CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, junho 16, 2025

CÂNDIDO MARIANO: PATRONO DA ROCAM

 Volto a operar nos arquivos da corporação policial militar em busca de  embasamentos para sua história. Assim, revirando meus arquivos, encontrei a peça que vai postada, de autoria do jornalista Evaldo Ferreira, que a elaborou para o jornal Amazonas em Tempo (23 maio 2010), sobre Cândido Mariano, contando com auxílio. 

Amazonas em Tempo, 23 maio 2010

quarta-feira, novembro 08, 2017

RETORNO DE CANUDOS: 120 ANOS

Capa do livro em 2ª edição
Em 5 de outubro passado, o fim das hostilidades em Canudos, aquele pedaço de terra à margem do rio Vaza-Barris, na Bahia, completou doze décadas. Para melhor compreender: naquele chão o beato Antônio Conselheiro tentou implantar seu “império” do Belo Monte. 

E, para soterrar este modesto devaneio, plantado nos ínvios sertões baianos, todavia foram necessárias quatro expedições militares. 
Enfim, nesse episódio, conhecido na história pátria por Guerra ou Campanha de Canudos (1896-97), morreram, estima-se, 25 mil brasileiros.


Na Quarta Expedição, engajou-se o 1º Batalhão do Regimento Militar do Estado do Amazonas, sob o comando do tenente-coronel Cândido Mariano (oficial do Exército). Constituiu a última tropa a ingressar no campo de lutas. Ao regressar, desembarcou em Manaus a 8 de novembro. Esta data por decreto governamental se tornou festiva, reservada a premiar policiais militares e civis com a medalha que leva o nome deste comandante.

Duas conversas realizadas nesses dias com membros da corporação, inquietaram-me. Ambas realizadas com oficiais: um oficial superior e um subalterno. Dois temas perpassaram as conversas, duvidar da presença da tropa da PM na luta e o desagrado com a extrema força militar empregada contra aqueles sertanejos. Ou seja, a Polícia Militar do Amazonas integrou uma forma desagregadora, punitiva, portanto, sem mérito a relembrar.

Desse entendimento, quem sabe, resulte o esquecimento do comando da PMAM em programar a festividade militar. A propósito, empenhei-me em lançar a 2ª edição de meu livro Cândido Mariano & Canudos, nessa data. Não consegui realizar a de maneira impressa, optei pela forma virtual.

De volta a conversa com os colegas. Disse-lhes basicamente que, para compreender aquele episódio fratricida, é necessário ter conhecimentos da época. Em outras palavras, não se deve avaliar aquele acontecimento com a visão hodierna.

E disse mais. O extermínio de Canudos não cabe exclusivamente as forças militares a responsabilidade. Estão bem identificados outros responsáveis pela evolução daquela campanha, inclusive a igreja católica. São políticos, imprensa, judiciário e o isolamento de Canudos. Menos o Conselheiro.


Desse modo, a PM do Amazonas não deve se omitir, inferiorizar-se porque no devido tempo, teve condições e ímpeto em socorrer o Governo Federal, apoiar a Força Terrestre. A data festiva não se destina a vangloriar-se do feito, porém recordar o sacrifício de tantos policiais que se empenharam na solução da Guerra do fim do mundo, no definição de Vargas Llosa. De tantos policiais que se empenham no dia-a-dia da segurança da cidade e de seus habitantes. 

sexta-feira, setembro 15, 2017

CANUDOS: 120 ANOS


Mural existente no Palacete Provincial,
antigo quartel da Praça da Polícia 
No próximo mês, o final da Campanha de Canudos completa 120 anos. Algum movimento no sentido de relembrar a luta fratricida nos sertões baianos pode ocorrer em Manaus. De minha parte, que muito me empenhei quando do centenário, tenho pronto a 2ª edição de meu livro Cândido Mariano & Canudos, que a Editora da Ufam (Edua) então publicou.

