Nascido em
Constantinópolis, estava eu às vésperas de completar sete anos quando o texto abaixo compartilhado circulou no vespertino
Diário da Tarde (18 janeiro 1953). Lido por esses dias, mais de sessenta
anos depois, fiquei imaginando o lugar desgraçado, infeliz onde nasci. Só havia
misérias, infortúnios, se acreditar na descrição do jornalismo de antanho.
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| Recorte do referido vespertino |
Não há uma indicação
de bem-estar, da presença de qualquer organismo que proporcionasse um bom final
de semana. Nem a igreja do padre Antonio Plácido, nem a igreja Batista de (que
ainda conserva) Constantinópolis, tão pouco o cine Vitória ou a Usina Labor, menos
ainda a beira do rio Negro e do igarapé de Educandos serviam de atenuantes.
Nada. Somente aflições.
Ainda não havia o
consumo de drogas, longe do nível de nossos dias, a cachaça seria essa desgraça
para os homens e, para as mulheres, a prostituição. Acredito que o jornalista
(não identificado, como era praxe da época) escreveu a matéria para cumprir a
pauta, com interesse da empresa Archer Pinto, quem sabe, em atingir algum
governante, ou todos.
Sorte grande, creio
hoje, ter eu escapado desse inferno, se existiu nessa dimensão.

Bairro que congrega milhares de
gente humilde; um pedaço esquecido de Manaus que ainda espera a proteção dos
poderes públicos; trincheira onde permanece um exército de trabalhadores pelo
engrandecimento desta terra infeliz — Constantinópolis possui, como os demais
bairros de Manaus, a sua própria vida, os seus próprios problemas e amarga também
o sofrimento e a miséria. (...)
Presa fácil dos caçadores de
votos; gente humilde e ignorante que se deixa levar pelos demagogos, ambiciosos
— aquela gente de Constantinópolis, sempre se apresentou como fator
indiscutível na organização da sociedade amazonense, trabalhando nas mais
difíceis tarefas; sendo ela aquela que, jamais se negou a lidar com o trabalho
mais sacrificado das fábricas e das usinas, ou a exercer outras tarefas também
medíocres, mas sempre honradas; mas mesmo assim nunca foi olhado com a
consideração que merece; nunca recebeu o amparo de que necessita, e daí os mais
desprimorosos conceitos que se lhe fazem.
Ali permanece uma infância
infeliz, que não sentindo a assistência necessária, é obrigada a enveredar pela
senda do crime e da prostituição.
Bairro populoso, sustentáculo de nossa economia porque dali saem os homens que
lidam nos mais duros trabalhos; bairro essencialmente operário,
Constantinópolis carece de mais escolas e é merecedor de melhor sorte. Embora
seja um dos mais populosos bairros de Manaus, ainda não compreenderam os
poderes públicos que Constantinópolis já necessita de um hospital. Ao
contrário, desassistido e pobre, doentio na sua maioria, aquele povo não
dispõem nem ao menos de postos médicos onde possa se socorrer nos casos mais
urgentes.
Sem um policiamento rigoroso;
carecendo de luz e de água; sem ao menos uma feira onde comprar o alimento; com
suas ruas e becos sempre em completa escuridão –Constantinópolis se transformou
em campo aberto à ação dos criminosos, dos ladrões audaciosos, que assaltam em
plena via pública ou chegam ao ponto de arrombarem residências, porque lhe
falta a vigilância policial. A esta, porém, façamos justiça, não cabe exclusiva
culpa porque aqueles becos em completa escuridão se apresentam como armadilhas
traiçoeiras, onde o crime se verifica, e o criminoso se acoberta, sendo difícil
por isto mesmo a proteção policial.
Ali sim, é que se verifica a
deficiência assistencial em que vive a infância do Amazonas. Aquelas
prostitutas em corpo de meninas, são o efeito da desorganização em que vivemos.
Elas, sem a proteção necessária, sem o chamamento ao caminho do bem, sem os
recursos indispensáveis para o convívio num meio mais elevado, se transformam
então em vítimas pela hipocrisia da chamada “alta sociedade” e de repasto aos
instintos bestiais dos “bonitões” e endinheirados. Isoladas no seu próprio
ambiente, como a uma barreira imposta ao desenvolvimento social pelos
preconceitos e pelo seu estado de pobreza, são forçadas então a seguir o
destino de todas as jovens infelizes e desassistidas, ignorantes e necessitadas
– a prostituição. (...)
Filhos
que não conhecem pais; meninos ignorantes que não veem uma esperança de
melhores dias; juventude forcada a seguir o caminho do crime; bairro infeliz
sem um hospital, becos escuros que são verdadeiras armadilhas; povo desprezado
e sempre ludibriado pelos políticos despudorados, são os complementos desse
quadro entristecedor que se denomina Constantinópolis: expressão maior de
miséria e sofrimento.