CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS
quarta-feira, março 29, 2023
SILOGEU AMAZONENSE & ACADÊMICOS
sexta-feira, setembro 04, 2020
CARTA RECEBIDA (2)
De fato, conheci Sabbá Guimarães pela leitura de suas obras, difíceis, por sinal, e pelas informações de associados do IGHA. Soube que ele fora Juiz de Direito em nossa capital e, que abandonando a magistratura, retirou-se para Santa Catarina, onde exerce o magistério na Universidade Federal.
E mais, devo ter cruzado com ele, no IGHA, apenas numa oportunidade. Não me recordo o motivo de ter-lhe enviado o meu livro sobre o padre-poeta L. Ruas, guardei, no entanto, a carta recebida com as considerações, a qual compartilho ora com o universo.
Florianópolis,
09 de outubro de 2012
Prezado confrade, saúde e felicidade.
É curioso que sendo ambos da mesma entidade, o IGHA, jamais nós tenhamos cruzado e estou ali há mais de quarenta anos! Obrigado pelo livro que organizou dos poemas do padre Ruas, que já li. Foi um gesto generoso o seu, pouco encontradiço em a nossa região. Aliás, este é um fato sociológico sobre o qual eu conversara com André Araújo e Mendonça de Souza, ali mesmo, na Academia, em uma de nossas belas sessões de sábado. Temos a tendência muito forte à mesquinharia e à inveja. Atribuo isto ao nosso isolamento, ao poder assombroso da floresta, à extrema mestiçagem racial e cultural que nos moldou. Repito-lhe: não há generosidade entre nós e o seu gesto merece cumprimentos, como faço agora. Diga-se de passagem, digno de ser imitado por outros. Gesto de discípulo, de amigo e de admirador o seu.
Leve adiante os propósitos de reunir o
que Nonato Pinheiro deixou. Conheci-o na Academia e algumas vezes conversamos
sobre Literatura Francesa, que ele amava.
Lamentei não haver conhecido Luiz Ruas.
Como antes lhe disse, eu via o padre como muito à esquerda e isto
separava-nos. Os meus conhecidos do então SNI - todos hoje falecidos, e só eu
ainda aqui, forte como um touro selvagem -, diziam-no uma figura subversiva,
malquista dos órgãos militares, por ele ser da mesma linha do padre Boff, um
sacerdote que não escondia o seu perigoso trotskismo.
Eu visitara, a serviço, vários países
da Cortina de Ferro e tivera a oportunidade de sentir a violência da censura,
da perversidade das polícias secretas, do poder etático por ali, e era levado,
por isto mesmo, a sentir horror por todos os "vermelhos", entre os
quais nós, então, incluíamos o pobre Luiz Ruas. Veja, meu confrade, a força da
ideologia de Estado, o poder que ela possui! Jamais pensaria que iríamos cair
em um regime semelhante ao cubano e, de mais a mais, capitaneado por
analfabetos, como o ex-presidente e seus seguidores. O ancien régime
era composto de gente culta, refinada, honesta, bem intencionada, e que via no
Brasil e sua grandeza, o alfa e o ômega do seu desiderato político.
Em seu nome, com a sua amável
permissão, oferecerei um dos dois volumes à Biblioteca Central da Universidade.
É pena que não viesse, também, autografado, como o que teve a bondade de
dedicar-me.
Pedi à minha editora que lhe enviasse ou o tratado sobre Tradução (tenho que confessar que se trata de obra bastante difícil sobre a Filosofia da Tradução), ou o estudo sobre Ezra Pound, Rebeldia e Genialidade. Espero que receba muito em breve um dos dois livros.
Talvez vá, com a sra. Sabbá Guimarães,
a Manaus, em dezembro. Apreciaria conhecê-lo nessa ocasião, se tiver oportunidade.
Tenho três bons amigos aí: Gaitano Antonaccio, Armando de Menezes e Amir Diniz.
Não sei se os conhece. São gente muito dinâmica e sempre envolvida com livros.
Mais adiante, se lhe não for inconveniente, avise-me se estará em Manaus a
partir de 20 de dezembro.
