CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de maio de 2010

BOMBEIROS DO AMAZONAS (III)

Mais um tópico sobre a história dos combatentes do fogo em Manaus. Lembrei na etapa anterior a situação calamitosa do Estado, que se refletia na corporação. E mais, acentuei a eleição em outubro de 1950.
Assim, a Companhia de Bombeiros Municipais (CBM) rompeu o ano-novo funcionando como e onde sempre funcionou; agora com um detalhe significativo: por disposição legal, estava sob a égide da Prefeitura. Nada parecia ter mudado. Ocupava o mesmo aquartelamento, instalado no flanco esquerdo do Quartel da Praça da Polícia, cuja entrada se abria para a rua José Paranaguá. Sem dúvidas, seu pessoal seguia usando o mesmo fardamento e operando obsoletos e precários equipamentos. Enfim, enfrentavam total e penoso contrasenso, pois, ocupando o Quartel de uma corporação, obedeciam as ordens de outro "comandante", no caso, o prefeito de Manaus.
Inacreditável, mas a companhia de bombeiros não dispunha de qualquer viatura, por isso, "corria" a pé. Porque o bombeiro efetua a "corrida" (termo que designa o comboio de socorro) em viaturas, para ter eficiência e presteza. 



Na ocasião, ainda que interino, foi nomeado comandante da Companhia o 1.º tenente PM Izidoro Castilho (1898-1977). Nascido em Mato Grosso (MT), desembarcou em Manaus e prosperou na Polícia Militar desde soldado. Residia na rua Emílio Moreira, quase esquina da rua Leonardo Malcher, na praça 14 de Janeiro. Quando Castilho assumiu, na companhia serviam 49 praças. Na condição de oficiais subalternos, os segundos tenentes Ércio da Silva Rebelo e José Tomaz Monteiro Filho (1913-1966).


Não esqueça: o atendimento telefônico era prestado pelo número: 1390.
Praças existentes em janeiro de 1951:
subtenente Manoel Sanches de Brito;
1.º sargento Sebastião Vicente do Nascimento;
2.º sargento Alfredo Meireles;
3.os sargentos João Dias Miranda; Euclides Correa Lima e João Coelho Sobrinho;
cabos Luis Constantino de Melo; Antonio Ferreira da Rocha; Antonio Januário da Silva; David Miguel Lemos; Nicodemos José de Andrade; José Canuto dos Santos; Humberto Ferreira de Araújo; José Mendes de Lima e Sebastião Ramos Filho;
soldados (corneteiros) Francisco Felix da Silva; Manoel Araújo Vieira e Luis Correa de Albuquerque;
soldados (fileira) Antonio Silva; Pedro Evaristo da Silva; Joaquim Soares Marques; Raimundo Ribeiro da Silva; Manoel Holanda Sampaio; Vicente Pinto Ferreira; Modesto Leopoldo Rodrigues; Joaquim Alvarenga Filho; Joaquim Frota; João Antonio da Silva; João Marques de Queiroz; Carlos Cavalcante; Rubens de Paula Cascaes; José Xavier de Melo; Manoel Pedro da Cruz; João da Silva e Souza; Adauto Vieira Cirino; Simplício Vieira de Souza; Pedro Rodrigues de Oliveira; José Grangeiro da Mota; Ra-imundo Nascimento da Silva; Francisco Ferreira do Nascimento; José Pacheco Nonato; Antonio Rufino dos Santos; Daniel Queiroz Sobrinho; Manoel Sebastião da Silva; Nelson José do Nascimento; Sebastião Simão; José Inácio da Silva; Manoel Aragão da Silva; Pedro José da Silva e Floriano Pinheiro da Silva.

Em 31 de janeiro, tomou posse no governo do Estado, Álvaro Botelho Maia (1893-1969), homem público de elevada erudição, mas que já demonstrara escassa habilidade administrativa. Atuante prócer estadual pelo Partido Social Democrta (PSD), estivera na direção do Estado, como interventor federal, durante o governo ditatorial de Getúlio Vargas. De qualquer modo, a posse como toda mudança política despertava expectativa nos amazonenses, já depositadas quando de sua eleição.


Ao constituir seu secretariado, Maia escolheu o coronel PM Manoel Corrêa da Silva (1894-1954) para o comando da Polícia Militar. Negro, Corrêa foi o único com esse atributo a exercer o comando e, quando o assumiu, já se encontrava na reserva. Era, pois, um "coronel de pijamas".
Desse modo, retornavam ao direcionamento do Estado o Governador e o Comandante já experientes, mas até que ponto? Não me foi possível aquilatar.


Logo veio o primeiro teste para os bombeiros do tenente Izidoro Castilho. A descrição pertence ao matutino A Gazeta, Manaus, 13 Fev. 1951, sob o título: Na voragem de um incêndio violento. E subtítulo: Irrompido no seu interior, desapareceu a antiga Farmácia Lopes.

Por volta das 21h de ontem, desusado movimento de pessoas apressadas se notava para os lados da rua Henrique Martins, enquanto de boca em boca corria a terrível notícia de que um grande incêndio irrompera no interior da Farmácia Lopes, situada no quarteirão entre as ruas Lobo d’Almada e Joaquim Sarmento, em pleno coração da cidade.


Desenvolvendo-se com extraordinária rapidez e intensidade, as chamas consumiram com estrépido o edifício em que estava instalada e tudo quanto nele se encontrava, resultando em prejuízo total, não obstante os esforços empregados pela Companhia de Bombeiros, que prontamente acorreu ao local, e a cooperação que lhe emprestaram elementos do 27.º BC, da Polícia Militar e populares.


A Polícia Civil desde os primeiros momentos, promoveu o isolamento do local, a fim de facilitar as medidas de salvamento dos prédios adjacentes, tendo ali comparecido o Dr. Chefe de Polícia, delegados e outras autoridades, inclusive o Sr. Dr. Governador do Estado, tendo sido empregado todos os esforços para diminuir o risco que ameaçava os edifícios vizinhos, o que foi conseguido com a localização do fogo na casa em que funcionava a farmácia, que foi completamente destruída, inclusive os consultórios dos Drs. Agenor de Magalhães, Alfredo Corrêa Lima, Waldemar Palma Lima, Carlos Frederico Araújo da Silva e Rayol dos Santos.


Durante os trabalhos de salvamento, receberam ferimentos: Fernando Pimenta Teles e Ubiratan, soldados do 27.º BC; Antonio Paula de Sena, soldado da Polícia Militar; Francisco Rodrigues da Silva e José Piragibe de Albuquerque, guardas da Inspetoria da Polícia do Porto.


A Farmácia Lopes estava segurada pela Northern Assurance Company e Sul América em Cr$ 400.000,00, mas o seu estoque de medicamentos e drogas era de muito valor, segundo nos informaram. Na Polícia foi instaurado o competente inquérito.
Na descrição do combate ao fogo nada se comentou sobre os Bombeiros, agora subordinados à Prefeitura de Manaus. Nem sequer um ferido, entre tantos levados ao serviço de urgência.
Mas os obstáculos apresentavam-se em grande número e de toda ordem.
Desde o pessoal diminuto, onde preponderava um maior número de oficiais sobre os praças, legítimo "muitos caciques e poucos índios"; passando pelo efetivo que se diluía dia a dia, posto que o comando era obrigado ou autorizar o licenciamento ou decidir pela exclusão de praças do serviço.
A inclusão de novos, em contrapartida, era reduzidíssima e de qualidade duvidosa.