CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, abril 28, 2024

INSTITUTO VACINOGÊNICO: MANAUS 1906

A postagem reproduz a notícia sobre a inauguração do escudo municipal no futuro Instituto Vacinogênico (destinado à produção de vacinas e à própria vacinação como forma de combater doenças infecciosas), instituição sanitária muito em voga no início do século 19. Não há notícia de quanto durou este estabelecimento, e até se funcionou. O prefeito Adolpho Lisboa, também comandante da Polícia Militar estadual, por demais esquisito, não compareceu, apesar de que haveria uma solenidade na Vila Operária com seu nome, construída no hoje bairro de Aparecida.

Brasão do município de Manaus

Há outras citações sobre o personagem – Victor Derbés, cônsul francês na cidade, e construtor da Vila Operária. Registros que permitem assegurar que obteve boa acolhida do governante municipal, tanto que, além do empreendimento no citado bairro, recebeu da municipalidade um lote de terras no bairro de Constantinópolis (hoje Educandos) para a construção de vila operária semelhante. 

Notícia circulada no Jornal do Commercio, 
22 novembro 1906

Realizaram-se ontem, às 7 ¹/² horas da manhã, as cerimônias de que demos notícia, inaugurando-se o escudo municipal na fachada do edifício em que vai ser instalado o Instituto Vacinogênico desta cidade, e, sendo em seguida, colocada a primeira pedra do sexto grupo da “Vila Operária Adolpho Lisboa”, no Plano Inclinado. O ato foi presidido pelo dr. Thaumaturgo Vaz, secretário do Município e representante do exmo. sr. coronel Adolpho Lisboa, digno superintendente desta capital.

Da solenidade da colocação da pedra, lavrou-se a competente ata, que foi assinada por todos os presentes. No cofre depositado sob a referida pedra foram encerrados os exemplares dos jornais do dia e diversas moedas brasileiras, francesas, chilenas e argentinas. Falou, por essa ocasião, o dr. Thaumaturgo Vaz, o qual, em nome do coronel Superintendente de Manaus, disse que sua exa. sentia-se feliz pelo auspicioso acontecimento que marcava um grande melhoramento à cidade, para o engrandecimento da qual não poupava esforços, trabalhando sem cessar no sentido de rodear os seus munícipes de todos os benefícios e confortos.

Estiveram presentes na bela festa, entre avultado número de pessoas, cujos nomes não nos foi possível reter, os dr. Thaumaturgo Vaz, representando o sr. coronel Adolpho Lisboa; dr. João Carlos Antony, chefe da seção de Obras da Municipalidade; dr. Theogenes Beltrão, chefe do Serviço Sanitário do Município; coronel Avelino Rodrigues, diretor-geral da Secretaria Municipal; cônsul francês, mr. Victor Derbés, construtor da “Vila Operária”, e tenente-coronel [Guarda Nacional] Henrique Rubim, pelo JORNAL [do Commercio].

Mr. Victor Derbés ofereceu aos convidados um Iunch, bebendo, por essa ocasião, o sr. cônsul francês pela felicidade do ilustre superintendente Adolpho Lisboa, de quem disse ser amigo dos seus compatriotas e grande auxiliador dos estrangeiros que aqui vêm trabalhar. Esse brinde foi correspondido pelo representante de s. exa. que em frases eloquentes agradeceu as lisonjeiras palavras do sr. cônsul, saudando, por sua vez, em nome do município de Manaus e de seu superintendente, à Pátria Francesa.

quarta-feira, dezembro 09, 2015

VILA MUNICIPAL (2)

Palácio Rio Negro, hoje Centro Cultural
Mais um nobre fundador deste bairro, que foi construído com o intuito de renovar a cidade de Manaus da belle époque.
Algumas observações pertinentes: a Vila se transformou no bairro de Adrianópolis; a rua Belém mencionada, hoje se conhece por Marciano Armond, e a Recife, por Mário Ypiranga. Enfim, o alemão Waldemar Scholtz era o então o proprietário do Palácio (sua residência), depois conhecido por Rio Negro, sede do governo do Estado, na avenida Sete de Setembro.

