CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

16 de março de 2010

BOMBEIROS DO AMAZONAS

Na Barra do Rio Negro (primitiva denominação de Manaus), os primeiros relatos sobre incêndio destacam-se pela gravidade mesmo. Pouco antes da elevação do Amazonas à categoria de província, a igreja matriz, melhor dizendo, a ermida em honra da padroeira desaparece consumida pelas chamas em 1850. Tal como lembrava a igrejinha idealizada pela paleta do Casal Makk destacada no altar central da matriz de Nossa Senhora da Conceição. Coincidência ou não, em junho de 1874, outro desastre acaba com o trem de guerra (conjunto de petrechos que acompanham a força terrestre) da guarnição. Este desastre mais que aquele impulsiona as autoridades da Barra a repetir o gesto imperial criador dos bombeiros no Brasil.


O saudoso cronista Mário Ypiranga descreve este incêndio:
Como nos nossos dias, naquele tempo o povo atropelava-se atraído pela curiosidade. Que grande curiosidade seria um incêndio em 1874! As labaredas subiam desafiantes. (...)
Durante cerca de uma hora, rezam as crônicas, a cidade inteira ouviu aterrada os estampidos provenientes da combustão do trem de guerra. Carretas de guerra, granadas, correame, armas, balas, velhos canhões coloniais já inúteis, pólvora, fardamento, arquivo, tudo foi atingido pelo fogaréu, boa parte consumida e outra voou pelos ares. (...)
Após o incêndio o governo provincial mandou construir pequena casa de tijolos no Largo da Pólvora (Largo da Campina antes, hoje do General Osório), mudando mais tarde o trem para o local denominado Artigos Bélicos até hoje, à margem do igarapé de São Raimundo Nonato, ali onde foi a invernada do 27.º BC.

Se as principais edificações desapareceram pela ação descontrolada das chamas, sem que nada se pudesse realizar para enfrentá-las, temia-se pelo socorro aos casebres construídos de madeira e cobertos de palha, material de facílima combustão. Assim, duas décadas depois da Corte, a capital da Província do Amazonas aparelhava o serviço de combate a incêndios. A primeira notícia sobre a organização do serviço de combate ao fogo veio bastante alvissareira. Serviu de porta-voz o próprio presidente da Província, Domingos Monteiro Peixoto. A nova dizia respeito ao aparelhamento de uma tarefa contra-incêndios, descrita no Relatório com que este passou a administração da Província:


Felizmente, são raros os incêndios nesta capital; no entanto, por encomenda que fiz, acaba de chegar da Europa uma bomba com os seus pertences, de custo de R$ 1:800$000 [um conto e oitocentos mil réis], a fim de ser empregada neste serviço. Está à disposição da repartição das Obras Públicas e depositada na Igreja Matriz, em construção.

Assim, havia pretextos demais para a deliberação tomada pelo presidente da Província. Peixoto nomeia uma comissão presidida pelo comandante das armas, brigadeiro Pedro Maria Xavier de Castro, com a finalidade de elaborar instruções subsidiárias para um serviço de combate a incêndios. E, segue-se outra excepcional notícia: a comissão nomeada, como se verá, funcionou.
Reconhecendo a necessidade de dar instruções apropriadas ao serviço da extinção de incêndios, por não haver providência alguma sobre tão importante assunto, tive por conveniente nomear o coronel [Manoel Inácio Bricio] comandante das armas, o 1º tenente da Armada capitão do Porto interino, e o capitão de engenheiros [Leovigildo Coelho] diretor das Obras Públicas, para formularem um regulamento neste sentido, e por Ato de 11 deste mês mandei observar o que eles me apresentaram como resultado da incumbência que lhes dei, autorizando pela verba “Eventuais” o pagamento das despesas precisas com o respectivo pessoal, aquisição de alguns acessórios e a conservação das bombas e suas pertenças.


Assinatura de Leovigildo Coelho,
primeiro comandante dos bombeiros amazonenses.