CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

8 de abril de 2016

SEBASTIÃO NORÕES (5)

Capa -modesta- do livro
Dia 23 próximo, o livro Poesia Frequentemente do saudoso Sebastião Norões (1915-1972) completa 60 anos de seu lançamento, na extinta Livraria Escolar, situada à rua Henrique Martins. Além dessa longevidade, e em razão dessa, detém a primazia de ter sido o primeiro livro publicado por um membro do Clube da Madrugada.

Para marcar tão faustoso acontecimento na cidade de Manaus, entre outros testemunhos, o jornalista Fernando Collyer, saudando ao poeta, publicou em A Crítica (24 abril 1956) o artigo aqui postado.


Eu Te Saúdo Meu Amigo Norões

Fernando Collyer

“Não morrerei, porém, sem que o meu cantopenetre no mundoe consiga nalgum homem de boa vontadea acomodação desejada e perfeita”. 
NORÕES, me perdoa por ter te roubado estes versos. Mas é que eles também são meus, pois encontraram em mim, a boa vontade e a “acomodação” por ti desejada em tua mensagem poética. Estes versos, também são meus, porque ao lê-los, senti a mesma emoção que sentiste ao escrevê-los. 
Esta mensagem mágica vinda dos deuses, que percorrendo todos os mares, atravessando todos os ocasos, chegou a ti, que lutaste com a palavra, numa vontade de transmiti-Ia, assim pura te cristalizada como tu a recebeste, também é minha. E eu me senti poeta e me senti puro. Senti-me poeta porque vivi a tua mensagem e senti que também falava com os deuses. Senti-me puro porque teu verso se acomodou dentro de mim. 
Por isso Norões, este verso também é meu e eu pareço que nasci para o mundo. Para esse mundo que tu falas, que tu dizes que não morrerás sem que o teu canto nele penetre e consiga nalgum homem de boa vontade a acomodação desejada e perfeita. 
E que coincidência feliz, meu amigo Norões. Lançaste o teu primeiro livro que será o ponto inicial de tua trajetória, e nele eu li pela primeira vez um poema teu, e senti que ele também me pertencia, pois a tua mensagem poética ecoou dentro de mim, pura e cristalina. 
Norões, década de 1930
Irmanamo-nos pela emoção, meu amigo. Quando na Livraria presenteaste-me com um exemplar do teu livro, notei que tu te atropelavas dentro de tua emotividade, que se externava por um nervosismo aparente, oriundo da tua sensibilidade poética, que ficou em mim, que ficou no sentimento de um homem que apenas bate crônicas em jornal e que tem a grande infelicidade de não ter nascido poeta, como um dos instantes que se vive. 
Como um momento em que nós vemos que o mundo não é somente este amontoado do criaturas que lutam e esta porção de homens de cérebros entorpecidos que ainda não quiseram ver outro mundo, além deste de lutas, de mortes, de incompreensões, de homens que escondem o coração, que não o colocaram “pulsando na lapela como um broche de amor”. 
Meu amigo Norões, se fosse poeta, me enfileirava entre os corações de todos os poetas do mundo, para cantar com eles a mais linda das baladas, e declamar o mais puro dos poemas, saudando a ti, saudando o teu livro.
“Não morrerei, porém, sem que o meu cantopenetre no mundoe consiga nalgum homem de boa vontadea acomodação desejada e perfeita”. 
Estes versos também são meus, meu amigo Norões.