Em nossos dias o citado cruzamento está bastante modificado. E diante da ausência de outros dados sobre esse, mesmo em consulta ao GPS, tornou-se impossível identificar o lote de Scholtz. Pouco interessa. Certo mesmo é que a Vila teve múltiplos requisitos para prosperar, um deles, os poucos lotes de atrativos valores. Tanto que foram aforados aos homens endinheirados e bem situados na administração. Ainda assim, a única residência ali construída, e ainda existente, foi o Castelinho do prefeito Adolfo Lisboa.

LOTE Nº 6 – RUA BELÉM

Termo de aforamento feito ao Sr. Waldemar Scholtz de um lote de terras do patrimônio desta municipalidade, situado à rua Belém da Vila Municipal, como abaixo se declara:
 Aos vinte e oito dias do mês de dezembro de mil novecentos e seis, nesta cidade de Manaus, capital do estado do Amazonas, na secretaria da Superintendência Municipal onde se achava presente o Sr. Coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, superintendente do município, e eu, secretário, Dr. Thaumaturgo Vaz, compareceu o Sr. Waldemar Scholtz e disse que vinha assinar o presente termo de contrato de aforamento de um lote de terras que lhe foi concedido na rua Belém da “Vila Municipal”, bairro de S. João desta cidade de Manaus, em sete de novembro findo, limitando-se ao Norte com a rua Belém; ao Sul com o terreno aforado a Antonio de Berredo Lisboa; a Leste com a rua Recife; e a Oeste com o terreno aforado ao Dr. José Duarte Sobrinho, tendo uma área de mil seiscentos e oitenta metros quadrados (1.680m2); ficando o enfiteuta sujeito às cláusulas seguintes: 1ª) O enfiteuta obriga-se a pagar o foro de dezesseis mil (16$800) réis correspondente a mil e seiscentos e oitenta  metros quadrados (1.680m2) da área ocupada pelo Lote número 6 da “Vila Municipal”, bairro de S. João dessa cidade, assim como o direito dominical em – laudêmio – correspondente à percentagem que estiver determinada por lei. 2ª) O pagamento do foro será feito na Contadoria da Intendência Municipal.

sábado, julho 13, 2013

TH. VAZ - HISTÓRIA FACETA


Revista Redempção,
novembro 1932
A história faceta sobre Th. Vaz pertence ao saudoso mestre Mário Ypiranga, e foi copiada de seu livro Histórias facetas de Manaus, editado em 2012.
 
RECADO PARA O GERENTE DO B. N. U.
  
Muita gente ainda se recorda da figura citadina que ilustrou a sociedade e a cultura amazonense até meados do 20º século: Taumaturgo Sotero Vaz, o Th: Vaz dos poemas disseminados pelas folhas, vulgo "Patureba". Era um piauiense de talento polimorfo, tanto capaz de aventuras facetas como de páginas brilhantes, membro titular da Academia Amazonense de Letras.
Feio como a Megera, casou-se dentro de uma família de respeito, os Belmont, e (a esposa) era bonita e prendada. A quem lhe perguntava o motivo de haver escolhido um sujeito nada simpático de cara, ela respondia: -- Porque assim ninguém me toma...
 
Taumaturgo Vaz, formado em Direito (pela Faculdade de Direito do Recife), era um boêmio do tipo que se comporta sempre com a polidez de quem teve educação esmerada. Fazia suas farras na "Cervejaria Boêmia', no "Itatiaia", mas com dignidade. Andava sempre de bolsos vazios, porque o dinheiro do emprego era sagrado, ia direto para as mãos da esposa, que então lhe dava aquela parca quantia para a cerveja. O poeta ganhava os extras escrevendo por encomenda de terceiros, como era de vezo antigamente.
 
Diz-se mesmo que muito poeta daquela época áurea publicou livro escrito pelo Th: Vaz. Além disso, ele colaborava na imprensa, diariamente, com pulhices rimadas, que ajudavam a desopilar o fígado mal alimentado do povo.
 
