CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

2 de abril de 2016

FARIAS DE CARVALHO: POETA


Arthur Engrácio, saudoso e respeitado membro do Clube da Madrugada, escrevia uma coluna com a denominação de VALORES INTELECTUAIS DA NOVA GERAÇÃO, quando fez  a apresentação de Carlos FARIAS Ouro de CARVALHO.

A publicação, que ocorreu em 20 de maio de 1956, no matutino O Jornal, vai aqui postada.




É comum, quando falamos de poetas, imaginarmos logo tipos esbeltos de mancebos, negros bigodes, bastas cabeleiras onde não faltam o brilho e as ondulações seducentes. Este de que vos falarei, porém, não possui nem bigodes, nem cabeleira e a sua figura, Ionge de parecer-se à de um Adônis, assemelha-se mais a de um rico burguês.
Refiro-me a Carlos Farias Ouro de Carvalho. Nasceu esse mui dileto filho de Orfeu em Manaus, a 8 de setembro de 1930. Iniciou os seus estudos muito cedo. Percorreu quase todos os grupos escolares, indo concluir o curso primário no colégio do professor Vicente Branco, o celebérrimo Vicentão, o espantalho dos garotos rebeldes e pouco amantes dos livros; o mestre-escola que faria da férula a sua bandeira de combate nos entrechoques com os alunos relapsos.

Não chegou, todavia, além do 3° ano ginasial. Seu espírito insurgente, refratário ao regime de obrigatoriedade vigente nos estabelecimentos de ensino, não podia harmonizar-se, é bom de ver, às normas didáticas a que pretendiam submetê-lo. E preferiu continuar estudando por conta própria.

Por muito tempo foi o capitão-mor da “pelada", do papagaio e da bola de gude nas rampas verdejantes do mercado e da praça dos Remédios; ajudou, juntamente com o Manuel "Doido", monsenhor Oliveira na celebração de missas (é ele quem relembra, hoje, esses episódios num poema cheio de lirismo); comandou turmas de garotos, no apedrejamento de vidraças e mangueiras; foi, enfim, o enfant terrible de maior projeção e renome da sua zona.

Aos quatorze anos começou a sentir os primeiras pruridos poéticos, que não o mais deixariam, vindo a transformá-Io no vate vigoroso de nossos dias. Seu "debut" no Parnaso fez-se com o estilo clássico, do qual tornou-se apóstolo fervoroso. Mas, foi somente com a influência de Jorge Tufic que criou personalidade literária, passando-se com malas e bagagem para a corrente modernista, que, nascida, do movimento de 22, àquela época encontrava-se, já, no apogeu.

Pobre e humilde, o poeta, desejoso de melhorar de vida, aos quinze anos, transportou-se para o Rio de Janeiro. Lá, sem recursos e conhecidos, para manter-se, teve que transformar-se em vendedor de bombons a lavador de garrafas. Na metrópole, ainda, pela força dos seus méritos intelectuais, fez parte da Sociedade Carioca de Letras – núcleo literário tomado por estudantes jovens e talentosos, cuja cadeira era de número 18, tendo por patrono Paulo Setúbal.

Em 1954, já radicado definitivamente em Manaus, Farias assume uma posição de destaque no panorama político-social do Estado.

Fervilhava o caldeirão político àquele época. A luta pela sucessão governamental havia sido lançada. O PSD e o PTB, as facções de maior prestígio no seio das massas, tinham lançado, já, o nome de seus candidatos. E o vate decide-se tomar partido pela causa do primeiro. Sob o pseudônimo de "Barão Língua de Trapo" saiu para a luta. Sua arma: o verso; seu objetivo: a moralização dos costumes. Novo Castro Alves, seus versos satiricamente malévolos, iam ferir em cheio o adversário, que esteve a pique de desertar da campanha.

Esses sonetos, hoje remoídos, dariam um volume apreciável.

Orador de raça, autodidata, fala e escreve corretamente o inglês. Conhece um pouco da língua de Racine e Molière.

Em 1952 fez parte de uma caravana de poetas amazonenses que se propuseram a difundir por todo o Brasil o nome do Amazonas literário. Dotado de um coração boníssimo, nunca chegou a inimizar-se seriamente com ninguém. Tem horror às intrigas.

Como poeta, sua técnica é impecável. Não costuma trabalhar o verso. Seus sonetos e poemas nascem-lhe com uma singular espontaneidade, o que se verifica através da ideia sempre límpida, simples e bem ajustada.

Sua poesia é dominada pelas duas constante: infância e o tema social. Homem do povo, vindo de muito baixo, já tendo passado pelas maiores vicissitudes na vida, não poderia sentir outra influência. E no belíssimo poema Carta ao Poeta Paulo Monteiro de Lima que vamos encontrá-lo perfeitamente realizado:

Paulo,
ontem quando um menino de olhos fundos
me abriu a mão ossuda e pequenina
e disse: - Moço eu tô com fome...
senti que tu estavas do meu lado.
Senti porque chorei, e as minhas lágrimas
Vinham com o gosto quente do teu pranto
Vi os teus olhos nos olhou famintos
do menino descalço e esfarrapado
de mãozinhas abertas como lírios
que estivessem morrendo, murchos, frios
sem adubo, sem sol, sem primavera.

Paulo,
como tu viste ontem, meu amigo,
depois que tu partiste, este mundo canalha
não melhorou em nada. As crianças
andam ainda chorando nas esquinas,
as mulheres parindo nos prostíbulos,
.................. ...................... ...................
E uma porção de fraques e cartolas,
de buchos barrigudos e burgueses
toma conta de tudo. A dor é a mesma.
O saque é o mesmo. As máscaras
se inventam sempre mais cretinas.
Luto, miséria, dor, lágrima, fome...

Possui um livro de poesia, Baú Velho, que pretende publicar ainda este ano. As coisas que mais quer bem na vida — diz-nos ele — são: a sua família, os seus amigos e o Clube da Madrugada, do qual é um dos maiores expoentes.


Seu ideal é continuar escrevendo a fim de que, com o seu esforço, conjugado ao dessa mocidade que no momento começa a compenetrar-se do seu dever, para dar ao Amazonas um lugar de destaque no cenário literário da Nação, e quiçá do Mundo.