CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, abril 01, 2026

1º ABRIL - DIA DA MENTIRA

Duas notas verdadeiras nesta data excêntrica: a morte do padre-poeta L. Ruas (2000), ocorrida há 26 anos; a outra, o aniversário do mestre do pincel, desenhista e ilustrador Marius Bell (1950-).

Ontem, conversando com a filha Sofia sobre literatura, revi o livro Poesia Reunida, de L. Ruas, que organizei, e o padre Francisco Pinto mandou imprimir e distribuir. Lemos alguns poemas e relembrei a enfermidade que castigou ao Ruas e seu falecimento. 

Homenagem do Estado, situada no
bairro Zumbi III

L. Ruas nasceu e morreu no mesmo endereço à avenida Joaquim Nabuco, em imóvel ora em frente ao hospital da Samel. Em curto intervalo morou em outro endereço, na avenida Sete. Ao falecer, Ruas emocionou a cidade, e sua morte lembrou as Palavras à árvore morta, diria, seu epitáfio, escritas quando o autor era ainda jovem sacerdote:

Anos depois, isto é, há dois dias, ele [o fícus] sentiu que algo estranho sucedia dentro de si. Uma espécie de tristeza, uma agonia, uma angústia. O vento, novamente, sussurra-lhe aos ouvidos de folhas, já agora ásperas, que umas árvores haviam sido destroçadas, decepadas, mutiladas. E o fícus desprovido da inadvertência da mocidade, o fícus, abalado por tantos males, não resistiu à notícia. Sentiu que a seiva estacava dentro de seu tronco calejado pelas pedras duras do calçamento, sentiu que alguma coisa estava se rompendo e... com estalo de dor, tombou, abraçando sua rua, acariciado pelo vento que, absolutamente, não compreendia a razão do colapso. 

O professor José Seráfico dedicou uma memória ao autor de Aparição do Clown, cuja finalização transcrevo abaixo:

Não foi dado sequer o tempo de colher o fruto de seu canto. Tão cedo se foi, quando havia tanto a fazer – e a ensinar. Convenhamos que antes dos setenta anos deveria ser crime morrer. Talvez sua missão já se tivesse cumprido. Quem o saberá? Se a parca encerra em si mesma, além do luto e da dor dos que ficam, o simbolismo tão parco na mente dos sobreviventes, ela não nos terá poupado da coincidência com que às vezes se manifesta: Luiz Ruas, perseguido pelo golpe militar de 1964, deixou-nos na mesma data em que a ofensa cívica ocorrera – era primeiro de abril do último ano do século XX.

Pena que, nesse caso, não havia mentira. Luiz Augusto de Lima Ruas partia para nunca mais. 

* * *

Bell exibe o desenho
da estátua de Santo Antonio

A outra “mentira” é o aniversário do artista publicitário Marius Bell (1950-), pseudônimo de um ilustrador, desenhista e escultor regional, que realizou respeitosa caminhada artística pela nossa cidade, onde espalhou cartazes de cinema, enormes grafites e quadros pessoais, alguns me pertencem. Sua maior obra é a estátua de Santo Antonio, que se encontra altaneira à margem do rio Madeira, na cidade de Borba. Na ocasião, dom José, bispo da Prelazia local, permitiu-lhe decorar o interior da catedral. Ainda agora, o autor vangloria-se de ter pintado o Crucificado “sorrindo”. Acredita ser o único no mundo.

Enfim, Marius deixou em Manaus uma batelada de bons trabalhos. Marcantes. Lamento que tenha se mudado do bairro de São Francisco, onde morava, trocando-o pelas praias de Maceió (AL), onde já espalha suas bem-conceituadas obras e desfruta com a família de bons ventos marítimos.

Vida longa, meu camarada, que venham mais e mais trabalhos, para festejos de seus admiradores.

quinta-feira, junho 13, 2024

13 DE JUNHO - DIA DE SANTO ANTONIO

 Vou ilustrar a postagem com a fotografia da imagem de Santo Antonio, erigida no barranco da cidade de Borba (AM), cuja construção foi processada pelo artista Marius Bell, que a tem como sua maior obra. Todavia, o texto pertence a meu irmão - Renato Mendonça, saudando o Santo do dia e o santo de casa. Somos três irmãos: Roberto, Antonio e Renato.


