CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de junho de 2018

MANAUS - CIDADE FLUTUANTE

Cidade Flutuante, talvez uma últimas fotos
O governo de Arthur Reis (1964-67) já havia decretado a extinção da Cidade Flutuante, um aglomerado de flutuantes sobre o rio Negro, em frente à cidade de Manaus. Catando os jornais da época, encontrei os registros abaixo.


A foto, compartilhada do Jornal do Commercio (maio 1965), com a seguinte legenda:
O Brasil é mesmo um pais de contrastes desconcertantes. Eis aí uma vista de Manaus, a beira do maior caudal do mundo — o Amazonas — que despeja no oceano o fantástico volume de 100 mil metros cúbicos/segundo. Não obstante, é impossível retirar-se daí a energia elétrica pelo simples motivo de que não há desnivelamento. Uma percentagem infinitesimal dessa fabulosa carga d’água bastaria para produzir diariamente, em S. Paulo, cujo desnivelamento atinge a 750 metros, 18 milhões de kilowatts/hora.
e o poema de Heimar Veras, de quem, me desculpe o leitor, nada sei. A Balada transcrevi de O Jornal (4 fevereiro 1965).



BALADA DA CIDADE FLUTUANTE
HEIMAR VERAS

O Rio Negro galopa a paisagem
morta e viva, viva e morta
dos flutuantes encharcados de tragédias. 
 O DESEMPREGO  O ROUBO   O CÁRCERE
— Vai, home, percura cumida, home.
— Mulé, toma o dinheiro qui arrumei.
— Entrou aí, o ladrão entrou aí, pega. 
 A NECESSIDADE   O DESBRIO   A VERGONHA
— Não, mamãe, ele é um monstro.
— Qui importa, não temo roupa nem vida.
— Eu era criança, minha mãe obrigou 
O AMOR   O CIUME   O CRIME
— Vi um cabra aqui cuntigo, mulé.
— Foi Zé Anavaiada, o terror da puliça,
— Zé, pruquc mataste o marido dela. 
O Rio Negro galopa a paisagem
morta e viva, viva e morta
dos flutuantes encharcados de tragédias. 
A FOME   A FEBRE   A MORTE
— Dorme, fiinho, num tem arlimento.
— Mãinha, num quelo durmir, quelo cumer.
— Socorro, tá frio, acordou morto. 
 O FRACASSO   O DESGOSTO   A COVARDIA
— Me dá uma dose, peste, vou virá bicho.
— Virgulino, a puliça segue teus fio.
— Coitado de Virgulino, suicidou-se ontem. 
 O DESEJO   A IGNORÂNCIA   O PECADO
— Mamãe, tu tá pecando cumigo assim.
— Meu filho, gosto de ti como home.
— Arre diabo, os dois ficaram como cachorro. 
 A MISÉRIA   A PRECE   O CHORO
— Dorme, fiinho, esquece teu estômago.
— E o papai? Adonde tá o papai?
— Não chora, ele tá inda na prisão. 
O Rio Negro galopa a paisagem
morta e viva, viva e morta
dos flutuantes encharcados de tragédias.