CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, agosto 19, 2025

DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA

 Até que intentei fotografar com qualidade, para isso, busquei aprender em curso; adquiri algum equipamento de qualidade, ouvi bastante meu amigo Carlos Navarro, a quem cumprimento neste Dia, mas muito pouco saiu de minhas clicadas. Ainda bem.

Para marcar a data, recorri a fotos antigas de estúdios e a foto do empreendedor que mudou o jeito de gravar fotos em Manaus, Nuno Caplan, o fundador da rede Sonora.

Casal Fanny Ribas e Candido Mariano e
seus filhos (abaixo), no Rio, em 1910


Casal Francisca e Manuel, meus
pais, em casamento em Iquitos - Peru,
em 1944

Nuno Kaplan, da Sonora, em anúncio
de 1983


domingo, agosto 10, 2025

DIA DOS PAIS: 2025

 A postagem é de autoria de Renato Mendonça, que sempre colabora com o irmão Roberto nesta página. Não se espante com o título, "pães" por pais, o autor explica muito bem a divergência.
Abraços aos pais. 
Nome original de nosso genitor, abrasileirado
para Mendonça
Dia dos pães

10.08.2025

Renato Mendonça

Mais uma vez recorro com prazer ao simbolismo para falar de uma data marcante. Já falei desse dia dedicado aos pais em outras ocasiões. Porém, sinto que cada vez mais, há mudanças no cenário de nossa vida, que nos faz refletir e pensar como as “coisas” se inserem no nosso cotidiano, para configurar um conceito abstrato para um momento importante. Desta vez, não esperei que Deus digitasse a palavra incorreta, paciente, mas sem inspiração, tive a “contribuição” externa que me faltava, uma conversa metafísica, aparentemente banal, me deu o mote.

Na simplicidade daquele diálogo, percebi a força dos pequenos gestos e do cotidiano, que passam muitas vezes despercebidos, mas carregam consigo uma ternura e uma verdade silenciosas.

O Dia dos Pais, mais que uma data no calendário, tornou-se uma oportunidade de olharmos ao redor e dentro de nós, reconhecendo o valor dos vínculos que sustentam nossas histórias. Olhar para o passado e resgatar a história de nossos avós ou todos os ancestrais que pudermos ressuscitar em nossa memória. Óbvio que o pai, por estar mais próximo do nosso pensamento, é sempre mais lembrado e honrado.

A cada ano, os significados parecem se renovar, como se o tempo tivesse o poder de armazenar não só os pães, mas também os sentimentos ternos e eternos. Lembro-me do aroma que invadia a casa nas manhãs de domingo da minha infância, do som das risadas e falatórios ecoando pela cozinha, dos olhares cúmplices trocados entre pai e filho, enquanto o pão era posto sobre a mesa. Esses momentos, aparentemente simples, tornam-se agora mapas afetivos que percorremos, viajamos por eles, mesmo quando as distâncias temporais se impõem cruelmente, ameaçadas pela tal doença de Alzheimer.

Hoje, ao relembrar e celebrar esse dia, compreendo que o essencial muitas vezes está proposto na subjetividade: nas conversas despretensiosas, mas cheia de ensinamentos da arte da vida; nos silêncios compartilhados, quando algo de infelicidade acontecia; no zelo praticado, que transborda em nossos corações sem alarde. Que possamos continuar honrando essas memórias e criando, com a mesma generosidade e calor de quem partiu, e repartiu o pão.

Feliz Dia dos Pais Atuais e dos Ancestrais!     

quinta-feira, janeiro 30, 2025

CENTENÁRIO DE MANUEL MENDONÇA (1916-2016)

A fim de comemorar o centenário de nascimento de Manuel Mendonça ou Mendoza, em janeiro de 2016, fiz o lançamento de um selo personalizado. Todavia, o livro que havia escrito juntamente com meu irmão Renato Mendonça – Entre duas viagens – para esta celebração, somente viria a público em junho seguinte. O jornalista Evaldo Ferreira, conhecedor do empreendimento escreveu no Jornal do Commercio (26 jan. 2016) o artigo que aqui compartilho. Sem que imaginasse, ocasionou um atrito familiar. Explico: o nome de Henrique Mendonça, autor do prefácio, foi omitido pelo articulista, e essa omissão a família do mano não acolheu, daí a fricção.

