CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

13 de março de 2010

EUCLIDES DA CUNHA

O autor de Os sertões volta a ser lembrado em livro. Desta vez, Daniel Piza, em Euclides na Amazônia, descreve o tormentoso trabalho de Euclides pelos beiradões mais inóspitos do Amazonas, para definir as fronteiras brasileiras.
Quero, todavia, lembrar o livro póstumo de Roberto Ventura, que pretendia escrever a biografia de Euclides da Cunha. Nele, Ventura comete um "escorregão", ao confundir dois personagens da história nacional. Para corrigir a falha, escrevi o texto abaixo.




Rondon & Cândido Mariano


Encerrada a leitura do livro Euclides da Cunha, esboço biográfico de Roberto Ventura, publicado pela Companhia das Letras, restou-me grave sobressalto. Ao fato: há forte engano cometido por Ventura contra o marechal Candido Mariano Rondon, colega de Euclides sim, mas não participante da expedição contra Canudos.
Ventura escreveu: “Encontrou, à frente do batalhão do Amazonas, um companheiro dos tempos de Escola Militar, Candido Mariano Rondon”, veja p.164 do Esboço.
Na verdade, o personagem referido é Cândido José Mariano que, este sim, comandou o batalhão do Regimento Militar do Amazonas, hoje Polícia Militar, na peleja conselheirista. Rondon, em 1892, fora nomeado chefe do distrito telegráfico de Mato Grosso, para construir a ligação MT-GO. Nunca mais deixou essa tarefa, portanto, acolá se encontrava quando ocorreu o embate em Canudos. Vejamos outros dados: Euclides, em Os sertões, cita nominalmente ao comandante da tropa amazonense. Leia-se sob o título Outros reforços: “Por fim dois corpos: o regimento policial do Pará, (...) e um da polícia do Amazonas, sob o comando do tenente Cândido José Mariano, com 328 soldados”. E nos sites de busca, encontram-se mais detalhes sobre este oficial.
Na ocasião do centenário de Canudos, escrevi o livro Candido Mariano & Canudos (1997). Nele, descrevi o deslocamento da tropa amazonense desde o embarque na capital amazonense até os combates em Canudos; os festejos dispensados aos vencedores; e, por fim, pequena biografia do comandante Cândido José Mariano. Ao dar título ao livro, a editora excluiu o José, cujo resultado trouxe confusão entre os militares aqui nominados.
Para encerrar, uma digressão: os oficiais citados foram colegas na Escola Militar, e os três concluíram a Escola Superior de Guerra. Rondon (n.1865, em MT) formou-se em 1890; Euclides (n.1866, no RJ), em 1892; e Cândido (n.1870, em MG), em 1896.
A tríade esteve no Amazonas. Cândido foi o primeiro, quando escoltou os deportados pelo governo de Floriano para o Amazonas (1892); mais adiante engajado na PMAM (1896), quando combateu em Canudos. E mais. Foi prefeito de Sena Madureira-AC (1905-10) e inspetor da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (1911).
O segundo foi Euclides, na temporada (1905) em que passou no Amazonas, encarregado da demarcação da fronteira Brasil-Peru; finalmente, Rondon que, ao estender as linhas telegráficas até o atual Estado de Rondônia, visitou Manaus em três oportunidades.

Euclides e Cândido passaram por Canudos, em atividades distintas. O primeiro publicou Os sertões. Cândido produziu um relatório militar ao Governador do Amazonas, narrando a condução do batalhão e as costumeiras desditas. Este documento, publicado em dezembro de 1897, se constitui na primeira publicação do pós-guerra sobre Canudos.