Para esta nova edição, escrevi um P.S. (post scriptum) desejando complementar as informações passadas ao leitor do original. A fim de dar partida a tradição da efeméride, reproduzo este texto.

P.S.

Escrevi a 1ª edição deste trabalho embevecido pelas conquistas próprias no trânsito de minhas pesquisas e na antecipação do centenário de Canudos. Cada vez mais empolgado pelas leituras consumadas, assim como pelas conversas com os aficionados pelo funesto acontecimento, cheguei a rascunhar o seguinte título para o livro: “A gloriosa epopeia da PMAM em Canudos”. Evoluiu, pouco adiante, para “Candido Mariano, o herói da PMAM em Canudos”. Ainda bem que uma “consultora” me advertiu do burlesco. Pois... como resume de maneira primorosa Consuelo Novais Sampaio (org.), em Canudos: Cartas para o Barão (São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999),

“A Guerra de Canudos não foi apenas mais um capítulo da história do Brasil. Ela revela com precisão a grande distância que, neste país, sempre separou – e no limiar do século XXI, ainda separa – o “povo miúdo”, a população pobre e miserável, das classes dominantes. Em todos os níveis de tomada de decisão, o movimento conselheirista foi manipulado para a satisfação de interesses pessoais e de grupos políticos em luta pelo poder”.

São passados 20 anos desde o lançamento de meu Cândido Mariano & Canudos (Manaus: Edua, 1997) que serviu, entre outros empregos, para compartilhar o centenário de Canudos em Manaus. Festividade que foi patroneada pela extinta Fundação Djalma Batista, dirigida pelo Professor José Seráfico, que volta nesta edição a emprestar seu apego aos movimentos culturais e sociais, com sua palavra culta e diplomática.

Passadas duas décadas, reformulei meus conceitos (desculpe o leitor o chavão) sobre Canudos e seus personagens. Nesse lapso, quase olvidei ao comandante Cândido Mariano, que espero ainda esteja sepultado no cemitério São João Batista carioca. Outra iniciativa: repassei quase uma centena de livros adquiridos sobre o tema para a Universidade Estadual de Pernambuco – Campus Petrolina, ao tempo da gerência do Professor Ms. Moisés Almeida.

Da Polícia Militar do Amazonas, no entanto, não descurei, por uma singular motivação: anualmente, em 8 de novembro, esta corporação perfila-se para relembrar a campanha de Cândido Mariano e dos policiais amazonenses em Canudos. Estou convencido de que se trata da única Força Estadual (as demais participantes dessa refrega são a do Pará, da Bahia e de São Paulo) no país a renovar ciclicamente as acerbas lições canudenses. 
Produção do Governo
para lembrar Canudos

A fidelização corporativa me impulsionou a elaborar esta nova edição com a indispensável revisão ortográfica e com o acréscimo de substancial material literário elaborado por Cândido José Mariano, e difundido quando de sua atuação na prefeitura de Sena Madureira (AC). Enfim, há cinco anos, elaborei o folheto Canudos em Quatro Tempos: a participação da tropa da Polícia Militar do Amazonas na Campanha de Canudos, 1897 (Manaus: s/ed., 2012)) para relembrar a efeméride festiva de novembro.

Vivemos novos tempos, sei. O correr do relógio me ensinou, e me levou a percorrer novos caminhos para alcançar o desfecho de Canudos. Acredito ter assimilado as lições, porém, uma questão ainda me inquieta: onde posso encontrar os nomes dos policiais integrantes do Batalhão de Cândido Mariano? Lamentavelmente, mexidas e mais mexidas operadas no extinto Quartel da Praça da Polícia espalharam por estranhos departamentos estaduais os registros históricos. Todavia, eu prometo: ainda os alcançarei.