Uma tarde, Th: Vaz recebeu um cheque graúdo de um dos seus "fregueses", a descontar no Banco Nacional Ultramarino (BNU).
Para seu azar estava findando o dia e o caixa do banco negou-se a descontar o cheque, sob a alegação de que às dezesseis horas
ficavam encerradas as operações de pagamento, mas que ele, interessado, fosse ao gerente, pela ordem de desconto. Taumaturgo Vaz, sempre precisado, não teve dúvida em abordar a pessoa mal encarada do portuga e solicitar o favor. O homem, que não conhecia com quem tratava, negou-se a ordenar o desconto e fechou a portinha do guichê na cara do poeta.
 
Taumaturgo saiu ruminando um desforço (sic) à altura e foi à "Livraria Velho Lino" pedindo papel e envelope. Ali mesmo escreveu o seguinte:
O nome do banco é BU,
o do gerente é Lacerda.
O banco rima com cu
e o gerente com merda.
Fechou, pôs o endereço e deu um níquel ao italiano carregador. Ali mesmo na livraria descontou o cheque, mas invés de escafeder, ficou mancuricando a zona. Com pouco viu o corre-corre, gente da polícia (ali perto) a dirigir-se ao banco e só então foi embora...

quarta-feira, março 21, 2012

Nery versus Th Vaz


Na madrugada de ontem houve um grave incidente na “Pensão Floreaux”
“Cherchez la femme”
Manaus, 3 de abril de 1915
Quando na madrugada de ontem, o Jornal do Commercio, entrava para o prelo, um caso grave, que pode ainda ser de funestíssimas consequências, teve lugar na Pensão Floreaux, conhecida casa de mulheres de vida pública.
Desse caso, foram protagonistas o Sr. Antônio José da Silva Nery, de 24 anos, solteiro, ajudante de guarda-mor de nossa Alfandega, filho do senador federal Silvério José Nery, ora em viagem com sua família para o Sul da República; e o Dr. Thaumaturgo Sotero Vaz, maior de 40 anos, casado, diretor da secretaria do Estado e redator de O Tempo, diário governista.   
Caso grave, melindroso mesmo, pelas circunstâncias que o cercam, pela condição social das duas pessoas nele envolvidas, nós não descemos a comentá-lo nem a o explorar.
Vamos relatar aqui, linhas abaixo, o que nos referiu testemunha de visu, pessoa insuspeita e que nos merece toda a fé. Ao sabor do público, que tem o necessário critério para ver quem [é] o culpado, quem [é] o passível de censuras, nós deixamos os comentários.
Aí está o que ouvimos:
O Sr. Landry Nery, como é geralmente conhecido o filho do senador amazonense, entrou na Pensão Floreaux sozinho, passava de meia-noite. De uma banca próxima onde se sentara o nosso informante, convidou-o a tomar assento ali. O Sr. Landry Nery atendeu, mas imediatamente levantou-se, deixando os seus amigos.
Sendor Silverio Nery  
O nosso informante entretinha-se a ouvir a palestra de um dos companheiros, quando a azáfama muito natural nessas ocasiões fê-lo procurar ver do que se tratava. E então viu, no corredor para onde abrem os apartaments das mulheres que habitam a Floreaux, o Sr. Landry em luta, corpo a corpo, com o Sr. Thaumaturgo Vaz.
Pessoas inúmeras afluíram ao ponto em que dava o pugilato e, então, à testemunha que ouvimos pode verificar que alguém pelas costas subjugava o Sr. Landry, aproveitando-se da ocasião o Sr. Thaumaturgo Vaz para aplicar no seu contendor forte pontapé que prostrou por terra o primeiro.
Ao levantar-se o jovem Silva Nery, o Sr. Thaumaturgo Vaz disse-lhe: - Você me vem provocar aqui, neste lugar, rasgando-me a roupa para que eu não possa sair? Que isso não transpire lá fora.
Seguiu-se a isso uma espécie de reconciliação, em que os dois se apertaram as mãos, declarando o Sr. Nery que estava desarmado.