Detalhe do artigo de Evaldo Ferreira

 Autor dos livros “Cândido Mariano & Canudos” (1997); “As artes de Genesino Braga”, prêmio literário da Academia Amazonense de Letras (2006); “Administração do coronel Lisboa”, prêmio literário Cidade de Manaus (2008); “Bombeiros do Amazonas” (2013); e organizador de “Cinema e Crítica Literária de L. Ruas” (2010) e “L. Ruas: Poesia Reunida” (2013), o escritor e historiador Roberto Mendonça acaba de concluir aquele que, possivelmente, será o mais importante livro de sua obra, “Entre duas viagens”, no qual relata a história de Manuel Mendonça Malafaya, seu pai.

“Em 2014 a família se preparava para comemorar o centenário do patriarca neste 17 de janeiro de 2016, mas ele resolveu partir antes, em maio daquele ano, então, eu e meu irmão Renato achamos por bem escrever o livro contando a saga do nosso peruano. Foi uma forma de homenageá-lo”, contou. Por mais de um ano Roberto Mendonça seguiu os caminhos do pai em Manaus, Rio de Janeiro, Santos e até em Iquitos e Lima, no Peru, onde Manuel Malafaya nasceu. “Mendoza, mais conhecido por Manuel peruano”, nasceu em Caballococha, uma povoação situada nas vizinhanças da fronteira Brasil-Peru, em “hermosa orilla” à margem esquerda do rio Amazonas”, disse.

Victoria Malafaya, a mãe de Manuel, era uma índia ticuna nascida na mesma localidade, em 1890. Na época do ciclo da borracha, acabou se envolvendo com um caucheiro, possivelmente um homem rude, pois num dia qualquer de 1927, ela fugiu em direção ao Brasil, trazendo os dois filhos: Manuel e Francisco. Em 1939, Manuel retornou ao Peru, visitou Iquitos e se inscreveu no serviço militar, mas logo voltou a Manaus onde obteve o primeiro emprego de carteira assinada, de balconista, depois gerente, na Fábrica Rosas, a padaria da cidade, instalada na avenida Sete de Setembro defronte à praça da Polícia. A ... com a noiva Francisca, viajou para Iquitos, onde se casaram.

“Os dois até pretendiam se fixar na capital de Loreto, pois chegaram a organizar um comércio, porém, no início de 1946 voltaram para Manaus, com dona Francisca gestante. Então, posso garantir que sou “hecho en Perú”, todavia, nascido em Educandos, à rua Inácio Guimarães, onde mais adiante surgiria o Cine Vitória”, relembrou. Manuel frequentou assiduamente a paróquia do padre Antonio Plácido. “Esse vigário colaborou para que eu ingressasse no Seminário São José, instalado à rua Emílio Moreira, onde pretendia me tornar padre, e conclui o curso de humanidades. Mas achei melhor seguir a carreira militar, servindo ao Exército e depois à Polícia Militar, onde cheguei a coronel. Hoje estou na reserva”, explicou o historiador.


Descobertas históricas

“Voltando a falar de meu pai, o mesmo padre Antonio Plácido realizou o casamento dele com Doroteia, em 1958. Minha mãe havia morrido de tuberculose algum tempo antes. A nova união gerou cinco filhos (Zemanoel, Jorge, Luís, Ricardo e Carlinhos). Com minha mãe foram eu e meu irmão, Renato. No ano seguinte, a nova família de Manuel mudou-se para o Morro da Liberdade e, mais adiante, migrava para Santos”, recordou.

