CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

9 de abril de 2016

NUNES PEREIRA

Fábio Lucena
Manoel Nunes Pereira, bem mais conhecido por Nunes Pereira (1892-1985), nasceu no Maranhão, todavia, fez fortuna literária e obteve reconhecimento internacional com relatos antropológicos. Funcionário federal, teve uma respeitável vivência com os indígenas do extremo Norte, e dessa caminhada extraiu inúmeros relatos.
Jovem ainda, aos 26 anos, estava entre os fundadores da Academia Amazonense de Letras e, por esse desígnio, foi o acadêmico com mais tempo de vida na Casa de Adriano Jorge.
O saudoso jornalista Fabio Lucena escreve o artigo que aqui vai postado. Circulou no Jornal do Commercio (6 agosto 1967). 

 
Recorte do jornal mencionado
  
Alessandra, filha, foi em julho, aquele homem lá estava, no bar. "Trinta e três graus à sombra" - dissera-lhe Augusto dos Anjos uma vez, na véspera da última hemoptise. Trinta e três graus à sombra, Alessandra, naquela tarde, e o homem enorme ali estava. De longe, Alessandra, eu o vi, e o vulto enorme da cabeleira embranquecida se agitava a cada gesto daquelas mãos secas e terrivelmente vivas, daquelas mãos que há mais de meio século vêm construindo um estranho humanismo. 
“Morreu Bruno de Menezes” - lembrei-me, Alessandra, haver lido no jornal, há quatro anos. Então não era, Alessandra, não era o Bruno, não podia ser. Eu o vira uma vez, no Festival Folclórico, indignado com a estupidez de certos homens que estavam macaqueando as riquezas populares. E a cabeleira branca, também enorme e revolta, à luz do refletor, era o látego que ele, Bruno, aplicava intimamente na consciência dos mistificadores. 
E eu me lembrava, Alessandra, que, num dois de julho, um homem dissera pelo jornal que o Bruno, que o Bruno, que o Bruno! ... eu me lembrei, então, daquela crônica, que algum dia tu recitarás, onde o Neto, o poeta, registrava “a enorme sombra do Bruno caindo sobre o vale”.
Ouvira dizer, Alessandra, que um homem que passara 40 anos estudando os índios, filha, os índios e os homens, que esse homem extraordinário aqui chegaria. E eram trinta e três graus à sombra, Alessandra, quando, naquele julho, naquele bar, eu vi Nunes Pereira. 
“Esse é um jornalista” - disse o padre Nonato Pinheiro e o velho estranho: “Senta aí, féla da póta” - e foi então, Alessandra, que evoquei a imagem do Gênia, quando, do teu tamanho quase, no braço do pai se esforçava, esticando o pescoço, para ver o ditador na praça vermelha, que ele, Gênia, adorava como a um Deus, no seu santo coração de menino, o mesmo ditador que, daí a pouco, lhe mandaria para o desterro o pai amado, que Gênia nunca mais veria. 
Morto Alessandra, mesmo morto o ditador e ainda está morrendo. Morrerá eternamente, filha. Gênia, o poeta, não! Viverá para sempre. Nunes Pereira, também, como Gênia, é imortal!
“Por que, pai?”
“A lei, Alessandra, a lei!” Ficou noite, Alessandra. Fui à casa. E no mundo, filha, tanta coisa acontecia. Tu, por exemplo, dormias. Muitas crianças dormiam. Algumas, como tu, para acordar; outras, para sempre filha, estupradas pelo napalm e pela fome.No bar, de novo, minha máquina, que eu fora à casa buscar, começou a escrever, filha. Nunes Pereira ditava uma entrevista na mesa do bar; mais que entrevista, filha, ele improvisava um poema, que eu captei em toda a plenitude para, depois, dá-lo à Imprensa. 
O poema era ele, filha, a sua vida, a vida que nunca terá fim, pois ele, como o Senhor no salmo onze, “por causa da aflição dos humildes e do gemido dos pobres, agora me levantarei, para os defender, darei a salvação a quem desejar”, que é o que ele tem feito, Alessandra, que é o que ele tem feito unicamente. 
Invencível, filha, estranhamente invencível esse andarilho, na sua pertinácia sobre-humana, na sua missão de salvar o homem. Sim, Alessandra, o índio é homem. 
A justiça, filha, de repente ele falou na justiça. “Ah! se eu os apanho, a ele, a eles que vilipendiam a justiça, que zombam do homem, que zombam de Deus! Assassinos, assassinos!” 
Prendam Nunes Pereira! ele gritava, Alessandra, de repente ele gritava, e os olhos enormes, esbugalhados, tinham o mesmo espanto que teriam os olhos das estátuas da justiça se lhes atassem às mãos, onde de fato estão, as vendas humilhantes. 
- Alessandra, Alessandra, foi em julho, aquele homem lá estava. Eram trinta e três graus à sombra, Alessandra, e o mundo todo estremeceu, quando Nunes Pereira, virando a taça espumante, e com os punhos cerrados gritou:
-- PROTESTO!
-- PROTESTO!
-- PROTESTO!