BOLO DE SANTO ANTÔNIO

13.06.2024

Estive hoje pela manhã na Igreja da Porciúncula, em Niterói. Não sabia que a festa na rua ao lado estava repleta de pessoas. Muita gente querendo comprar coisas para degustar, entre eles o famoso Bolo de Santo Antônio. Uma fila enorme para comprar nas diversas barracas postadas ao longo da rua. Nem fui até o final, não me atrevi a me acotovelar com tanta gente, ou faltou-me um pouco mais de perseverança mesmo. Aproveitei a ocasião e, na volta para casa pelo caminho do Campo de São Bento, a minha consciência começou a fazer suas reflexões e me interpelar por um juízo de realidade sobre o que eu tinha observado naquele curto momento, baseado nos conceitos subjetivos que se têm hoje da religião, sem caminhar pelo preconceito, pela discriminação ou julgamento precipitado.

Embora não tenha conseguido comprar nada, particularmente fiquei feliz por saber que ainda temos tantos católicos neste lado sul do Brasil. O que me deixava intrigado, sem saber exatamente como isso aconteceu, é como as igrejas evangélicas, ditas neopentecostais, conseguiram cooptar tanta gente humilde de boa-fé, e alguns de má fé. O que se viu, nos últimos anos, é uma politização em torno das religiões evangélicas. E isso acarreou entre os fiéis um sentimento pouco espelhado na solidariedade humana. A primeira coisa que me ocorre pensar, é como essas pessoas execram a figura de Maria, mãe de Jesus. Nem se importam que Nossa Senhora é, antes de tudo, uma figura simbólica de todas as mães deste planeta. É o símbolo da vida, é o símbolo do afeto, do aconchego, da amamentação, do zelo — é o símbolo do Amor.

Dia desses, quando eu estava na frente de um hospital aqui no Rio, esperando o momento de visitar a um amigo de nome Antônio, uma dupla de mulheres se aproximou de mim com um folhetim da Igreja Batista, e me entregou. Quando lhes disse o porquê da minha presença ali, elas falaram num discurso vazio e protocolar, que só Deus conseguiria a salvação. Concordei, mas acrescentei que eu estava também esperançoso e com fé no seu filho Jesus, que realizou muitos milagres e curou muita gente. Observei que elas ficaram incrédulas sobre essa minha referência. E eu, evitando polemizar o assunto, disse-lhes que está tudo no Novo Testamento, e que isso é uma questão de fé, qualquer que seja o credo tutelado pela Bíblia. E foi só, elas me abandonaram com as minhas orações sendo rezadas silenciosamente.

Renato, Roberto e Antonio, 2007

Todavia, outro fator de júbilo nesse dia 13 de junho é o aniversário de meu irmão Henrique Antônio. É pena que só posso abraçá-lo virtualmente. Ele está na terra natal do padroeiro, e me ocorre pensar positivamente que está com boa saúde. Isso já me conforta, me basta. Sempre isso: que ele seja feliz e goze de boa saúde, até quando Deus quiser. Mas, é sempre bom ter fé que Jesus Cristo, com seu poder divinal, também possa volver seu olhar misericordioso e suas mãos santas para lhe abençoar nesse dia. E que ele possa simbolicamente saborear a cada dia uma fatia generosa e vital do bolo de Santo Antônio, servido pelo Senhor. Parabéns!

quarta-feira, janeiro 19, 2022

DESPEDIDA FILIAL

O texto pertence ao Tiago, filho do poeta Thiago de Mello, amazonense que brilhou nos círculos literários do país, falecido nesta semana, aos 95 anos. A publicação circula nas redes sociais e chegou ao meu conhecimento através do poeta Zemaria Pinto. 

A ilustração saiu da inspiração do artista plástico Marius Bell.


