CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de outubro de 2015

"APUNTES" PARA A HISTÓRIA DE MANAUS (2)

As fotos abaixo foram registradas em 1953, pouco antes da grandiosa enchente do século passado. Efetuadas quando o autor, o saudoso geógrafo paulista Aziz Nacib Ab'Saber esteve na capital amazonense para, obviamente, estudar a geografia local.

As legendas também lhe pertencem. Todavia, como ele não identificou os locais, tomo a iniciativa de enxergar ambas as fotos mostrando o barranco e as "palafitas" do bairro de Educandos.


Aspecto do "front" da falésia fluvial de Manaus (margem esquerda do Rio Negro).  

A fotografia focaliza uma espécie de ligeiro colo no topo da barreira fluvial de Manaus. Trata-se de um verdadeiro vale suspenso que segue a inclinação suave do reverso do tabuleiro e que foi destruído gradualmente das cabeceiras para jusante, à medida que o recuo da falésia se processou.Sobre esse pequeno acidente geomórfico, assim se referiu Pierre Gourou (1949, p. 381): "Pouco acima de Manaus, ou melhor, a algumas centenas de metros a montante de São Raimundo, observamos um fato curioso: um vale seco nasce sobre o alto da falésia da margem esquerda do rio Negro, com declive para o norte, afastando-se do rio. É uma espécie de valleuse mas invertida, pois enquanto nas "valleuses" as altitudes do vale suspenso diminuem em direção à falésia e ao mar, o declive do vale suspenso de São Raimundo tem um sentido oposto, afastando-se do rio; contudo, este vale provocou um abaixamento na borda da falésia."Na realidade, trata-se-de uma falsa valleuse, num arremedo local e ilusório daquele curioso tipo de vales suspensos da beirada superior das falésias calcáreas. Trata-se de um ótimo índice para evidenciar o extraordinário recuo do paredão da falésia, determinado pela ação de solapamento lateral do volumoso e oscilante rio Negro, na zona próxima de sua confluência com o Solimões.O perfil transversal do vale suspenso retratado demonstra que a antiga plataforma interfluvial, que separava o rio Negro do vale dos igarapés manauenses, foi solapada em mais de 2 ou 3 km para no-nordeste; daí o fato de pequenos vales de riachos afluentes dos igarapés terem restado secos e suspensos no reverso da barreira fluvial, demonstrando que o recuo homogêneo do paredão de erosão fluvial ultrapassou o divisor d'águas local da drenagem antiga.Pierre Gourou analisa bem o problema, esquecendo-se tão somente de anotar o papel das gigantescas oscilações do nível do rio Negro, que ampliam razoavelmente a capacidade da erosão fluvial lateral, e a natureza relativamente friável dos depósitos arenosos pliocênicos do tabuleiro de Manaus, extremamente sensíveis ao solapamento fluvial marginal.
Enquanto a escultura pluvial e secundariamente fluvial das camadas sub-horizontais arenosas do tabuleiro se faz através um modelado suave e tabuliforme, devido à porosidade elevada das formações sedimentares regionais, o entalhamento fluvial lateral, ligado à correnteza maciça e oscilante do rio Negro, contrasta sobremaneira com a morfologia do modelado continental.Alinhadas na praia de estiagem da base do Paredão fluvial situam-se centenas de habitações palafíticas, que durante alguns meses ficam inteiramente à seco e durante os meses das cheias restam isoladas pelas águas, tendo como quintal o talude íngreme da falésia fluvial. No reverso do Paredão abrupto, iniciam-se os quarteirões compactos dos bairros modestos da cidade de Manaus, os quais constituem um dos blocos residenciais do organismo, separados do centro da cidade pela trama dos igarapés.



Pormenores dos "chalés" palafíticos da praia de Manaus  
Trata-se de habitações construídas sobre delgadas e resistentes estacas. Na frente das habitações, a altura das estacas varia entre 2,5 e 3,5m, enquanto, que se reduz para 0,50 a 1,5m nos fundos das mesmas.
Os chalés palafíticos têm a melhor aparência possível na categoria de casas de madeiras ribeirinhas, tanto no que se refere às linhas simples e agradáveis de sua fachada, quanto, ao seu arranjo e higiene interior e estado de conservação geral.
Trata-se mesmo de um pitoresco conjunto de construções de madeiras, excepcionalmente bem construídas e limpas. O espaçamento lateral que as separa é da ordem de 2 a 3m. Algumas dessas moradias pertencem a famílias de pescadores ou trabalhadores do rio ou dos cais, enquanto um grande número delas é ocupada pelo pequeno comércio de interesse da zona ribeirinha: mercearias, armazéns, botequins e rústicos restaurantes eventuais. Em muitos pontos, o paredão da falésia que dá para os fundos das habitações apresenta íngremes trilhas de acesso ao alto reverso da barreira fluvial, onde existem outros tantos bairros pobres ou modestos da cidade de Manaus.
Exceção feita da ausência da base palafítica, as moradias dos altos pouco diferem das que situam na praia, quer pelo material de construção, como pelo arranjo, limpeza e boa aparência. Durante as grandes cheias, o nível das águas sobe até próximo à base dos "chalés" palafíticos: por essa época, canoas e pequenos barcos podem aportar em qualquer uma das habitações, que temporariamente ficam transformadas em verdadeiros cais domésticos.