No mais, o tão estudado tema Canudos passa por uma temporada de baixa estação. Oxalá o sesquicentenário, ainda bem distante (em 2047), traga novidades e inovados subsídios. Contudo, diante dessa longínqua distância cronológica, lego com este trabalho minha contribuição.

quarta-feira, novembro 23, 2016

CANUDOS: RETORNO DA PMAM

Quartel da Praça da Polícia, 1950
O calendário festivo da Polícia Militar do Amazonas soleniza, a cada ano, o dia 8 de novembro, quando ocorreu o retorno de sua tropa da Campanha de Canudos. São passados 119 anos daquela refrega fratricida.
Neste mês, o evento foi lembrado no dia 11, quando o comando-geral, além de reverenciar o Patrono da corporação, outorgou a Medalha Cândido Mariano a diversas autoridades civis e militares.
Na ocasião, como de praxe, foi lida a Ordem do Dia, assinada pelo comandante-geral da PMAM - coronel PM Augusto Sergio Farias Pereira, abaixo transcrita.

ORDEM DO DIA
ALUSIVA AO RETORNO DA TROPA
DA CAMPANHA DE CANUDOS

Prezados senhores,

É com honradez e dever de reconhecimento que a Polícia Militar do Estado do Amazonas relembra, nesta solenidade militar, o retorno vitorioso e emocionante do contingente Policial Militar que combateu na Guerra de Canudos, o movimento liderado por Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido popularmente como "Antônio Conselheiro".

O movimento de caráter político-religioso iniciou-se na localidade conhecida por Canudos, entre 1896 e 1897, pelo fato da população local estar insatisfeita com a autorização do governador, para cobranças de impostos aos habitantes do interior do Estado da Bahia. A mobilização chegou a abranger diversas localidades, repercutindo nacionalmente e preocupando os governantes, o que levou a uma reação enérgica por parte do governo da época. O fato é muito bem retratado no livro denominado Os Sertões, de autoria de Euclides da Cunha.

"Antônio Conselheiro" juntamente com seus seguidores deslocaram-se para o interior da Bahia e, no município de Bom Jesus, às margens do Rio Vaza-Barris, criaram a Comunidade Revolucionária de Canudos, como uma das ideias do líder era de emancipação, logo o movimento repercutiu em todo o Estado da Bahia.

As Forças Federalistas enfrentavam incomensuráveis dificuldades para derrotar os inimigos da Nação. Após as três primeiras expedições terem sido derrotadas sumariamente, o Governador do Estado do Amazonas, à época, Fileto Pires-Ferreira, atendeu à convocação do Governo Federal e determinou sob o comando do tenente-coronel Cândido Mariano o envio de um contingente policial militar da Força Pública Estadual, denominado de Batalhão Amazonas. Composto por 24 oficiais e 249 praças, partiu de Manaus em 4 de agosto daquele ano, no vapor Botelho rumo à Belém e, posteriormente, no vaso de guerra Carlos Gomes, até os Estados do Maranhão e Pernambuco, alcançando seu destino, Salvador, no dia 24 do mesmo mês.

No combate, a tropa amazonense destacou-se a partir de setembro e conquistou várias frentes sob o comando do coronel José Sotero de Menezes, do Corpo Policial do Estado do Pará, que, de forma conjunta com as milícias do Pará e de São Paulo, empunharam as armas e conquistaram um ponto estratégico: a estrada Uauá-Canudos, fechando assim o sítio da Troia Jagunça.

De 24 de setembro a 1º de outubro, a tropa do Amazonas enfrentaria diversos combates estreitando cada vez mais o cerco ao arraial e, finalmente, tomando o reduto defensivo das igrejas Nova e Velha, bem como grande número de casas do oponente, em "horrível combate corpo-a-corpo".

Do resultado das lutas sangrentas no sertão baiano, morreram: um oficial do posto de capitão; e 12 praças, 23 praças ficaram feridos e 15 desaparecidos. Em 8 de outubro de 1897, finalmente, a Campanha foi encerrada e o Batalhão Amazonas desembarcou, em 8 de novembro de 1897, vitorioso na capital amazonense, sendo recebido na Praça da Polícia, de braços abertos com ímpar satisfação popular, em uma das mais belas aclamações públicas registradas na história do nosso Estado.

