CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, abril 13, 2024

EDUARDO RIBEIRO: INVENTÁRIO DOS BENS (2)

Busto de Eduardo
Ribeiro
Ainda é possível avaliar a herança deixada pelo ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, morto em 1900, visto que seus bens foram inventariados, tão logo a Justiça teve ciência do seu falecimento. A cópia deste processo encontra-se no acervo do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), dele copiei o quanto se segue. Devido a extensão do documento, acatei a separação dos bens como realizado pelo escrivão do feito, obviamente submetendo à ortografia atualizada. A data e as autoridades processantes são as mesmas relacionadas na postagem anterior. 

Embora a relação seja titulada por “Joias”, nela foram inseridos os mais diversos objetos encontrados na residência do falecido. 

Joias – um cartão de prata com inscrição dedicado por Manoel Correa de Araújo | um cartão de prata, oferecido por Paulo Machado, inclusive uma caixa de pelica | um cartão de prata em caixa de pelica | um cartão de ouro com inscrição da empresa telefônica | um chatelaine de ouro com cinco brilhantes e dez diamantes e uma medalha de ouro também de dezoito quilates com seis brilhantes, no valor de setecentos mil réis | uma medalha de ouro de dezoito quilates, com uma torre, no valor de trezentos mil réis | uma caneta de ouro com pena, de dezoito quilates, com diamantes em número de vinte e dois | um caneta, idem, idem, com doze, onze diamantes em uma caixa de pelica preta, com inscrição em dedicatória ao falecido | duas canetas cabos de madrepérola | um alfinete botão com seis brilhantes | um alfinete com pérolas e um rubi, em forma de espada | um par de botões de ouro com brilhantes, no centro | um botão de peito de ouro com brilhante de dois quilates, para peito | um botão idem, idem de três quartos de quilates para colarinho | um anel de engenheiro com dois brilhantes e uma turquesa | um relógio de ouro número setenta mil duzentos sessenta e três | uma corrente de ouro de dezoito quilates, simples | uma corrente idem, para chave | um porta-joias pequeno de prata oxidada, com dedicatória ao falecido | duas moedas de dois mil réis cada uma | uma moeda de prata comemorativa da exposição de Chicago | quatro bengalas com castão de ouro, sendo três de única cor e uma violeta | um estojo com uma escrivaninha eletro-prata | um estojo contendo um tinteiro | três castiçais | um corta papel | uma caneta | um porta mata-borrão | um peso papel | um carimbo, tudo de prata dourada | um bule de prata para café | um bule idem para chá | um açucareiro idem | uma manteigueira de metal branco com depósito de vidro | um serviço de toalete de metal branco composta de bacia, jarro, porta-sabonete | um porta pó de arroz | um porta escovas | uma garrafa idem, uma xícara e pires idem, dois copos idem, uma esponjeira | alguns cromogramas do falecido | um tinteiro de metal branco, em mau estado | dois pares de porta-flores de metal branco | dois vasos com argolas eletro-prata para plantas | um porta charutos de prata dourada | um estojo chagsein (?) com escrivaninha de prata composta de sete peças | um estojo com seis taças de prata, para champanhe | um estojo para desenho | duas caixinhas com aparelhos matemáticos | dois com retratos, um maior e um menor | uma pasta de cetim bordado a ouro | duas almofadas para sofá, uma bordada a ouro e outra, em matiz | um estojo com dois revólveres e seus pertences | um estojo com um revólver idem | um trânsito(?) | uma caixa com cessante | uma caixa com aparelho geodésico | três tripeças para trabalhos de engenharia | um óculos de alcance | oito estacas de meia | uma escrivaninha japonesa | uma mala de lona, contendo cinquenta e seis camisas bancas de linho | duas dúzias de meias fio de Escócia, usadas e novas| uma bandeira nacional, em mau estado | um caixão com jornais e papeis de correspondências particular | uma lata de flandres, contendo objetos de engenharia e fotografias | quatro caixas contendo livros e papeis particulares | uma cesta de vime usada | três esporas de metal branco | três pares de maçanetas para cortinas | uma mala grande de folha de zinco | uma mala grande | um estojo para o trabalho de desenhos | cinco colchas para cama | seis posteiros de algodão | duas malas de curo contendo um capote de lã e um par de luvas | setenta e três toalhas de linho para mãos | duas colchas | uma caixa com objetos do uniforme militar | quatro candeeiros de suspensão, em mau estado | quinze maços de planta cadastral | dois candeeiros para cima de mesa | dois caixões com jornais e livros | duas bolsas para roupas, uma em mau estado | o machado que foi empregado no corte do fio telefônico deste Estado, na sua inauguração.

E pelo adiantado da hora, suspendeu o Doutor Juiz a presente arrecadação, adiando para o dia de amanhã, às nove horas do dia. 

Nota pessoal: a leitura permite observar que a descrição dos objetos foi realizada de maneira apressada, pois tão sucinto são os detalhes registrados. Nem um escapou à voragem do tempo e dos aproveitadores, tanto que, das 80 peças aqui inventariadas, nada pode ser encontrada no Museu Casa Eduardo Ribeiro, localizado à rua José Clemente. 

terça-feira, fevereiro 14, 2023

AMAZONINO MENDES (1939-2023)

Morto o cacique eirunepeense neste domingo (12), os amigos e admiradores despejaram nas redes sociais todos os tipos de encômios. Ele bem merece! Também vou entrar nesta linha, apenas lembrando alguns fatos pessoais, dos quais estive próximo ao falecido administrador. 

