CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de abril de 2016

ACAPULCO NIGHT CLUB

Recorte de O Jornal, 7 set. 1958
Com esta postagem espero contribuir, ainda que de forma acanhada, para a história das casas de diversão noturna, que embalaram a capital amazonense no século passado. O Night Club Acapulco foi uma surpresa deleitosa na cidade e, por isso, segue suplicando que um abnegado estudioso restaure condignamente sua memória.

Registro que tive a regalia de frequentar este point, ainda que em via de desmanche. Portanto, sem as sutilezas descritas por um aficionado de suas noites de sonhos e magias.

O aficionado que nos descreve a majestade do Aca, como carinhosamente tratava o dancing, é o saudoso Ramayana de Chevalier, que desfrutou vivamente desse período. Seu hábil testemunho foi a público em artigo intitulado “Fog”, constante de A Gazeta, de 10 out. 1961.


"Fog"

É PRECISO amar as nossas paisagens, entusiasmar os que nos visitam com o colorido original das surpresas amazônicas. Ninguém sabe o que seja o Acapulco, essa fatia de sonho acantonado num remanso da rodovia AM-1 [hoje, AM 010]. Tudo tem a sua história. Arrisco-me a contá-lo.

O arrojo de Mário de Oliveira foi o de um visionário. Sonhou, sofreu, viveu o seu sonho. Quis dar a Manaus uma casa de elite, onde fosse proibido falar em decepções, em mágoas, em desencantos. No Aca, só as luzes falam. Os homens e as hienas, só cochicham. A música, através de um conjunto e uma estereofônica respeitável, derrama insinuações na meia penumbra clássica dos night-dancings. As paredes do Acapulco são decoradas com sóbria elegância. Os apliques das muradas artísticas, sem alarde, fazem o seu papel de completar o sonho.

Bem disposto, com seu amplo salão de permanência, a sua pista, há nele uma iniciativa de teatro sem pretensões, de palco de experiência, de passarela de ensaio para um concurso de elegância. A cozinha, primorosa, os garçons bem postos, alinhados, solícitos.

Lá para dentro, a gerência e o amplo salão de tentações verdes, onde a alma se queima nos banquetes de Midas. Ali, um sussurro, que parece vindos dos subterrâneos de Tibério, a conjuração das fichas, o murmúrio que enlaça os sentimentos e hipnotiza os seus aficionados. (...) 

De longe, à margem da estrada, sobe como uma prece a música do Aca. Dentro dele, na meia-luz aconchegante, passam vultos que lembram a fascinação de Natacha, a eterna. Conheço várias das grandes capitais do mundo. Mário de Oliveira poderia ter localizado a sua boate num sobradão vetusto do centro urbano. Fá-lo-ia moderno, com a sua escada, o ruído da cidade próxima, a frequência dos notívagos perdidos, a mesmice das outras. Ou teria construído um inferninho à beira da calçada, servindo de pasto às reclamações dos vizinhos cochilantes, ou de criaturas sem rumo.

Mário de Oliveira preferiu o amplo seio da floresta. Fugiu do calor, da promiscuidade, das vizinhanças incomodas, do terra-a-terra provinciano. Ergueu a princesa dos seus sonhos, num recanto quase bárbaro. Transportou o México para Manaus e presenteou-o à nossa melhor sociedade. Ali se tem visto os mais renomados artistas do Brasil. Os retratos, da galeria íntima do Aca, atestam isso. Ainda há alguns dias, Rodolfo Meyer, deslumbrou os seus frequentadores com um espetáculo magistral. (...) 
Recorte de O Jornal, 4 dez. 1960

A coleção de discos da boate é simplesmente admirável, E, às vezes, surge por lá o Tical, com a sua voz embaladora, ou está sempre a postos o Little Box, esse diretor artístico civilizado e sutil, que é também um dos melhores croners que eu já escutei em tantos lugares. 

Mesmo nos dias de semana, véspera de trabalho fatigante, há os que se habituaram à quietude de uma frequência discreta e simples. Já não existe o deserto semanal, na boate. O mistério, a solidão harmoniosa, os grupos dispersos mas simpáticos, a amizade à sombra da melodia estonteante, a dança, o suave enlevo das madrugadas deslizantes, tudo seduz e chama no Acapulco, como a confissão das gargantas suicidas. A romaria dos automóveis é constante, os seus faróis, acesos à descida da rampa, dão à sala crepuscular, tons de incêndio brusco. Os romances se asilam na sombra mansa, os olhos se procuram, os corpos se compreendem, nos melhores blues do mundo. À penumbra, um copo de sonho escocês, a mulher maravilhosa natacheando numa dança meiga, a música, às vezes, lá fora, o luar, assim é o Acapulco.
Mas eu desejava falar das madrugadas densas, quando a neblina fantasia vestidos de noiva nas árvores e nos lampiões. O Amazonas é assim. Toma-se um carro, vai-se às estradas, e volta-se com frio. Na época das chuvas, os desvãos se cobrem de um turbante cinzento, quase branco, como se os fantasmas andassem visitando encruzilhadas. Os casais lá se vão, tiritando dentro dos carros, rumo à Pasárgada. 
Nessas noites, o Acapulco é um deslumbramento. Cercado de fog, como um romance britânico. Dançando, vê-se, por entre os olhos, a cerração tão próxima, a lembrar esperanças desfalecidas na selva.

Ao redor de nós, a doçura dos blues, a voz ondulante de Little Box, os pares se amando pelo pensamento, nos contatos ideais, e o paraíso de Mário de Oliveira abrigando os que gostam da vida, os que amam a vida, os que sabem viver. O Acapulco é um patrimônio do Amazonas. Não poderá morrer jamais, como não morrem as coisas boas desta terra incomparável, às vezes esquecidas, mas sempre no coração do povo.  

Quando alguém estiver com uma úlcera na alma, dessas incuráveis, vá ao Acapulco. Mas vá “avec”, debruçado num sonho humano. Então, todas as dores se diluirão, na magia dessa casa acariciante, tão amazonense, tão cabocla, tão nossa...  *