Novamente viúvo, Manuel passou os derradeiros anos de sua vida entre Manaus e São Paulo, visitando os filhos e netos, até morrer, em maio de 2014. “Para marcar o centenário do peruano, no último 17 de janeiro, mandei confeccionar dois selos personalizados. Dois selos porque o homenageado possuiu dois sobrenomes: a certidão de nascimento registra — José Manuel Mendoza; todavia, ao desembarcar em Manaus, aportuguesou o sobrenome, refez o nome, incluindo o sobrenome materno. Desse modo, con mucho orgullo, sou filho de Manuel Mendonça Malafaya”, comentou.

Roberto Mendonça contou que começou a escrever “Entre duas viagens”, junto com o irmão Renato, em janeiro do ano passado. Realizou pesquisas, conversou com parentes mais antigos, viajou pelas cidades onde Manuel vivera e vasculhou fotos. “Conseguimos garimpar algumas raridades, como a da casa onde minha avó, mãe de Manuel, vivera no Peru, ainda no século 19. Acredito que o livro terá umas 50 fotos. A ideia era colocar mais imagens e menos texto, tipo uma linha do tempo. Esse trabalho me rendeu mais algumas descobertas históricas, como o racionamento de produtos, na época da Segunda Guerra, na padaria onde ele trabalhou. O racionamento era rigidamente controlado pelos militares, mas, por baixo dos panos, o dono da padaria sempre conseguia liberar alguma coisa a mais para os seus amigos", entregou.

O livro só será lançado em junho, mas os dois selos o serão no próximo dia 30, sábado, na Agência Filatélica Ajuricaba.

sábado, maio 18, 2024

JOSÉ MANUEL MENDOZA (1916-2014) (2)

J. Manuel Mendoza

 Há Dez Anos

18.05.2024

Renato Mendonça

 Caros irmãos,

Há exatos dez anos, e aproximadamente nesta mesma hora, nosso pai encerrava sua biografia. Em São Paulo, num leito de hospital, foi vitimado covardemente pelo câncer; e não foi só a doença que o derrotou, contou ainda com a contribuição derradeira da ação médica que tentou extirpar esse carcinoma.

Gostaria que esta data, assim como outras de tanta importância para o nosso universo familiar, não caísse no esquecimento. Sei que muitas vezes nos distraímos dentro da ciranda de tantos compromissos da vida moderna, que até esquecemos de reverenciar uma criatura de tamanha importância dentro de nossa história.

J. Manuel Mendoza

Assim sendo, eu iria solicitar a cada um partilhasse — pode ser usado o WhatsApp — com os outros irmãos os momentos mais impactantes, os ensinamentos ou as mensagens que absorveu, ou aquilo que ficou sedimentado em vossos corações. Pode fazer em texto livre de estrutura verbal, não se preocupem com a gramática, mas deixem que a emoção participe fale por vocês. Depois quero fazer um texto único, numa crônica à várias mãos, e deixar para a posteridade.

Além de tudo o que já publiquei, quero deixar claro que o exemplo de dedicação, feito um pastor cuidando de ovelhas, e o empenho arraigado para que tivéssemos educação e cultura, para mim foi o grande legado. Há momentos lúdicos de minha infância, e muitos deles estão descritos nos meus livros. Mas, um ficou ainda inédito: quando eu tinha entre quatro e cinco anos, eu costumava mijar na cama. Era uma incontinência que eu não conseguia controlar. E muitas vezes acordei, exatamente quando meu pai trocava o meu pijama... Para não levar bronca, ou talvez envergonhado, eu fingia que estava dormindo. Um belo dia, conversando com Deus, ele me disse: depois das 18 horas, depois que você rezar a Ave-Maria, não bebas mais água, nem se estiver com sede. Fiz isso, e nunca mais aconteceu...

São tantas lembranças, e tanta herança que ainda hoje usufruo, como por exemplo, a do ofício de carpinteiro.

