CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

1 de novembro de 2014

DIA DE FINADOS


Inscrição no túmulo dos Mendoza



A obrigação de visitar o cemitério para reverenciar os mortos, os nossos mortos, aprendi com meu pai. Este mesmo pai que será hoje visitado para a nossa primeira conversa silenciosa,quando, em sussurros, contar-lhe-ei (fica mais poético) meus desastres e meus acertos, desde que ele “atravessou o rio Negro”. 
 
Meu pai – seu Manoel – viveu 97 anos. E o cuidado que ele dispensava as sepulturas da família era exemplar. Disse sepulturas porque a família dispõe de uma em São João e outra, em São Francisco. Aqui o sepultei em maio passado, ao lado de sua segunda esposa, nossa querida Dona (Dora). Depois de alguns anos, eles se reencontraram para a eternidade. 

No São João, o elenco dos sepultados na quadra 17 é bem maior. Começou em 1940 com o sepultamento de Adelaide Pereira, avó de muitos netos; depois foi minha mãe, em 1953; seguida de uma tia e da avó paterna Victoria Malafaya. Enfim, mas não o fim, há oito anos, foi a vez do meu filho Roberto.
Lousa do túmulo, em construção
O dia nos fornece motivos para essas considerações, que vem acompanhadas de inevitáveis recordações, que nos permitem recolocar os entes queridos um pouco ao nosso recato. Alivia de certa maneira a distância que nos mortifica.

Escolhi um texto do saudoso Arthur Reis para ilustrar esta postagem. Também ele se ocupou em relembrar três homens que construíram o Amazonas e, lamentavelmente, encontram-se no limbo da recordação de tantos.

OS QUE NÃO MORREM NA GRATIDÃO DOS AMAZÔNIDAS (*)

São três nomes grandes da história do Amazonas que se recordam nesta página de Saudade. Eduardo Gonçalves Ribeiro, Sant'ana Nery e Comendador Clementino.
Aquele é o Pensador. Manaus é criação dele. Antes da ação dinâmica, ciclópica por que se assinalou no mando, o que havia aqui era tosco. Manaus dava ares de burgo. Os homens do Império nada tinham realizado. Nada ou pouco. Se duvidam consultem os aspectos velhos, leiam as palavras dos viajantes, alarmados todos com o quadro que enxergavam.

Pensador fez tudo. Imaginou e executou.

E' verdade que errou. Talvez grandes, enormes, imperdoáveis erros. Um deles, o maior, o mais grave, foi o pouco caso pelo futuro econômico. As rendas cresciam, avolumando-se espantosamente, sem que se visse a medida governativa que as impulsionavam, que lhes davam vida. Era tudo naturalmente. O ouro negro operava o milagre. Não é mentira o que se afirma aqui. Há provas.

A palavra do Pensador não será bastante? Ele escreveu uma confissão franca, que as arcas se enchiam, sem as atenções diretas do oficialismo.
Pensador, como Lobo d'Almada, foi uma vítima do seu grandioso querer pelo Amazonas. Ambos, em prodígios, construindo, zelando, civilizando. Ambos cobertos da maledicência dos incapazes, dos inimigos de todo homem que tem ideias, defende-as e as realiza alheio à ação peçonhenta desses malvados. Ontem como hoje, como agora, frisemos.

Sant'ana Nery, não é o Barão que o império, formando ao lado do servilíssimo corpo de fidalgos improvisados, sem tradições. O Amazonas não o conhece nessas vestes canhestras e insignificantes.

A homenagem é ao revelador de uma grandeza. E' ao escritor, ao estilista, sabedor imenso do País das Amazonas, de Folklore Bresilien, de Le Bresil em 1889, aquede primeiro livro fundamental, em que reuniu todo o conhecimento das nossas coisas, água e terra, flora, fauna, o homem de cá ou de fora amansando a jungia amansando a jângal formidável. Livro em que se conta o passado, mostra ao globo, em quatro idiomas, e maravilhoso do vale, sem a fantasia dos poetas, dos romancistas, sem a ciência improvisada de certos amazonôlogos de livros europeus.

Três séculos antes, fora um jesuíta, frei Gaspar de Carvajal, numa crônica fantástica, farta em trechos sensacionais que dissera, além-mar, do gigantesco deste mando em formação. E por tal modo, que desassossegara espíritos, manietara governos, provocando a cobiça do gaulês.

O frade dizia do quadro verde, da selva virgem. Com os excessos que a sua imaginação ardente lhe ditou, encantado. Vendo mulheres em guerra, novas Amazonas, valentes, heroicas, dominadoras, formando o império que, no lendário ameríndio, seria o El Dorado faiscante.

Sant'ana Nery, embora dominado pelos encantamentos da gleba, mas um forte sobre as emoções perturbadoras, com o senso da realidade, segredo que poucos sabem guardar, não mentiu. O País das Amazonas, surpreendendo muita vez pela exatidão dos conceitos, da notícia que se lê, lançou-nos. Apontou-nos. Entregou-nos ao estudo detalhado de povos servidos pela experiência de punhados de séculos.

Antes de Barão, que nada significa para nós, Sant'ana Nery foi, insistamos, o revelador do Amazonas, que o outro, Pensador, levantara cheio de amor. Sábio e artista. Das maiores cabeças nacionais, ao seu tempo, e ainda hoje.

O outro, o terceiro amazônida, teve posições políticas. Barão de Manaus, titulou-o a Princesa Izabel, a 27 de julho de 1888. E' o único amazonense do grupo. Por isso mesmo, o mais ignorado na sua terra. Triste destino de um povo! 

Filiado à corrente conservadora, governou a Província, em 1885 e em 1887. Governou com decência, com patriotismo. Administrou, é bem o termo. Não foi nunca um trânsfuga. Não foi nunca, porém, um escravizado ao partido para aceitar exigências imprudentes, comprometedoras. Quantos lhe rascunharam a biografia acentuaram o prestígio popular que o animava para caminhadas pelo berço. 

Morreu em 1906, a 26 de outubro, em Manaus. Sempre sob a admiração dos coestaduanos. Seu nome – Clementino José Pereira Guimarães. Nascido no velho Lugar da Barra, em 1828. Comendador da Ordem da Rosa, deram-lhe o nome à uma rua. Frágil homenagem, numa terra onde se louvam, nessas demonstrações, até quantos lhe sugaram as energias, lhe deram as horas amargas de agora! 

Pensador, Sant'Ana Nery, Comendador Clementino, não proclama o leitor, três homens do Amazonas? Homens, no sentido honesto!!!

Dormem, os três, em S. João. 

Porque os moços, que desejam lições no passado, não lhes estudam as vidas. E no dia de hoje, não lhes vão à necrópole, numa visitação comovedora e a denotar que já se forma um espírito nosso, voltado para o que é do patrimônio amazonense?

(*) Arthur Cezar Ferreira Reis
Suplemento da revista Redempção, 2 de novembro de 1932