Êxito nas investigações e incentivo-o a
levar adiante os seus bons e nobres projetos.
quarta-feira, agosto 03, 2011
CLUBE DA MADRUGADA: CRÔNICA
Como o Madrugada está intrinsecamente ligado ao poeta Jorge Tufic, seu condutor por décadas, vou reproduzir uma de suas crônicas tratando do CM, inserida em seu recente trabalho: O sonho de Tibério, já a venda nas livrarias
(...) O Clube da Madrugada, em Manaus, foi, a nosso ver, a mais eclética forja cultural inspirada pelas mais variadas tendências, com o maior número possível de intelectuais e poetas capazes de se estrear na literatura, como poucos o fizeram. Mas o CM não era só de literatura. Nas artes plásticas tivemos um Afrânio Castro, também poeta, falecido prematuramente antes de publicado. Hanneman Bacelar, muito mais novo que Afrânio, teria a má sorte de vergar ao peso cósmico dos "trópicos tristes", cometendo suicídio. A galáxia madrugada, enfraquecida agora pela dispersão voluntária dos seus componentes, vai-se deste modo resumir-se naqueles raros que ainda restam de um encontro "histórico" de que jamais se tivera notícia.
Newton Sabbá, Jayme Pereira e Jorge Tufic (de pé), 1983
Algumas outras personagens desse tempo, naquela obscura capital amazonense dos anos 50, teriam ficado também na memória de seus contemporâneos, não exatamente pela autoria de um romance, de um conto, a exemplo de A Porta-Estandarte, de Aníbal Machado, ou de um soneto-estalo, como podemos ainda mencionar Augusto dos Anjos, com Vandalismo ou Raul de Leoni, com Eugenia, mas, a rigor, no que elas foram dentro do real desempenho cotidiano de suas próprias vidas.
Temos, assim, as figuras lendárias de José Trindade, um dos fundadores do Clube, e a do filósofo Malaquias, de quem já tratamos numa crônica do Tio José (1975). Deixaram, quanto muito, a fama de seus atos públicos notoriamente rebeldes, e frases como esta do pensador da Praça do Ginásio: a senectude é como o sol do entardecer: ilumina, mas não aquece. Ou esta: não me façam vomitar dizendo "meus sonhos". Ninguém é proprietário de sonhos.
O Dr. José Trindade foi mais longe, materializando no ato físico a ideia do fantástico. Na qualidade de auditor de guerra da Polícia Militar do Estado, envergara ele, num certo princípio de noite, a luxuosa farda nobre da Corporação, com espada e tudo, indo sentar-se a uma das mesas do Bar Moderno, ao lado do Cine Polyteama. E ali, erguendo-se apenas para ir ao banheiro, tomou o porre federal mais célebre da província.
Malaquias, não tendo residência fixa, acabou por escolher o toldo de uma lancha-motor, no qual passara a dormir. Ninguém mais soube dele. José Trindade, destituído do cargo de auditor, foi tentar a sorte em Vitória do Espírito Santo, e, quanto a nós, nunca mais tivemos notícias do amigo.
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Dia de Santa Luzia
Para lembrar a data, porém, tomei emprestado trabalho de dois escritores: o primeiro é do Aguinaldo Figueiredo, autor de Santa Luzia: história e memória do povo do Emboca, já em segunda e preciosa edição. Apesar de alguns desencontros, causados em grande parte pela memória de terceiros, Aguinaldo lembrou com predicado o padre Paulino Lemmeier (esta me parece ser a grafia correta), o primeiro vigário do bairro, portanto, o fundador da igreja de Santa Luzia. Em seu livro descreve a robustez do germânico sacerdote e sua predileção pela cerveja amazonense XPTO. Igualmente recorda e sublinha a devoção aos amigos conquistados em Maués (AM), onde exerceu o sacerdócio.
| Padre Paulino e paroquianos, do livro Santa Luzia |
Antes de prosseguir, quero deixar registrar minha reminiscência. Estudante no seminário São José, frequentei a igreja de Santa Luzia por quatro anos, a partir de 1960. Assim, tive contato com o padre Paulino tanto no seminário, como meu professor de francês, quanto na paróquia. Ainda na capela primitiva, construída de madeira e com capacidade para “meia dúzia de paroquianos”.
Depois, os caminhos da vida nos separaram. E, sobre o velho sacerdote, sei apenas que se encontra sepultado no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade.
