e netos, em 1980
Meu pai, se vivo fosse, completaria hoje 101 anos. Ano passado, intentei celebrar da melhor maneira seu centenário. Por motivos estranhos, não deu. Uma das iniciativas programadas era publicar um livro narrando esta epopeia. Colaborei com vigor para a publicação, que restou acabada sob o título Entre duas viagens. Falta apenas a impressão, mas neste próximo mês estará na praça.

Aproveito o ensejo para reproduzir alguns de meus escritos sobre o saudoso homenageado, começando com o texto abaixo.   


CONVERSA INICIAL

Não me recordo a data integral, ainda assim, inauguro esta narrativa pela segunda viagem. Em 1995, tive a oportunidade de, viajando com meu pai, atravessar de Cometa (empresa de ônibus) a Via Dutra (ligação do Rio-São Paulo), partindo do Terminal Rodoviário do Tietê. Nessa ocasião, ouvi dele a descrição de sua primeira viagem, navegada entre sua cidade natal, Caballococha (na margem direita de uma “hermosa lagoa”, que desemboca no rio Amazonas, a cerca de 50 quilômetros do trapézio amazônico) no Peru, e a cidade de Manaus-AM (plantada à margem esquerda da foz do rio Negro).

Outros desdobramentos de sua vida também vieram à tona e serão aqui relembrados. Talvez tenha sido esta – lamentavelmente, a última conversa aberta e direta entre mim e ele, sem os ressentimentos que me angustiaram nos derradeiros anos da existência dele.

A segunda viagem findou na Rodoviária Novo Rio (RJ). Ali fomos alcançados pelo Renato Mendonça (meu irmão), que organizou comigo a publicação doe livro.
Vou atrasar o relógio, cujo movimento bem distingue esta retrospectiva. Meu pai assegurou-me que a “viagem” em direção a Manaus aconteceu quando ele possuía onze anos de idade. Nascido em 1916, a viagem sucedeu em 1927. Quanto ao seu natalício, cujo registro ele guardou religiosamente, e foi revelado entre suas relíquias somente após seu falecimento, soube-se então que aconteceu el lunes 17 de janeiro de 1916.

A empreitada rumo ao Brasil teve a iniciativa de sua mãe, Victoria Malafaya, mulher que requer respeitosa e compreensível apresentação. Todavia, quase nada se sabe sobre sua origem, somente que nasceu no Peru, em Caballococha, hoje capital da província de Ramon Castilla, pertencente ao Departamento de Loreto, na Amazonía peruana. Era filha de Geraldo Malafaya e de Olinda Barsallo Malafaya, trazendo como pude aferir sobrenomes fartamente espalhados pela região.

A data de seu nascimento se mantinha incógnita, nem o filho sabia, e pior, quando do falecimento dela, em Manaus, o Cartório (2º ofício) registrou-a como viúva de 56 anos(!), isto em 12 de dezembro de 1961. Recorrendo ao registro de nascimento dos filhos Manuel e Francisco, pude estabelecer proximamente o ano do nascimento dela.
Nascida em 1890 ou 91, era analfabeta e identificada por mestiza (designativo de grande número de indígenas da região), Victoria, além disso possuía a cútis morena e baixa estatura, e teve quatro filhos de três relacionamentos. Os dois primeiros filhos: Laura Torres (1910-2000), que viveu em Iquitos, casada com Manuel Miranda (excelente marceneiro) com quem teve seis filhos; Grimaldo Torres (datas desconhecidas), que foi morador de Pucallpa; o terceiro (que utilizou dois nomes) foi José Manuel Mendoza / Manuel Mendonça Malafaya (1916-2014) e, por fim, Francisco (Malafaya) Saens (1918-1997), pai de quatro filhos. Os dois últimos viveram no Brasil.
El cholo, también llamado mestizo, es la mezcla entre un mestizo y una mestiza, un mestizo y una indígena, un mestizo y una blanca o un blanco y una indígena. Esta mezcla fue muy frecuente en los estados o provincias de países latinoamericanos donde la población nativa terminó siendo más del tercio de la población.

Nascida e sofridamente criada em Caballococha, numa noite de fevereiro de 1927, depois de esquematizar a viagem, Victoria reuniu os filhos Manuel e Francisco e, depois de se apoderar de uma canoa, sumiu do porto em direção à tríplice fronteira, distante cerca de 50 quilômetros. O preceito inicial era viajar somente à noite, para despistar a escapada e evitar uma possível busca pelo “marido”. Como navegava rio abaixo, contava com a forte correnteza para avançar.

Para melhor entender o fluxo de loretanos em direção ao Amazonas, em especial, para Manaus, convém ressaltar que estes dois centros habitacionais bem aproveitaram a exploração da hevea brasiliensis. No entanto, Manaus obteve mais recursos, creio eu, pelo tamanho da área explorada e pela proximidade com os países importadores da borracha.

Os moradores de Iquitos (fundado em 1757), sofriam à época intensa atração de Manaus (estabelecido em 1669), atração ainda hoje sentida e mantida, tanto que são consideradas cidades-irmãs. Ambas estão locadas na floresta amazônica, exuberante vegetação que cobre grande parte de nove países sul-americanos, constituindo a Amazônia Continental.

Meu pai seguiu relatando: não podíamos nos expor, como pedir ajuda aos ribeirinhos, devido nossa situação de fugitivos. Daí nos contentarmos em aqui e ali “passar a mão” em algum tubérculo encontrado em plantação isolada, ou pescar, utilizando rudimentar instrumento de captura, com soe ser um anzol improvisado com um alfinete ou um prego.

A fartura de peixes amazônicos facilitava a pesca e a lenha, para a cozedura ou o “assamento”, segue abundante. Ainda assim, apenas o rio não permitia uma alimentação capaz à tropa em retirada. Certamente, por isso e por outras, meu pai recordava de ter passado fome e sono.

A mudança de hábitos, a ausência de cômodos e, fortemente, a tensão de quem enfrenta o incógnito em condições precárias, tudo isso pesava, em especial, sobre as crianças. Tantos anos depois, lembra-se meu pai da passagem por uma fazenda de gado e por uma plantação de feijão-de-metro (mais conhecido por feijão-de-corda, próprio para o baião-de-dois). Do que, e se, aproveitaram, não conseguiu recordar.


Apesar das dificuldades iniciais, avançaram tanto que, é crível, a comitiva esquecendo-se dos “delitos” cometidos remou com mais afinco em direção à fronteira, que se avizinhava. Cabe lembrar que, na região amazônica, na medição entre dois pontos fluviais leva-se em conta a variante da corrente de água. Ou seja, quando se navega de subida, contra a correnteza, gasta-se claramente mais tempo. Dessa medida, como os peruanos desciam o rio, a favor da corrente, eram beneficiados. Vantagem que veremos adiante, quando se descrever a maneira sutil empregada pelos viajantes para enfrentar o turbilhão produzido pelo rio Solimões, e ultrapassar a fronteira brasileira. (segue)