CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

18 de agosto de 2010

Américo Antony (1895-1970)

Jornal do Commercio, 19 agosto 1970

Nesse dia, há 40 anos, desaparecia de nosso meio o Poeta das Flores. Américo Antony morreu em Manaus em aposentos do hospital Beneficente Portuguesa. Todos sabem, ele escreveu demais, Sonetos para todos os momentos que, lamentavelmente, repousam nas páginas arquivadas de nossos jornais, alguns desaparecidos.
Por isso, poucos conhecem a obra do representante do Simbolismo no Amazonas, atestado passado peloo saudoso padre-poeta L. Ruas, em crônica que se reproduz, despedindo-se do amigo-irmão.
Antony alcançou a Academia Amazonense de Letras em 1959, saudado pelo padre Nonato Pinheiro, para ocupar a Cadeira 28.
Ao falecer, havia publicado apenas um livro: Os Sonetos das flores, de 1968, que a Editora Valer reeditou em 1998.





Registro o evento, colando notícias da ocasião, quando respeitados admiradores escreveram uma página de saudade e louvor publicada no Jornal do Commercio, local, em 23 de agosto de 1970.



Américo Antony visto por Aureo Mello
Jornal do Commercio. Manaus, 23 agosto 1970


CEM ANOS DEPOIS*
L. Ruas

No dia 24 de julho de 1870, nascia na mineiríssima cidade de Ouro Preto Afonso Henriques da Costa Guimarães que ficou, posteriormente, conhecido pelo seu nome literário Alphonsus de Guimaraens. Nome que se identificou ao lado de Cruz e Souza, negro, catarinense, filho de pai escravo e mãe alforriada, com o movimento literário que passou para a história da nossa literatura com o nome de Simbolismo. 
Como acorreu com quase todos os simbolistas, Alphonsus de Guimaraens ficou, também por muito tempo quase completamente desconhecido e, ainda hoje é possível que muito bom (literato) não conheça a obra do “solitário de Mariana”. De fato, o Simbolismo foi o que se pode chamar uma “escola maldita”. Desde o seu aparecimento, e que cronologicamente ocorreu em 1893 com a publicação de Broqueis, foi sempre recebida pela “crítica” (ah! os críticos...) com desagrado, ironia e violentos ataques. Basta lembrar os de José Veríssimo que chamava ao Simbolismo de “fato de imitação internacional e, em muitos casos, desinteligente”. Parnasianismo, Naturalismo, Bilac, Machado de Assis eram as escolas e os nomes (entre outros) do momento. Eram a moda. Na verdade, por essa razão e por outras razões, o Simbolismo não colou e teve, como escola, uma existência relativamente efêmera. Depois da morte de Cruz e Souza, pode-se dizer que a escola simbolista como tal desapareceu. Isto em 1898, quando o “Dante negro” como o apelidou Alphonsus de Guimarães, morreu em Sítio, Minas Gerais, vítima de tuberculose.
Já dissemos acima que a “crítica especializada” nunca simpatizou muito com o Simbolismo. Depois do esfacelamento dos núcleos sulistas do Simbolismo os grandes poetas da escola ficaram olvidados, completamente esquecidos. Até ao início da segunda década deste século, quando ocorreu a grande revolução literária que foi o Movimento modernista, em 1922, imperou, na poesia, o parnasianismo e o helenismo de um Coelho Neto. O impacto do Modernismo concorreu ainda mais para o esquecimento daquela escola e foi necessário esperar até 1952, quando Andrade Muricy publicou o seu Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, para que se fizesse ou se começasse a fazer justiça aos grandes escritores e, principalmente, aos poetas simbolistas. (...)

Já os simbolistas utilizavam todas essas inovações e, talvez, por isso não caiu nas graças dos então donos da literatura brasileira cujos “deuses” eram, sem dúvida, os parnasianos. Fernando Góes, ao lado de Alceu Amoroso Lima, Otto Maria Carpeaux e outros, afirma categoricamente: “Não restam mais dúvidas que o melhor da nossa poesia modernista tem suas origens nos poetas simbolistas. Suas ousadias e experiências foram bastante fecundas, e aí estão para atestar o quanto os modernistas de 22, e mesmo os de agora, lhes devem. De resto, um dos chefes da revolução de 1922 – Oswald de Andrade, reconheceu isso quando declarou, certa vez, que “a linha ascendente da moderna poesia brasileira deriva do Simbolismo”.

Mas não foi só no sentido de profundidade, não foi só em verticalidade que se verificou a influência do simbolismo. Também no plano horizontal, no plano de extensão esta influência é notória. Na verdade, o Simbolismo não ficou circunscrito como crêem alguns às brumosas regiões do Sul do País. É verdade que Curitiba foi o grande núcleo do Simbolismo. Mas, pouco a pouco, ele foi se estendendo para outras regiões. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Bahia, Ceará (a Padaria Espiritual), Piauí (Da Costa e Silva, Jonas da Silva), Maranhão (Maranhão Sobrinho), Pará (onde se fundou o Apostolado Cruz e Souza).

E no Amazonas? Chegou até aqui a influência do Simbolismo?

No dia 18 de agosto de 1970, justamente cem anos do nascimento daquele que foi um dos grandes poetas do Simbolismo e um dos grandes poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens, morria na Beneficente Portuguesa de Manaus, um dos grandes poetas amazonenses, e sem dúvida, o maior poeta simbolista do Amazonas, Américo Antony.

Não me convém entrar, nesta simples crônica, e em comentários sobre a poesia e a presença de Américo Antony. Poeta, simbolista, irmão a quem muito todos nós devemos e a quem sempre estive ligado muito espiritualmente. Soube que estava hospitalizado através do meu e nosso amigo Geraldo Pinheiro e pelo mesmo soube do seu estoicismo espiritual diante da doença e da morte.

Américo Antony é a prova inconteste que o Simbolismo continua influenciando nas nossas letras.

Esta crônica de cem anos é minha homenagem ao poeta de Os Sonetos das Flores, que já deve ter-se encontrado com Alphonsus nas sidéreas lavescências das místicas regiões etéreas...
* O Jornal. Manaus, 23 agosto 1970