Mensagem do Thiago, filho do poeta Thiago de Mello

Passei três semanas no Amazonas, viajando sozinho. Se é que é possível dizer que viajei sozinho, pois sempre estive acompanhado de gente que me quer bem, amigos e familiares que encontrei pelo caminho. Gente que amo e que me constitui. Fui com dois propósitos nessa imersão solitária. O primeiro, visitar meu pai. Estar com ele por alguns momentos, já ciente da situação de saúde e cuidados na qual ele se encontrava. Depois, fui com o objetivo de iniciar uma reforma inadiável em nossa casa à beira do rio, em Freguesia do Andirá, no interior do município de Barreirinha, a quase 350 km de Manaus. Um dia de barco pra chegar até lá.

A casa me pede zelo já há um tempo e estou há uns meses organizando uma campanha para arrecadar recursos para as obras. Consegui uma parte do dinheiro através da generosidade e da compreensão de muitos amigos e conhecidos, todos amantes da amizade, da poesia, da Amazônia e da obra literária de meu pai. Todos sonhadores como eu, que sabem, como meu pai, que arte e cultura geram evolução individual e progresso social.

Embarquei no final de dezembro para Manaus, sendo acolhido pela minha família amazonense que tanto quero bem. Fui ao apartamento de meu pai e Pollyanna. Ele já estava praticamente sem se levantar. Fui até o quarto. Quando ouviu minha voz, comentou: "voz bonita a do meu filho". Com a memória dissolvida pelo tempo (do qual não se corre) e pelas neuropatias, perguntou meu nome e se eu tinha filhos. Disse que me chamava Thiago e que tinha duas filhas. Nossas mãos entrelaçadas num carinho suave e ancestral. "Mas então nós temos o mesmo nome", ele notou. Falei que isso tinha sido invenção dele, pôr meu nome Thiago Thiago de Mello. No que ele, após um certo silêncio, falou baixinho: foi pra ficarmos juntos até mesmo no nome. "Cuida bem das suas filhas". (Eu me emocionei muito nessa hora porque queria dizer a ele que se sou um bom pai é porque ele foi o melhor formador e educador que eu pude ter).

Seguimos nossa conversa cheia de silêncios e respirações. Quis saber o que eu fazia da vida. "Canções e poemas", não titubeei. Ele fez que sim com a cabeça e repetiu "canções e poemas, isso". Perguntei se eu estava indo no caminho certo. "Certíssimo", ele me disse com a voz grave de trovão adormecido. Comentei que estava indo para Barreirinha cuidar da nossa casa, pedi a sua benção ("Deus lhe abençoe", me beijando a mão) e segui o meu caminho rumo ao rio Andirá, dos Saterês-maués.

Fiquei semanas num país submerso, me nutrindo do passado, de banho de cheiro, tucumãs, ovas de curimatã, sombra de castanheira, amizades verdadeiras e caldeiradas de tucunaré e tambaqui. As obras começaram. Retiramos as vigas podres. Os esteios corroídos substituímos por madeira nova. Passamos óleo queimado para afugentar o cupim de terra traiçoeiro. Compramos tinta, cimento, ferro. Vieram os trabalhadores. As telhas chegaram de Parintins, presente de Antonio Beti, cuja doação jamais esquecerei. Recebi tanto em minha jornada pelas águas. Fiz um trabalho firme, aguentando o rojão sob chuva e sol quente.

Barreirinha, onde meu umbigo está enterrado, me acolheu como sempre. Vi a felicidade nos olhos de gente simples, hospitaleira, contadora de histórias. É com meus irmãos e irmãs ribeirinhos que meu espírito se molda e evolui. Na verdade, estava sem saber, me preparando para um adeus após uma longa despedida. Fortaleci minha alma estando naquele lugar, berço meu, que aprendi a amar com meu pai e minha mãe desde que pra lá fui levado aos 6 meses de idade.