Passados 119 anos, a Campanha de Canudos não representa apenas um acontecimento vitorioso da Polícia Militar do Amazonas, e sim, uma demonstração de coragem, disciplina e heroísmo dos nossos antepassados, o quais refluem com obstinada determinação.

Atualmente o espírito dos pioneiros permanecem nas ações desenvolvidas nos mais longínquos rincões do Amazonas e da Pátria, através de contingentes hipotecados à Força Nacional de Segurança Pública, preservando a Ordem Pública durante os Jogos Olímpicos no Brasil, bem como efetivo ombreado nas Forças de Paz da Organizações das Nações Unidas (ONU) — destacadamente as missões de paz no Haiti e na Guiné-Bissau. Continuamos deixando viva em nossa memória a lembrança de que a grandeza desta instituição também foi feita com o sangue daqueles que, envergando sua farda, tombaram defendendo seus valores e seu pavilhão, exemplos esses que nunca serão esquecidos, mas, sim, irradiados dentro da Instituição Policial Militar.

Neste momento solene, paira o espírito de gratidão à Deus, o excelso criador do Universo, quando relembramos os feitos do herói e Patrono da Polícia Militar do Amazonas, tenente-coronel Cândido Mariano, bem como dos 273 aguerridos policiais empenhados nessa singular incumbência, onde suas virtudes são tomadas como molde e inspiração para os nossos Policiais Militares.

Rogamos ao nosso Deus para que nos conceda PACIÊNCIA, COMPREENSÃO, HARMONIA e UNIÃO para que assim possamos proporcionar a segurança almejada pela sociedade amazonense!

Pela paz!
Pela ordem!
Sempre atentos!
Soldados da Polícia Militar!




domingo, outubro 23, 2016

DISCURSO DE POSSE (2)

Quadro da Princesa Isabel,
do acervo IGHA
Terceira parte do meu discurso de posse ao ingressar no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, em 4 de novembro de 1994.

DE ONDE VENHO E PARA ONDE VOU

Venho do Seminário São José, quando ainda situado na rua Emílio Moreira, nº 6
01, bairro da Praça 14 de Janeiro, onde obtive consolidada formação humanista e religiosa. Desta, resulta meus intensos agradecimentos à Deus por este ato de bondade de Vossas Excelências, que me consentiu ocupar a Cadeira 24, patronada por Frei Gaspar da Madre de Deus.

Do meu antecessor, Dom João de Souza Lima, tive o privilégio de, na condição de seminarista menor, acolitá-lo nas solenes festas religiosas em nossa secular Catedral e outros templos, como na sagração da Igreja de São José Operário, dos padres salesianos, no entroncamento das ruas Visconde de Porto Alegre com Ramos Ferreira.

Aproximo-me deste sodalício, vindo do Quartel da antiga Praça da Constituição, local onde se perfilou em 8 de novembro de 1897, o 1º Batalhão do Regimento Militar do Estado, comandado pelo tenente-coronel Candido José Mariano, combatente distinguido na Campanha de Canudos, cujo centenário já estremece a Nação por força da obra imortal de Euclides da Cunha - Os Sertões.

Acerca do comandante Candido Mariano, venho arregimentando recursos para muito breve editar uma biografia do herói de muitas campanhas, além de participante da fundação de Sena Madureira, no estado do Acre.

Procedo ainda do outrora quartel do Canto do Quintela, onde se aprestava o Corpo de Bombeiros de Manaus. Em nossos dias, transmudado em sede do Museu do Homem do Norte. Oh! tempos difíceis, tempos heroicos. Melhor dizer, tempos oportunos para que os bombeiros demonstrassem toda a dedicação pela Cidade e o desprendimento para enfrentar o perigo. Ali compreendi os objetivos primordiais deste serviço, aprendi a servir com devotamento, acreditando que cada singela tarefa, executada por um simples camarada, traz benefício coletivo. Assimilei, senhor comandante do Corpo de Bombeiros, que o heroísmo escolta cada comboio, em cada chamada, a mais rotineira possível.