O nosso informante convidou Landry Nery a retirar-se. Atendido, começou aquele a procurar o chapéu do filho do senador Nery, que devia ter ficado no jardim, junto à mesa em que haviam estado a princípio.
De repente, o nosso informante ouviu uma voz de mulher que gritava: - Esmaga, mata esse bandido!
O Sr. Thaumaturgo Vaz irrompeu de um dos quartos e, brandindo na destra um revólver, avançou sobre o seu desafeto, gritando repetidamente: - Dou-lhe um tiro na boca.
Atracaram-se novamente.
E do corredor, assim, em luta corporal, desceram ao jardim, onde ao falsear-lhe um dos pés, o Sr. Silva Nery rolou sobre o solo. Thaumaturgo Vaz caiu sobre ele, sem abandonar o revólver que o outro, debaixo, procurava arrancar-lhe das mãos. Num momento em que o cano da arma encostara ao pescoço do Sr. Landry, o Sr. Thaumaturgo Vaz deflagrou-a.
Ferido, o jovem funcionário federal foi, por diversos amigos, conduzido para a Casa de Misericórdia, enquanto Thaumaturgo Vaz voltava ao quarto de onde saíra momentos antes.
O projetil penetrou a região antero-lateral-esquerda do pescoço do Sr. Landry Nery, interessando (sic) a pele e o músculo externo-(...)-mastodeu. Os Drs. Barroso Nunes, Figueiredo Rodrigues e Xavier de Albuquerque fizeram os necessários curativos no enfermo. O ferimento não é mortal, ao menos que sobrevenha alguma infecção, que poderá trazer consequências funestas.
O Sr. Landry Nery tem sido muito visitado, acorrendo à Casa de Misericórdia amigos seus, diversos colegas de repartição e quase todos os oficiais aduaneiros. Às 11h de ontem, o livro de visitantes acusava já 204 nomes.
Detalhe da notícia
O Sr. Thaumaturgo Vaz, depois do incidente, recolheu-se à sua residência, onde permanece. Às 9h30 de ontem o delegado de policia do 2º Distrito e seu escrivão compareceram à residência do delinquente, que pediu à autoridade, voltasse mais tarde para ouvi-lo.
Na Floreaux todos os empregados negaram à reportagem do Jornal as notas sobre este caso.
Anotações do postador:
A publicação pertence ao Jornal do Commercio, de 3 abril 1915. Quanta cortesia jornalística, era “senhor e doutor” para todos os lados, certamente por se tratar de “autoridades”. Se fosse a plebe...
Th Vaz (abreviatura do nome do atirador) deixou outras historietas, bem mais “diurnas”. Poeta de categoria, seria um dos fundadores da Academia Amazonense de Letras (1918). Tendo publicado uma revista com o nome de Patureba, passou a imortalidade com essa alcunha. À época, possuía 46 anos, pois havia nascido em 1869, no Piauí, e faleceu em Manaus, em 1921.  
Sobre Landry Nery, desconheço qualquer nota (des)abonadora e as consequências do tiro. Seu pai, o senador Nery, seguiu dando as cartas no Amazonas até a morte, em 1934. Mas, os Nery prosseguiram com prestígio. O saudoso Paulo Nery fechou o ciclo em 1982.
Agora, a Pensão Floreaux. Começo com uma observação do finado Mário Ypiranga, falando sobre “papagaio de papel”: Walter Rayol, que foi vereador e prefeito de Manaus, cerca de 1910, “brincava de papagaio na vasta área do internato onde mais tarde seria a famanada Pensão Floreaux, de sórdida memória, depois sede do Nacional Futebol Clube” (Naça, nos bons tempos).
Então tá. Já sabemos que o cabaré funcionou na rua Saldanha Marinho, cujo ponto de referencia é a Importadora Tropical. Sabe-se que a sede do Naça fazia extremo com o prédio da avenida Eduardo Ribeiro, onde hoje comercializa o Carrefour. Antes deste, ali funcionou as lojas Americanas. Foi a direção destas que adquiriu o terreno do Naça e construiu amplo depósito.
Até a próxima.