Voltei pra Manaus e fui ao apartamento ver meu pai. Ele não me respondeu, já completamente dentro do seu próprio mundo, distante daqui. Pedi um violão e, então, comecei a tocar. As lágrimas caíram, eu sentado e ele deitado na cama. Tirei do baú as canções que sempre cantávamos juntos: "Azulão", "Por que tu te escondes", "Linda vida", "Pai velho", "Quem me levará sou eu", "Faz escuro, mas eu canto". Fiquei ali cantando por mais de trinta minutos, a primeira vez em nossas vidas que ele não cantou junto comigo. Foi um concerto de despedida. A nossa despedida tinha que ser com música e poesia, universo no qual sempre nos encontrávamos.

Saí dali e fui comer um pacu assado de brasa em sua homenagem. Botei bastante pimenta murupi e tomei um suco de taperebá pra aliviar o peito. No dia seguinte, logo cedo pela manhã, papai atravessou o rio da vida. Morreu dormindo, bravo merecedor. Parece que estava só me esperando para seguir à Casa do Infinito. Sincronicidade astral, projeto dos deuses, dádiva da natureza. Ele foi em paz. Estamos de luto, mas em breve cantaremos com alegria, como ele sempre nos ensinou. 


sexta-feira, outubro 30, 2015

IGREJA DE SANTO ANTONIO DE BORBA

Registro minhas homenagens aos amigos Marius Bell e Otávio de Borba, com a reprodução do folheto Histórico da Igreja de Santo Antonio de Borba. Este folheto, sem identificação expressa de autor, foi serviço da Imprensa Oficial, em Manaus, deduzindo-se da sigla D.I.O. 1946 existente na capa.
Foto montagem da Igreja e a estátua do padroeiro 

A reprodução será feita em capítulos. Desde já, porém, concito o secretário de Cultura de Borba a reproduzir este folheto. Obviamente que após os reparos necessários e, se for plausível, acrescido da nova fase da história eclesiástica borbense.

No entanto, ao final do texto, encontra-se a assinatura do então padre Bento José de Souza, que foi vigário dessa paroquia. Assim pela datação e pelo texto final, creio que lhe cabe a autoria: “Confiando na Divina Providência e na proteção de Santo Antonio. Todos têm como certo que nas festas bicentenárias de 1955 e 56, Borba possuirá a mais bela igreja do interior do Amazonas.”

De fato, em junho de 1956, o arcebispo do Amazonas, dom Alberto Ramos, presidiu as solenidades em Borba. Para abrilhantar as celebrações levou os seminaristas e alguns padres. No círculo desses candidatos ao sacerdócio, eu estava presente. Devo acrescentar que conheci o cônego Bento desde essa data até seu falecimento.

Antes da transcrição, um pouco sobre este saudoso sacerdote. Bento nasceu em 2 de maio de 1890, em Cairu-BA (município-arquipélago, formado por 26 ilhas, possui a Igreja e Convento de Santo Antonio, construído a partir de 1653).

Recebeu a ordenação sacerdotal, em Salvador, a 30 de novembro de 1914. Foi cumprir seu ministério em Itajuípe (BA), onde construiu a Igreja do Sagrado Coração e conquistou o povo. Tanto que seus restos mortais foram, por exigência dos itajuipenses, transladados para esta igreja.
 
Recorte do Jornal do Commercio, 31 outubro 1971

Vindo para o Amazonas, acredito que no governo eclesiástico de Dom Basílio Pereira (1925-41) igualmente baiano, foi nomeado vigário das paróquias de Maués e de Borba em 1936. Como seria penoso para um sacerdote cuidar de duas comunidades em municípios tão distantes, em distâncias amazônicas. Dessa maneira, Pe. Bento atendeu aos católicos de Maués por dois anos, para prosseguir apenas na paróquia de Borba.
Daí a explicação para este folheto e as mencionadas festas jubilares.

Manteve sua vida religiosa em Borba, onde também construiu a igreja em homenagem ao padroeiro, hoje elevada ao grau de Santuário. Hoje, devidamente embelezado com a imagem de Santo Antonio de Borba, um elevado labor artístico de Marius Bell.

Cônego Bento retirou-se de Borba para Manaus já adoentado, onde faleceu em 1965, aos 75 anos.