Ingresso na Casa de Bernardo Ramos com modesto trabalho literário dado a lume, todo ele volvido à divulgação da história da Polícia Militar do Amazonas, instituição criada ainda no período imperial que, desde 4 de abril de 1837, presta segurança à sociedade amazonense. Corporação, entretanto, que foi capaz de abrigar homens de diversas virtudes. Os fatos revolucionários, dos quais teve participação coerente, talvez prestem às reminiscências uma revelação com tal miopia, com certa visão disforme.

A instituição da segurança estadual abrigou alguns membros deste sodalício: Ramayana de Chevalier, coronel médico, escritor de méritos, jornalista de nome nacional; Octavio Sarmento, tenente-coronel comandante interino em 1920, fundador e membro da Academia Amazonense de Letras; Álvaro Botelho Maia que, ao regressar a Manaus, graduado em Direito, exerceu a função de Juiz Auditor de Guerra, com o posto de capitão, e cuja biografia dispensa maiores comentários; Djalma Batista, intelectual de nomeada, serviu temporariamente no posto de capitão médico da Policia Militar, quando do comando do coronel Gentil João Barbato (1941-45); Gonzaga Tavares Pinheiro, aposentado coronel, que em 1932, ainda capitão, era prefeito nomeado de Itacoatiara, onde protagonizou a célebre disputa contra as forças rebeldes vindas de Óbidos (PA), pugna conhecida nos compêndios regionais como "Batalha Naval de Itacoatiara"; Djalma Vieira Passos, oficial superior da PMAM, igualmente intelectual de recursos, com várias publicações editadas e comprovado efetivo desempenho seja na Assembleia Legislativa do Estado seja na Câmara Baixa do país.

Assumo a Poltrona 24 rememorando a escola inspiradora de meu hábito pelos livros - o Seminário São José de Manaus, orientado pelos padres diocesanos, enquanto lá estudei. Homenageio a este estabelecimento, recordando dois de seus Reitores: ao Padre Jorge de Andrade Normando, de tradicional família amazonense, que vive atualmente em Belém do Pará, servindo a comunidade, como auxiliar da paróquia de Santo Antonio de Lisboa. É-me igualmente justo recordar ao padre Antonio Juarez de Moura Maia, na condição de ecônomo por longos anos, a quem devo inúmeras provas de amizade, capazes de me conduzir pelas sendas da cidadania e da dignidade. Reverencio a este aqui e agora, na pessoa de seu representante, o tenente-coronel Raimundo Pereira da Encarnação, por esta oração. A propósito, padre Juarez Maia acaba de ser agraciado com o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, cidade onde reside e exerce seu múnus sacerdotal.

Quero assumir neste instante solene um compromisso para com a Casa de Ensino mais antiga do Estado, o Seminário São José. À proximidade de seu sesquicentenário, porquanto fundado pelo bispo do Pará - Dom José Afonso de Moraes Torres, em 18 de maio de 1848. Neste estabelecimento, entre 1956 e 1965, tive o ensejo de caminhar pelas letras e pelos clássicos nacionais, igualmente pelo verbo do autor de Aparição do Clown, padre Luiz Ruas, poeta laureado que, vitimado por acidente vascular cerebral, se conforta com as orações de seus ex-discípulos e fieis paroquianos, como agora em que aproveito para rogar ao Altíssimo por sua recuperação.

Escrever a História do Seminário São José constitui-se, pois, um compromisso sagrado que estabeleço com a arquidiocese de Manaus, no instante em que assumo a Poltrona 24, ontem ocupada por Dom João de Souza Lima, a quem solicito o devido entusiasmo para meu melhor desempenho. Que Deus, igualmente, me ilumine!

