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quinta-feira, janeiro 18, 2024

MANAUS: CIDADE FLUTUANTE

 Em Manaus, existiu a “Cidade Flutuante”, desaparecida há exatos sessenta anos. Restou, como descreve Ítalo Calvino, em Cidades Invisíveis, sobre a memória da cidade Maurília, que “o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido”. Deste modo ocorre, em nossos dias, com nossa extinta cidade fluvial, apenas é recordada em postais, recortes de jornais e algum trabalho acadêmico.

Maia, in Fundadores da
Academia Amazonense de
Letras

Álvaro Maia (1893-1969), então Senador, escrevendo em coluna própria no Jornal do Commercio, talvez uma de suas últimas crônicas, pois morreu em maio, desaprovou o resultado da expedição sobre aquele curioso fenômeno habitacional.

 

Recorte do Jornal do Commercio, 16 mar. 1969

Desapareceu a “Cidade Flutuante” em poucos dias sob a ação das autoridades, porque usurpava áreas do cais e prejudicava as casas comerciais do litoral. Tinha movimento próprio - restaurantes, médico, dentista, escolas, pequenas lojas, boates. Atendia, de preferência, aos fregueses apressados dos beiradões, que ali encontravam o mais necessário, inclusive damas fáceis e folguedos noturnos. Vendiam os seus produtos, abasteciam-se, ingeriam as meladinhas e regressavam aos paranás e lagos pelo primeiro rebocador.

Restam fotografias e postais. Desaparecida, os seus habitantes procuraram os subúrbios da Capital, as ilhas próximas, ou se encoivararam pelos igarapés.

Isolados e dispersos, perderam a unidade comercial, deixando também de contribuir para a arrecadação, pelos pequenos estabelecimentos que cerraram as portas e transações. Onde param esses moradores, onde mourejam.

Motores, canoas, igarités pousam nas praias, à margem do rio Negro, em tapiris ou casebres equilibrados sobre cedros, açaens (sic) e sumaúmas. As ruas vizinhas passaram a fluir sossego, sem as serenatas e rapapés tamboriladas das boates. (...)

Muitos flutuanteiros da “Cidade Flutuante” salvaram suas barracas e seus velhos cedros, fugindo para os jutais. Mas vieram as enchentes, sacrificando parte da produção.

Ora, certo dia, alguns juteiros, mais uma vez afogados pelas chuvas, ouviram dizer que terras fartas, nas zonas suburbanas de Manaus, são do governo. São do Governo, são dos pobres. Rumaram e remaram para esses becos da promissão. Igarapé, capoeiras, pretas ou arenosas. Tudo bom e bem. Tomaram conta de um lote, escavaram buracos para os primeiros esteios. A notícia correu mundo. Outros chegaram: vinham dos jutais, dos escombros da “Cidade Flutuante”, na ilusão de melhoria e empregos na Zona Franca.

Vai surgindo o “Bairro da Palha”, entre os bairros de São Jorge e São Raimundo. É interessante ver o movimento do novo bairro, mesmo em tarde chuvosa. Já existem pequenas ruas, escola, boteco, até um teatro-mirim, e mais de mil habitantes.

Improvisação de poucos dias. Descobrissem os favelados, os mocambeiros terras assim! Juteiros, herdeiros da “Cidade Flutuante”, seringueiros desabrigados, pescadores sem redes de náilon, citadinos sem emprego caminham para o “Bairro-da-Palha”, a quinze minutos de Manaus, em ótima rodovia asfaltada... 

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