Para completar a homenagem ao primeiro vigário e, por extensão ao bairro de Santa Luzia, transcrevo uma crônica do Doutor Newton Sabbá Guimarães, eminente membro da Academia Amazonense de Letras, entre outros títulos, ora residindo na capital de Santa Catarina, publicada há 50 anos no extinto O Jornal de nossa capital
Dia de Santa Luzia II
Não poderia de modo algum deixar desapercebida esta data: hoje, 1º de maio, Dia do Trabalhador, o meu bom amigo padre Paulino Lammeier completa 30 anos de vida sacerdotal, e, mais que isso, são trinta anos de vida laboriosa e fecunda, repartida entre o magistério secundário e o sacerdócio, se podemos dizer assim vez que para ele a difícil arte de ensinar constitui também um verdadeiro sacerdócio.
Justamente há trinta anos, nessa mesma data, lá na Bahia de Todos os Santos, se deu a ordenação de padre Paulino. Daí para cá são anos e anos de dedicação e de trabalho e, por que não o dizer também (?), de amor às coisas e à gente do Brasil.
O trabalho que esse sacerdote estrangeiro por nascimento – mas nosso de oração – tem realizado no Brasil é digno de encômios e de admiração levando em conta que para um nórdico educado nas melhores universidades da Europa, dotado de uma lúcida inteligência aliada a forte cultura, o lançar-se nas selvas do Amazonas – como de fato o fez, a domesticar e catequizar índios nas missões salesianas e outras – representa o abandono de si mesmo, de tudo o que aprendeu, o desprezo de todo o conforto da civilização...
Viveu dez anos entre índios, até que um dia o descobriram, viram que no meio de tantos outros padres havia um que era forte helenista e o tiraram de lá para ensinar grego em Manaus.
Possuindo verdadeira alma de escritor, padre Paulino já enumera mais de doze obras entre originais e traduções, e exceção de um singelo romance religioso traduzido do alemão e publicado no semanário católico “Universal” (cuja revisão tive o prazer de fazer com referência aos últimos capítulos), todos os demais livros do padre Paulino permanecem inéditos.
Professor de grego e latim no seminário menor de São José, padre Paulino é ates de tudo um poliglota com a paixão das línguas. Além do alemão – seu idioma natal – e do português que domina às mil maravilhas, conhece regularmente o holandês, o italiano, o francês, o castelhano e possui tinturas de hebraico, que estudou ainda na Alemanha e por este último idioma sente verdadeira atração, pedindo-me muitas vezes lhe fale alguma coisa no Santo Idioma e é com admiração que o digo: padre Paulino pode seguir-me numa conversação em hebreu!
Com sincera alegria recordo o nosso primeiro encontro que tanta influência iria ter na minha formação intelectual. Sentindo desde muito criança verdadeira paixão pelo estudo de línguas, estava eu uma tarde, à parada de ônibus, com um imenso “Niederlaendisch-Deutsch Woerterbuecher” (Dicionário Holandês-Alemão), pois à época eu começava estudar o belíssimo idioma da terra de Juliana, quando se me aproximou o padre Paulino que ao olhar o livro perguntou: Sprechen sie deutsch? (Fala você alemão?)
A minha resposta afirmativa foi o início da nossa amizade. Com ele melhor aprendi o alemão e ainda por seu intermédio entrei em contato com universitários alemães (com os quais até hoje me correspondo) ajudando-me sobremaneira no domínio do grande e nobre idioma de Goethe, Schiller e do mais delicado poeta do mundo, o judeu Henrique Heine.
Não posso resistir à sedução de repetir que disse no livrinho que sobre o padre Paulino escrevi: Lobspruch von einem lehrer (Elogio de um mestre): “Pater Lammeier ist ein freund Brasiliens und insbescondere ein freund Amazonas” (Padre Lemmeier é um amigo do Brasil e particularmente do Amazonas).
Nada mais verdadeiro. É amigo de todos. Coração sincero e simples, dele se conta anedota que quando professor de língua e literatura francesa no ginásio D. Pedro II perguntava, nos exames finais, aos alunos mais fracos na matéria: Meu filho, de quantos pontos você precisa para passar?. O aluno dizia e o padre lhe dava quantos precisava por não ter coragem de reprovar o vadio. Algo pessimista e idealista ao mesmo tempo é este amigo sobre quem escrevo estas palavras.
| O Jornal. Manaus, 1º maio 1960. Há ligeira incorreção no nome do autor |