APELO

Suplico aos presentes para que não se assustem com o estado das instalações, nem imaginem descaso para com a edificação, pois, conheço a dedicação do Senhor Presidente e do Secretário-Geral, Dr. Gera1do dos Anjos, na busca incessante por uma solução para o problema. Apelo, enfim, às autoridades: concedam uma, mais uma ajuda a este Instituto. Para que sirva assim de atração aos jovens estudantes da cidade de Manaus, cuja presença efetiva possibilite a renovação de seus quadros.

AGRADECIMENTOS

Enfim, senhores acadêmicos, meu sincero agradecimento pela acolhida singela a este garimpeiro dos arquivos regionais, que opera com a sofreguidão de quem parece ter partido com atraso. Sou grato particularmente ao autor de Gazeta do Purus que, ao relatar a fundação e o fausto da “Princesinha do Iaco”, me ensinou a admirá-la e me fez aprofundar nos encantos acreanos. Ao Dr. Antonio Loureiro, a minha continência regulamentar.

Na pessoa do comandante-geral – sou reconhecido à Polícia Militar do Amazonas, fonte de inspiração e tema de meus relatos, cuja saga, cuja história prometo divulgar. Este será meu propósito na Casa de Bernardo Ramos. Que todos saibam que, onde se encontrar um policial militar, no ponto mais isolado do território amazonense, ali certamente se escreve um conto de heroísmo e abnegação.

O derradeiro agradecimento (pela ordem de nobreza) vai para o peruano de Caballococha - Manuel Mendonça Malafaya, fundador da dinastia proletário dos Mendonça. Vindo de Iquitos para Manaus, sabe Deus como!, acreditando topar com o Eldorado, serviu por décadas na firma J. G. Araújo & Cia. Ltda. Apenas alfabetizado, confiou-me que a educação sempre foi o caminho altaneiro para o sucesso. Em razão dessa premissa, obrigou-me a estudar com afinco, prometendo por prêmio a vitória como a que acabo de alcançar. A ele dedico com ardor filial esta noite.

Repito como ocorria, ao final de cada discurso no Seminário São José:
Deo gratias (graças a Deus)!

Manaus, 4 de novembro de 1994.

Roberto Mendonça
 

quarta-feira, novembro 12, 2014

NOTAS SOBRE CANUDOS | 2




Esta publicação ocorreu no jornal Amazonas Em Tempo, na temporada do centenário deste conflito nacional, em 1997. Reproduzo o texto, com pequenos reparos, rememorando a data (8 nov.) do retorno da tropa do Amazonas que avançou contra os adeptos de Antonio Conselheiro. 