Que Deus o guarde e o mantenha sob a sua Luz. Amém.

JOSÉ MANUEL MENDOZA (1916-2014)

 Completam-se hoje dez anos do falecimento do “seu” Manuel Mendonça, meu genitor, fato acontecido na cidade de São Paulo, onde ele morava. Nascido no Peru, foi levado pela mãe para Manaus, onde implantou as famílias que a viuvez permitiu. Somos oito filhos de dois casamentos. Seu amor por Manaus, nos levou à decisão de que seu corpo fosse transladado para aquela capital, onde repousa no cemitério São Francisco, situado em ponto elevado da cidade, como se seguisse observando a cidade de sua paixão.

Registro do selo personalizado pelo centenário e demais
encontros familiares

Os filhos crescendo buscaram se adequar onde melhor pudessem evoluir. Assim, nas regiões sudeste e sul se encontram os filhos do “seu” Manuel. Uma única vez, foi possível juntar a família (foto central acima); depois não mais, apesar de vários encontros, como sinalizam os demais registros. 

sexta-feira, março 08, 2024

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 A montagem desta foto foi realizada por meu genitor, Manuel Mendoza, e foi encontrada entre seus legados após sua morte. Nela se vê seus três amores: a mãe Victoria Malafaya (ao centro), a primeira esposa, Francisca Lima (a direita); e a segunda esposa, Doroteia Santos (a esquerda). Com esta postagem quero lembrar o "velho peruano", morto há dez anos. E relembrar as Mulheres de minha vida. Aleluia.



domingo, agosto 13, 2023

DIA DOS PAIS

 A postagem deste Dia pertence ao meu irmão Renato, que volta a nos deleitar com um texto digno de consideração

PAI DE VERDADE 2023


Apesar de Mendoza, ele é nosso Pai
- meu e do Renato Mendonça

Renato Mendonça

Neste Dia dos Pais, esquivando-me um pouco do senso comum, desejo fazer a priori uma homenagem às mulheres. A sabedoria popular diz que “por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. Não sei se esta máxima tem lugar-comum apenas entre casais, pode ser que ocorra nas diversas fases da construção humana. 

E, para ilustrar este meu singelo tributo, rememoro algumas grandes mulheres que “já se foram”, mas não foram esquecidas. Nem podem ser esquecidas pelo que representaram na sociedade familiar em que protagonizaram; pela altivez praticada e a tenacidade que produziram; pela disposição em amar incondicionalmente, feito mestras a me ensinar que o Amor é o pão da vida.

No meu ateliê, que costumo usar também como recanto de meditação, estão me esquadrinhando, velando-me com seus olhares vivos e maternais, três dessas personagens belíssimas de minha história. Três mulheres abnegadas, que deixaram um passado positivo em nossa mente e em nosso coração, e por que não dizer categoricamente, em nossa alma.

Dona Francisca Pereira Lima foi a luz que iluminou minha vida e me doou a seiva do amor materno. Poderia pensar que apenas isso já basta ao ser humano, mas não é só. Antes, trilhou um penoso caminho, perambulou com meu pai numa vida nômade, dando-lhe o suporte necessário para uma vida conjugal digna, e para um futuro promissor para os filhos ainda miúdos, fomentando a fé e a esperança, mesmo com sua curta biografia.

Dona Victoria Malafaya, de nome exuberante e curto, mas de longa história de vida e enorme sabedoria. Na sua analfabetíssima rédea de condução da vida, soube me mostrar seu conhecimento de mundo; ensinou-me que nossas limitações humanas não são impeditivas para o crescimento interior. Deu-me algum carinho e zelo que não pude receber da mãe. Minha avó teve um papel fundamental na construção do caráter humano. Renovou a cada dia minha força, injetando com seu jeito dissimulado de rudeza um ânimo para viver as asperezas da vida. E foi embora cedo, quando eu tinha apenas dez anos. Assim que se calou, revelou-me em sonho o seu gesto de amor e sua preocupação com meu futuro. Ensinou-me a ter fé, tanto quanto humildade.

