CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

15 de setembro de 2016

CATALINA DA FAB

O Catalina era um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), que operou nos primórdios da instalação dessa Força nessa região, quando o interior assistia ao pouso desta aeronave nos rios e seus afluentes. Deve ter operado até a década de 1970.
Tive a ventura de viajar uma única vez em um Catalina, na rota Belém-Altamira, já se vão mais de 40 anos. Diante de tantos recursos de transporte existentes, confesso, havia esquecido dessa aventura e do Catalina.


Remexendo no Almanaque Municipal Brasileiro (post anterior), nele encontrei, e o transcrevo como homenagem a esse meio de transporte que prestou enorme contribuição a região, como se pode ver pela leitura. Não há indicação do autor, mas creio que foi publicado no extinto jornal Província do Pará.


CATALINA, o “burro de carga da Amazônia”

Em outubro de 1969, o jornalista de A Província do Pará, Pedro Tupinambá, escreveu uma reportagem sob o título acima. Expressiva, real, oportuna, porque ninguém há de ignorar que, efetivamente, o Catalina foi o grande desbravador da Amazônia.

– Se o Douglas é o "cavalo dos céus", como afirmamos em crônica publicada em 1966 – diz Pedro Tupinambá – o Catalina é o "burro de carga da Amazônia", onde as estradas se contam nos dedos da mão, e nos rios – vias líquidas de comunicação – escasseiam as embarcações.

O Catalina, também chamado de "pata choca", relevantes serviços tem prestado ao setentrião e podemos dizer com convicção: é um dos fatores de progresso e desbravamento desta imensa região. Cruzando os céus da planície, ora pousando n’água, ora em terra, ele enfrenta as tempestades ou os rabos de CB com heroísmo e galhardia, pois sabe que de si dependem muitos fatores ligados à sobrevivência na selva amazônica, onde os núcleos populacionais são ilhas perdidas no mar verde.

Há vinte e tantos anos ele tomou a si esse encargo e jamais dele se esquivou ou procurou correr da raia.

Na sua marcha lenta, bem simbolizando o lema do [então] 1°/2° GAV sediado em Belém – "Devagar, mas chego lá" –, lembra uma gigantesca tartaruga voadora, deslocando-se pesadamente pra lá e pra cá, a conduzir padres e freiras, pastores protestantes e irmãs de caridade, militares e arigós, índios e caboclos, pequenos comerciantes e funcionários públicos, magistrados e prefeitos, igualando em seu bojo todas as profissões e cores, credos religiosos e castas sociais, num autêntico desafio aos preconceitos humanos.

Em seus bancos sentam-se, lado a lado, o general e o soldado, o pé-rapado e o secretário de Estado, a madre-superiora e a mulher do povo, o prelado e o ateu.

– E a sua carga, qual é?

Desde a maleta grã-fina, último modelo, ao fardo de charque ou pirarucu, do caixote mal pregado, com gêneros, à gaiola de passarinho; sacos, sacolas, saquinhos, amarrados, caixas de papelão com medicamentos, malas de madeira de todos os tamanhos e feitios; da pele de borracha ou sernambi ao paneiro de farinha ou castanha; do engradado com peças e apetrechos, do saco de farinha de trigo ou açúcar com bugigangas; do tambor de óleo ou gasolina à caixa de ferramentas; dos sacos de lona de EBCT aos papagaios, periquitos, tucanos, araras, tartarugas, tracajás etc.

Em seu interior mistura-se o odor gostoso das madeiras regionais ao cheiro sui generis do pirarucu seco, dos perfumes das ervas aos vapores enjoativos da gasolina.

Quando chega em certos lugares, parece uma arca de Noé, tal a variedade de bichos que transporta.

Muitos têm se arrebentado por aí, menos por culpa sua, do que por outras causas.
Às vezes, na decolagem, quando está muito carregado, ele padece para sair da pista, roncando que nem um animal ferido.

Nas úmidas madrugadas ou nas auroras magníficas, o Catalina parte para suas missões, muita vez com sacrifícios inauditos, para cumprir as rotas dos rios Negro, Solimões, Tirós [sic], Cururu, Purus e Madeira, levando em suas asas (que ostentam a estrela brasileira e as letras da FAB) uma mensagem de civilização e carinho, aos nossos queridos irmãos espalhados pelos quadrantes longínquos da hinterlândia.


A tropa do Exército destacada em Tabatinga, em tempos idos, cantava à chegada do Catalina o "Hino da Pata Choca", acompanhada por uma charanga, a refletir seu reconhecimento e alegria pela volta, sempre ansiosamente aguardada, do avião da FAB àquelas plagas remotas. Era um dia de festas!

As irmãs de caridade do Rio Negro criaram um slogan: "A FAB é nossa". A FAB, na realidade, é das freiras e dos padres, é dos índios e dos caboclos, é de toda a gente deste Brasil imenso, rico e generoso.

Utilizado também no transporte de tropas armadas, de delegações estudantis ou esportivas, o Catalina é pau pra toda obra, incansável no seu mister patriótico ajudando a levar pra frente este gigante que é o Brasil.

Merecedor de nossa estima e gratidão, bem merece um monumento em praça pública, a atestar às gerações futuras o seu trabalho hercúleo e nobre, valioso e heroico.