 
Memorial Antonio Conselheiro Canudos-BA

Este episódio está sendo narrado em livro — Cândido Mariano & Canudos — do coronel PM Roberto Mendonça que será lançado, em setembro, pela Editora da Universidade do Amazonas. O autor traça a biografia de Cândido José Mariano, tenente de engenheiros, que veio para Manaus comandar o 1º batalhão da Polícia Militar, em 1896, um ano antes do conflito. Mendonça descreve a trajetória do batalhão amazonense, para combater os camponeses liderados por Antonio Mendes Maciel, o Conselheiro, com um rico material de pesquisa, desde Manaus até Monte Belo. A seguir, os primeiros preparativos da longa marcha.
4 de agosto de 1897
Na manhã deste dia, embarcou o 1º batalhão para combater em Canudos. A escala inicial foi em Belém do Pará, para tomar o transporte de guerra Carlos Gomes. "Assim, a tropa, sob o comando do tenente-coronel Cândido Mariano, desfilou com garbo desde a Praça D. Pedro II, antigo Largo do Quartel, já remodelada pelo Pensador, onde assisti, em 1897, a partida das tropas amazonenses para Canudos", conforme testemunhou o mestre Agnelo Bittencourt.
O monumental roadway de Manaus ainda era projeto, pois foi inaugurado anos depois. Em razão disso, a tropa utilizou o Trapiche 15 de Novembro, onde o embarque era realizado por meio de barcos menores, pois os navios permaneciam ao largo, por falta de ancoradouro.
Imagine-se a forte presença da população, devido ao inusitado acontecimento da saída de amazonenses para a guerra. As notícias sobre o desfecho das lutas em Canudos fervilhavam no país, especialmente depois da derrota da 3ª expedição, sob o comando do coronel Moreira César (alcunhado de corta-cabeças). Imagine-se os familiares dos combatentes — mulheres e filhos, parentes e amigos, além dos inevitáveis curiosos na despedida entrecortada de lágrimas, lastimosa por tudo, devido a incerteza do retorno.
O vapor Botelho — barco regional de propriedade da Casa A. Bernaud & Cia., finalmente desatracou e partiu, levando a esperança da pátria, deixando, no entanto, a incerteza do retorno de tantos filhos. Deve ter sido um dia tenebroso para a cidade de Manaus.
No Botelho embarcaram 12 oficiais (contados dois civis, assim comissionados: capitão Rafael Machado e tenente Demétrio Melo de Oliveira), entre os quais o tenente Emídio Bayma (ainda com descendentes em Manaus), mestre da Banda de Música.
O comandante da tropa era o tenente-coronel (em comissão) Cândido José Mariano, jovem de 27 anos, nascido na cidade de Alfenas (MG). Na verdade, engenheiro militar do Exército por conclusão do curso na então Escola Superior de Guerra. Na Escola Militar fora contemporâneo de alguns brilhantes colegas, convém assinalar o nome de Euclides da Cunha que, na questão conselherista, teria marcante desempenho com seu livro Os Sertões.
Mariano viera do Distrito Federal (Rio) para Manaus, em setembro de 1896, a convite do governador Fileto Pires, para comandar um dos batalhões da Polícia Militar.
Embarcaram no Botelho 249 praças, incluídos 12 músicos, sem que o arquivo da Corporação possua os nomes destes comandados. Alguns poucos nomes resistiram a esta incúria. São desconhecidos em sua totalidade. Os músicos constituíam parte substancial da Banda policial, daí os diversos elogios registrados quando tocaram a música. Todavia, pode se perguntar: para que instrumento musical na guerra? Era praxe, para estimular e coordenar os combatentes na luta e, na folga, proporcionar o necessário relaxamento.
Outro fato que convém sublinhar, é a presença de um número avantajado de nordestinos na tropa. A proporção de arigós na Polícia Militar de então estava em torno de setenta por cento. Ou seja, em dez policiais, apenas três eram amazonenses.
Na madrugada de 5 de agosto, o vapor Botelho atracou em Itacoatiara. Em plena madrugada, o comandante da tropa dirigiu-se à residência do alferes Floriano Lins que, naquela cidade, convalescia, juntamente com outros praças. Narra o cronista da época que o alferes ao perceber o convite de seu comandante, vestiu-se num ápice, afivelou o cinturão, entrouxou alguma roupa, e despedindo-se da família seguiu para bordo. Outros anônimos praças devem ter copiado o gesto deste oficial.
A convalescência em Itacoatiara fundamentava-se na conduta médica do final do século, aquela que prescrevia o afastamento do doente da cidade para tomar novos ares no interior. Este fundamento médico perdurou por longos anos. E, por essa razão, o governador Silvério Nery (1900-1904) construiu naquela cidade um Sanatório Militar, para atender aos policiais. Construído em madeira, existiu onde hoje se encontra a direção dos serviços de águas e esgotos, ao lado da Matriz, segundo informa Francisco Gomes, competente estudioso dos fatos históricos da Velha Serpa.
No final deste dia, o barco e tropa chegaram a Parintins, onde aconteceram manifestações de ocasião. Prosseguiu a viagem, tocando no dia seguinte, em Santarém, já em território paraense. Mas, devido as dificuldades próprias da navegação regional, o Botelho chegou a Belém na manhã de domingo – dia 8.