Dona Doroteia Santos colocou-se na minha vida como uma mãe substituta, e tive o prazer da convivência por longos onze anos, dos meus oito aos dezoito, na exata fase da vida que precisava moldar minhas atitudes, eliminar meus medos e os fantasmas da adolescência. Ensinou-me a enfrentar as circunstâncias sociais mesmo na fase de dificuldades financeiras; a abraçar essas dificuldades para evitar que elas não saíssem do controle, em meio às ondas fortes ou ventos contrários, em meio a uma gestão familiar complicada pela falta de mercado de trabalho para meu sacrificado pai.

Fiz esse introito também para dizer que aos pais nossos de cada dia, cabe-lhes também essa justa homenagem. Enquanto a mãe é o suporte existencial para evitar que a figura icônica do pai tenha “pés de barro” — e se desmorone pelos desvios apontados para as arapucas da vida —, o pai de verdade tem a capacidade de, embora ausente, mostrar-se como presença onipotente, e ser antes de tudo um homem responsável. O pai de verdade é uma espécie de elo para concatenar a candura do amor da mãe ao desejo íntimo dos filhos; é o olhar de encantamento e sem censura pela peraltice dos filhos; é o coração macio que apaga esses pequenos delitos e os coloca na memória para contar no futuro. O pai de verdade é a experiência de vida que encoraja e estimula os filhos a criarem suas expectativas dentro de uma realidade humana. É a força e a fé para que os filhos não hesitem em suas decisões, quando das encruzilhadas do destino. Enfim, o pai de verdade é essa chama acesa que nunca se apaga, que ilumina como um clarão, sempre que é requisitado.

Ao pai de verdade é reservado o panteão dos homens ilustres e inesquecíveis mesmo depois de sua passagem para outro plano espiritual. Há um espólio a ser consumido durante a nossa vivência física; há lições que ficam marcadas e atitudes que ficam sublinhadas para ser usadas como modelos no tempo oportuno.

No universo bíblico do Novo Testamento, há diversos exemplos de atitudes humanas que reforçam a tese de que tanto o pai de verdade quanto a mãe de verdade lutam para preservar a integridade física dos seus descendentes. O capítulo 28 de Mateus narra o episódio da mulher cananeia que se prostra aos pés de Jesus para Lhe implorar a cura de sua filha: “Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio”. Depois de um pequeno diálogo, quando Jesus apercebeu-se de sua perseverança e humildade, lhe diz: “Mulher, grande é a tua fé; seja conforme desejas”.

O mesmo evangelista, no capítulo 17, cita o apelo de um desesperado pai que ajoelhado implora pela cura do filho: “Senhor, tem misericórdia do meu filho. Ele tem ataques e está sofrendo muito. Muitas vezes cai no fogo ou na água. Teus discípulos não puderam curá-lo”. Jesus vendo a fé do homem, ordena que a enfermidade mental deixe o corpo do menino que, imediatamente, ficou curado.

Sendo assim, a homenagem aos pais de verdade é por extensão uma homenagem às mães de verdade. Ambos, dentro do contexto bíblico ou do contexto da nossa sociedade familiar contemporânea, são dignos de deferência.

Sem um pai não há mãe; sem a mãe não há pai!

quinta-feira, maio 18, 2023

MANUEL MENDONÇA & MENDOZA (1916-2014)

Escrito quando se completou cinco anos da morte de nosso genitor (2019), somente hoje – data de sua morte – o texto intitulado “Ocaso” vem a público, escrito pelo filho Renato Mendonça. Que segue cuidadoso com as efemérides da família. 

