CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

11 de novembro de 2014

NOTAS SOBRE CANUDOS




Esta publicação ocorreu no jornal Amazonas Em Tempo, em 6 de agosto, na temporada do centenário deste conflito nacional, em 1997. Reproduzo o texto, com pequenos reparos, rememorando a data (8 nov.) do retorno da tropa do Amazonas que avançou contra os adeptos de Antonio Conselheiro.

Ilustração da matéria do jornal


Este episódio está sendo narrado em livro — Cândido Mariano & Canudos — do coronel PM Roberto Mendonça que será lançado, em setembro, pela Editora da Universidade do Amazonas. O autor traça a biografia de Cândido José Mariano, tenente de engenheiros, que veio para Manaus comandar o 1º batalhão da Polícia Militar, em 1896, um ano antes do conflito. Mendonça descreve a trajetória do batalhão amazonense, para combater os camponeses liderados por Antonio Mendes Maciel, o Conselheiro, com um rico material de pesquisa, desde Manaus até Monte Belo. A seguir, os primeiros preparativos da longa marcha.

1º de agosto de 1897
Nessa data, o governador do Amazonas — Fileto Pires Ferreira, tenente de engenheiros —, decide enviar a força policial amazonense em auxílio ao Exército, para combater em Canudos. Campanha de Canudos, assim ficou conhecido o ataque das forças militares contra o reduto de Antonio Conselheiro, seu líder místico.
Em pleno domingo, foi convocado à sede do governo (atual da Prefeitura), situada na Praça Dom Pedro II, o coronel (comissionado) Pedro Henrique Cordeiro Júnior, comandante do Regimento Militar do Estado. Jovem capitão do Exército, que nesta cidade deixou respeitável descendência, tendo sido deputado estadual, além de presidente da Junta Governativa, em 1930.
Foi escolhido o 1º batalhão, a despeito do encargo caber ao 2°, devido, acredito, à precedência hierárquica do tenente-coronel Cândido José Mariano, seu comandante. E, por uma razão afetiva, Mariano havia casado no dia 22 de maio, portanto, estava em plena lua-de-mel. As providências imediatas foram obter meios de locomoção, visto que o transporte de guerra se encontrava em Belém. Depois, organizar o material bélico para a tropa; do entendimento desta com seus familiares; dos cuidados judiciais em decorrência do afastamento, e até com o falecimento, visto tratar-se de uma guerra declarada.
A providência saudável foi a entrega pelo governo de 40 contos de réis ao comando da tropa, para as despesas com a mesma. Este valor corresponde hoje, segundo cálculos de especialistas, a U$ 102,000 (cento e dois mil dólares). Tratou-se, portanto, de uma importância de relativo valor à disposição do comando. Quando em Canudos, viu-se que havia bastante dinheiro, porém pouca, ou quase nenhuma, comida!
Este valor não deve surpreender. Na época o Amazonas já desfrutava do saudoso do tempo áureo da borracha (1890-1920). A propósito, foi a riqueza proporcionada pela extração gomífera, que muito contribuiu para o deslocamento de tropa tão distante. Seria mais plausível, que efetivos de polícias nordestinas na fronteira do conflito tivessem participado. Tal não aconteceu.
Com o Exército contribuíram o Amazonas e o Pará, ambos em soberba situação financeira; a Bahia, por abrigar a luta fratricida, e São Paulo, que já despontava como Estado vanguardeiro do país. As tropas paulistas e paraense partiram no dia 1º de agosto. O Amazonas não embarcou nessa data por deficiência de transporte, somente o fazendo, como veremos, no dia 4 (quarta-feira). (segue)