CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de abril de 2016

JORGE DE MORAES (1872-1947)

Moraes foi um excelente prefeito de Manaus (1911-13), segundo os memorialistas da cidade seus
Jorge de Moares
contemporâneos. Um deles, Ildefonso Pinheiro, é o falecido autor do artigo que compõe esta postagem. A circulação deste ocorreu no centenário matutino Jornal do Commercio, edição de 6 de fevereiro de 1972. 


RECORDANDO O PASSADO

Ildefonso Pinheiro


O Dr. Jorge de Moraes foi no meu tempo de rapaz, um dos homens mais impressionantes e sedutores que conheci. O seu ser era um conjunto de beleza que se harmonizava dentro do ritmo, e da harmonia espiritual. Vestia-se elegantemente com indumentárias colhidas nos mais perfeitos figurinos parisienses e londrinos onde a casimira e as sedutoras gravatas se salientavam a impor-lhe respeito e encanto pelo gosto.
Este homem era médico; um médico muito viajado e, como tal, granjeou grande nomeada, na medicina. Foi o maior cirurgião operador da sua época. Ainda hoje existe na Beneficente Portuguesa uma sala de operação em homenagem a sua afeiçoada dedicação à medicina.

A sua cultura assombrosa fez com que os políticos da época o afastasse da medicina, levando-o para a Câmara Federal onde ele, com a sua rutilante e privilegiada oratória, fizesse-o dentro daquele recinto um representante excepcional, a exaltá-la, pelos grandes conhecimentos que era possuidor. Já na Câmara, em pouco tempo tornou-se líder entre os seus pares, pelos dotes de que era senhor e por todos os requisitos com os quais Deus o constituiu. Era um homem de luz, saber e de um poder de atração que se manifesta nas criaturas, pela criação divina.

A sua estada na Câmara não durou muito tempo porque a complexão da sua cultura e a sua expressiva facilidade de oratória, fizeram com que fosse conduzido ao Senado. A sua entrada no Senado foi triunfal, revestida de todos os galhardões com os quais um gênio privilegiado podia ser premiado. Como senador também chegou a ser um líder. Foi o mais querido e admirado por todos os colegas e pelos homens de imprensa.
Neste caminhar de ascensões e de glórias, foi indicado pelos seus pares para saudar Georges Clemenceau, presidente do conselho da França, na beleza e na sedução do idioma de Vítor Hugo, que possuía uma castidade sábia de confeccionar e harmonizar as imagens, com um brilho fascinante!

Esta saudação ainda hoje se encontra vibrante, nas antologias, a convocar a mocidade para estudá-la e senti-la na beleza do seu conteúdo.
Entre todas essas ascensões, o maior desejo de Jorge de Moraes, era ser prefeito de Manaus, para dar a sua terra o encanto e a realeza que ele havia visto e sentido nos grandes centros europeus. Assim, como homem de gosto e apaixonado pelas coisas belas, deixou o Senado e veio administrar a Prefeitura de Manaus. Como Prefeito, teve ação e ordem, no cumprimento da lei.

As saudosas recordações vivem ainda hoje na lembrança daqueles que, como Jorge de Moraes, sonham realizar obras que tenham continuadores conscientes dos deveres e do amor ao Brasil. Embelezou as ruas e cuidou da limpeza com grande carinho. Mandou vir para Manaus um carro-pipa para jogar água nas ruas, nas tardes de verão. O jardim da Catedral (antiga igreja da Matriz), mantida pela Prefeitura, tinha um belo plantio de fícus-benjamins, donde retiravam as mudas para o plantio na cidade. Ali se plantavam também uma grande variedade de rosas e de cravos.

As nossas ruas e praças tinham os seus fícus-benjamins podados por exímios podadores, dando um aspecto impressionante à cidade. O chafariz que ainda hoje se encontra na Praça Osvaldo Cruz, foi uma das suas grandes realizações. O nosso Mercado Municipal primava na limpeza e na arrumação. Tudo ali era feito com gosto e arte.

Ele encontrou a Prefeitura, na sua parte financeira, completamente desiquilibrada. Procurou manter a ordem com a lei que impõe o cumprimento do dever. Essa imposição causou celeuma entre os políticos que se escusavam de o ajudar na sua ação construtiva; pagando os impostos daquilo que era devido à Prefeitura.

Com isto, incompatibilizou-se com os seus coestaduanos. Voltou a clinicar; mas, por novas imposições políticas, voltou ao Senado em 1928. Em 1930, quando veio a revolução, perdeu o seu mandato por força da lei. Nesta data começou a sua odisseia, como se pode sentir nesta narração de Viriato Corrêa:
"No penúltimo domingo, num fim de tarde chuvoso e melancólico, numa rua de Santa Tereza, morreu o Dr. Jorge de Moraes. E morreu em completa obscuridade e em extrema pobreza.
De tudo que Deus botou neste mundo, senhores, a coisa mais feia é a vida. A gente não sabe nunca o que ela é. O homem que, na tarde daquele domingo, morreu angustiado, foi uma das criaturas mais brilhantes e mais impressionantes e mais curiosas que já passaram pelos meus olhos.
Nestes mistérios se desenvolve a existência das criaturas em sua passagem pela terra; sem uma definição sequer da vida, porque somente Deus pode defini-la.”

Até a rua onde ainda hoje existe o antigo e belo palacete que foi do Dr. Jorge de Moraes, deixou de ser Jorge de Moraes para ser Rui Barbosa.


PS. Em homenagem a este prefeito da Capital, seu nome identifica o mercado municipal no bairro de Educandos.