OCASO

(18/05/2019) 

Renato Mendonça

Há exatos cinco anos passados, aproximei-me para atender ao telefone fixo que tocava insistentemente, havia uma expectativa no ar, algo estranho que durante os dois dias anteriores criou em mim uma certa angústia, evoluiu como um pesadelo indesejável. Passava um tempinho depois da onze, minutos apenas, sentei-me no sofá, intuindo que receberia uma notícia nada favorável, mas não imaginei o ocaso. Meu pai estava internado havia dois dias no Hospital Artur Ribeiro de Saboya, em São Paulo, e no último diagnóstico, um fatídico tumor no intestino.

Fiquei inerte ouvindo a notícia, rejeitando o fato de não poder fazer nada, incomodado com a minha impotência naqueles dois dias de internação. Dialoguei calado com o Luisinho do outro lado da linha, naqueles poucos segundos de conversação, apenas meu choro contido aparecia em resposta.

A notícia veio como um punhal atravessando o peito, apesar do meu “eu” estar em estado de alerta; apesar de minha intuição ter se manifestado previamente, tentando me preparar para a desdita. Porém, por mais que conversemos com Deus, nunca estamos realmente preparados para essa dor dilacerante no coração; essa dor retida na nossa consciência, e transmitida aos poucos, com o passar dos anos, como uma amargura infindável. Que volta a flutuar em nossa mente quando se tenta resgatar essas datas infaustas.

No dia 16/05/2014, eu havia anotado numa folha do meu caderninho de lembretes, como se fosse um pleito ao Senhor: “Deus o proteja e o salve desse infortúnio.” No dia seguinte, meditando sobre a vida de meu pai, reli o texto e completei, antecipando um gesto de conformação com a mala suerte: “Mas, seja feita a Vossa vontade”, determinado a aceitar os desígnios divinos, e relembrando as palavras de Jesus Cristo no Horto das Oliveiras.

Ao assimilar toda a notícia, tentei, mas não consegui falar nada. Passei o telefone a alguém que estava ao meu lado. Ainda sentado no sofá, coloquei as duas mãos sobre a parte de trás da cabeça e puxei pra baixo, para aproximá-la das pernas, em decúbito dorsal. Queria talvez enterrá-la no chão, feito a avestruz.

O pensamento viajou no tempo, busquei lá no fundo da memória, a idade mais remota, achei-me na boleia do caminhão, ao seu lado, saboreando biscoitos que ele fazia representação. Achei-me mais tarde, vendo-o fazer alguns trabalhos de carpintaria, no Seminário São José, onde eu e um irmão estudávamos. Era um lenitivo para mitigar a saudade, a carência afetiva, que já invadia minha alma. Depois, outros inúmeros momentos, a sua luta para prover a numerosa família de meios de subsistência. O meu amor espiritual por ele trazia todas suas boas ações, e me antecipava a falta que ele iria fazer, como uma referência, como um ícone familiar. Depois que todas essas lembranças rodaram como slides, resumi, em choro convulsivo, a sua trajetória: “findou-se o pequeno grande homem, ele não existe mais...”.

Fiquei num deserto de ideias, para saber o que eu faria dali em diante, a situação exigia providencias. Tinha um monte de providências a tomar, no mundo real, porém eu não tinha como fazer naquele momento, o meu espírito queria juntar-se ao dele para sentir sua presença. Chorei, chorei muito. Lamentei tudo, e na reflexão do meu momento, completei o texto do meu caderninho – uma mania de registrar datas e dados, para a posteridade: “e eu poderia ter me empenhado mais... ter rezado mais... ter conversado com Deus.”

E, naquela angústia, Deus me falou:” realiza o último desejo de seu pai, honra a sua vontade. Já elevarás sua alma ao céu.”

 Assim, me recobrei, enxuguei as lágrimas e me entreguei à missão, a missão da vida, enfrentando a morte. No necrotério do hospital em São Paulo, a missão mais dolorosa, reconhecer seu corpo inerte, sem vida, frio como a madrugada daquela noite, esperando o embalsamamento, preparando-o para a última viagem para Manaus.

Deus o tenha em lugar dos justos e dos homens de fé.