CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de abril de 2016

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS DA AMAZÔNIA

Em 1952, circularam as primeiras notícias sobre a criação do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Poucos sabem, mas este estabelecimento foi instalado inicialmente à rua Guilherme Moreira, quase esquina da rua Teodoreto Souto, onde em nossos dias encontram-se lojas comerciais. Eram, obviamente, precárias as instalações, ainda assim o governo foi adequando para os fins prioritários.

Arthur Reis (1964-67), o primeiro governador do Amazonas no Regime Militar, foi o primeiro dirigente do INPA. A ele coube o esforço em conseguir parte do progresso da instituição, fato que o jornal A Crítica tomou como tema de editorial, publicado na coluna Nossa Opinião, em edição de 27 de julho de 1957, postado abaixo.
Oito anos depois, fui atendido naquele endereço, enviado pelo Hospital Militar do Exército, quando recebi o diagnóstico de portador de repulsiva leishmaniose.
Em nossos dias, o instituto funciona em próprio instalado à avenida André Araújo, no entroncamento do viaduto Gilberto Mestrinho. 

 
Recorte do matutino A Crítica

FORAM inaugurados, ontem, pela manhã, no edifício em que se encontra instalado nesta cidade, à rua Guilherme Moreira, o Instituto de Pesquisa da Amazônia, vários de seus laboratórios, agora colocados em salas apropriadas, dispondo de aparelhagem técnica recém-adquirida,
O ato teve caráter solene, ainda que revestido da maior simplicidade, contando com a presença do Sr. Governador Xenofonte Antony, de representantes dos Poderes Legislativo e Judiciário do Estado, da Divisão de Manaus da SPVEA, do corpo consular, da Guarnição Federal e da Polícia Militar, e de outras autoridades e figuras do maior destaque dos nossos meios culturais, classes conservadoras etc.
Contou, também, com a presença de um representante especial para o ato até aqui enviado pelo Conselho Nacional de Pesquisas, toda a equipe de cientistas e servidores do INPA, e mais alguns cientistas que se encontram de passagem por esta capital.
Coube ao Dr. Arthur Reis, que dirige, entre nós, a respeitável entidade de cunho científico e cultural, explicar para os presentes a significação daquele ato, mostrando o que ele representa, como marco de uma nova etapa do INPA rumo aos seus objetivos pesquisadores, nos quais repousará, indiscutivelmente, daqui por diante, a continuação dos trabalhos ingentes aos que, numa labuta ora individual e ora coletiva, há três séculos, tem procurado revelar a Amazônia, suas riquezas, as imensas possibilidades do seu solo e subsolo, suas florestas, dos seus rios e dos seus recursos minerais, ao próprio resto do Brasil e ao mundo.
E, foi feliz, na verdade, o abalizado historiador e (...) conterrâneo, indiscutivelmente um dos mais credenciados amazonólogos dos nossos dias, na breve exposição que fez, deixando bem patente que o INPA, apesar dos obstáculos naturais aos empreendimentos da sua natureza, é uma realização que caminha com passos seguros para cumprir suas elevadas finalidades.
Os laboratórios agora inaugurados, realmente, dizemos nós, é uma prova bastante expressiva de que o IN PA, com a consciência de trabalho em que está estruturado, já se vai firmando solidamente para a vitoriosa realização dos seus objetivos de ciência e de cultura.
Arthur Reis, 1970
Desses objetivos, o primeiro resultado, é o aproveitamento dos próprios valores regionais, do elemento humano já categorizado ou ainda com a mentalidade em formação, como é o caso das gerações mais novas, nas equipes que, sob orientação de cientistas mais experimentados, de dentro ou de fora do Brasil, atuam nos múltiplos setores da pesquisa e do estudo em geral, nas especialidades do INPA.
Não há negar que é uma obra que só poderá ser dinamizada ao impulso de recursos materiais e técnicos; postos a serviço do amor ao trabalho e do patriotismo dos que assumem as suas diferentes responsabilidades nos seus setores. E aí se devem casar, para o trabalho ser mais completo, um profundo amor à ciência com um não menos acendrado nacionalismo, pois que a revelação dos nossos recursos naturais ao mundo, as suas possibilidades de aproveitamento em favor do progresso da região e do Brasil, nos dias que correm, cada vez mais se divorciam dos objetivos puramente literários ou mesmo científicos, de outrora, para se relacionarem com os destinos políticos da nossa nacionalidade.

Todas as grandes nações hodiernas, assim se revelam pela forma científica e técnica que fazem do aproveitamento das riquezas de que dispõe. Aproveitamento que não implica, certamente, egoísmo anti-humanitário, mas que, ao contrário, se traduz pelo desejo de se transformarem os benefícios do progresso um patrimônio em disponibilidade e ao alcance do maior número possível dos componentes da grande grei humana.

Essa a compreensão que se colhe da forma de trabalho, e no espírito que informa o INPA, agora entregue por uma excepcional coincidência, à esclarecida orientação desse verdadeiro homem de ciência e de cultura, desse amazonense patriota e digno, que é o Dr. Artur Reis.
x x x

O historiador Arthur Reis realiza, indiscutivelmente, na direção daquele serviço de larga expressão cultural e científica, a figura tão acariciada pelo idealismo inglês do “the right man in the right place”.
 Por isso mesmo, vai ele desempenhando, sem dificuldade, o seu papel de catalizador para as inteligências do nosso meio que, constantemente, vai atraindo aos setores do INPA, para integrar as suas equipes de trabalho. Basta que se assinale, em abono dessa assertiva, o que vem de suceder com o Dr. Djalma Batista.
Djalma, o consciente e incorruptível Djalma, ali já se encontra dirigindo um dos mais importantes setores do INPA. Trata-se, incontestavelmente, de uma instituição que cada dia mais se credencia no conceito público pela forma com que se prepara para o desempenho da sua grande missão.
Por isso, sentimo-nos bem em fazer aqui, entusiasticamente, o registro da sua festa de ontem.

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À guisa de informação, queremos dizer aqui que ontem, por ocasião da inauguração em apreço, tivemos ocasião de ouvir do professor Bercigle, do Laboratório de Química Inorgânica, que após reações feitas num minério oriundo do rio Jatapu, no município amazonense de Urucará, foi constatada a existência do famosíssimo “urânio”, hoje de grande procura em todo o mundo. Parte do mencionado minério, será enviado, imediatamente, ao Conselho Nacional de pesquisas, no Rio de Janeiro, onde será submetido a outros exames e reações.

Recorte de O Jornal, Manaus, 11 setembro 1952