Governador AM, à direita (claro)

Antes, um detalhe histórico: Hoje em dia somente um preso político dos tempos do governo militar de 1964 encontra-se vivo para contar a história: o nonagenário Arlindo Porto. AM (Amazonino Mendes) era outro que passou pelo cárcere do 27 BC, hoje 1º BIS, na estrada de São Jorge. Ainda em novembro passado, pesquisando nos arquivos daquela OM (organização militar), vi a relação dos “comunistas” detidos no livro do oficial de dia. Outro seu parceiro não olvidei, o padre Luiz Ruas (autor do poema Aparição do Clown).

Travei o primeiro contato com o AM, quando este foi nomeado prefeito de Manaus, por vontade do governador Mestrinho, de cuja Casa Militar eu era major subchefe, em 1983. Na oportunidade, uma invasão se apossava das terras junto ao igarapé do Crespo. O prefeito AM montou uma força-tarefa para equacionar o desastre fundiário. Fui indicado pelo governador para integrar esta comissão. Assim, estive em algumas reuniões, mas logo percebi que o prefeito não estava interessado em obstar seus futuros eleitores. Tanto que a invasão se concretizou. 

Em 1997, no centenário da Campanha de Canudos, da qual a força policial do Amazonas participou, editei o livro Candido Mariano & Canudos, cuja impressão foi encargo da EDUA (Editora da Universidade do Amazonas). Para maior brilhantismo da festa que –em recordação de Canudos– anualmente a PMAM realiza, sugeri ao comandante-geral uma gradação da Medalha comemorativa e os nomes, um elenco enorme de nomes para ser agraciados. O coronel comandante foi ao governador AM, que simplesmente mandou a relação dos indicados para o lixo e, de próprio punho, escolheu uma dúzia de “amigos do rei” para a premiação.

Indignado, escrevi uma malcriação a respeito da solução governamental e a remeti à seção Cartas, de A Crítica, que a publicou. E fiz mais, de teimosice, não compareci à solenidade alusiva na Praça da Polícia.

Enfim, quando fui agraciado com a Medalha Tiradentes da PM estadual, tive a ventura de recebê-la das mãos do governador Amazonino Mendes, em seu segundo mandato (1995-98). Desde então, eu virei seu fã.

Como aprendi no seminário: Requiescat in pace, AM.

terça-feira, junho 29, 2021

VILLEROY - 1º GOVERNADOR DO AMAZONAS

A implantação administrativa do Estado do Amazonas, proclamada a República, foi um tanto esdrúxula. Não faltaram disputas de toda ordem, as políticas e as militares foram as mais destacadas, em algumas ocasiões engajando as duas vertentes. Vou lembrar o primeiro governador e sua excêntrica substituição, porquanto Villeroy “desertou” deste ofício, segundo pode-se inferir dos documentos expostos, encerrados no Arquivo Público local.

Augusto Ximeno de Villeroy

Chamava-se Augusto Ximeno de Villeroy (1862-1942) e foi promovido a capitão da Força Terrestre tão logo assumiu a governança. Possuía 28 anos incompletos. Nomeado pelo general Deodoro da Fonseca, presidente do Brasil, frustrou aos políticos locais que se bateram pela queda imperial e, concomitante, pela primazia deste emprego. Villeroy assumiu nos primeiros dias de janeiro e se retirou do Paço da Intendência Municipal e do encargo no Dia de Finados de 1890. Segundo narravam os bondes da cidade, viajou para a Capital Federal a fim de acudir a esposa que se encontrava em Manaus gravemente enferma. Segundo se pode deduzir a partir do registro em monumento existente no cemitério São João, no Ossuário ali construído encontra-se o nome do filho de Villeroy. Terá a esposa dele desenvolvido alguma enfermidade, decorrente do parto e da morte do rebento, deveras grave que a obrigou a se retirar de Manaus?

Circular de 1º nov. 1890 

Ao se retirar de Manaus, o governador fez circular dois documentos: um endereçado aos Chefes de Repartições em 1º de novembro, “convidando-os e aos demais empregados para assistirem, no dia 2, às 10h, a posse do cidadão Dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro para governador deste Estado.”

"Bilhete" de Villeroy para Eduardo 
Ribeiro, em 02 nov. 1890

O segundo, qual um bilhete, escrito de maneira apressada pelo próprio governador, visto as correções ali assacadas, o subscritor assegura que se retira de Manaus “para o Sul da República, com permissão do Governo Central”. Prosseguindo, informa que foi autorizado “em vista de telegrama recebido” daquele Poder. Assim, convida ao Dr. Eduardo Ribeiro para assumir a administração (em seguida, borra esta palavra, e a substitui por “fazenda(?)”) do Estado. Saúda o convidado com S. F. (Saúde e Fraternidade) e rubrica - A. X. de Villeroy.

O desenrolar desta história, já conhecemos.

domingo, outubro 28, 2018

ELEIÇÃO GOVERNAMENTAL (1)

PS. Em complemento à postagem anterior:
Máquina de somar, que
já serviu para contagem
de votos

Acabo de conhecer o resultado das urnas no país. Venceu no âmbito federal o candidato mais que almejado pelos eleitores. Obteve 55% dos votos. Ferido gravemente durante a campanha política, absteve-se de comparecer aos debates entre os candidatos. Marcantemente no 2º turno, atitude que não lhe causou prejuízo.

Outro aspecto desse prélio eleitoral foi a escolha de candidatos “novos”, alguns sem qualquer experiência administrativa, como acontece com o eleito no Amazonas. Ou seja, os velhos foram expurgados, alguns com reconhecido trabalho em prol da comunidade. Não interessou aos eleitores a divulgação dessas benesses, desse progresso, da elevação do bem estar. Nada interessou aos eleitores, a única regra constituiu em derrotar os envelhecidos mandatários, ou no dizer amazônico: os tuxauas políticos.

Esses fatos, e outros de menor intensidade, estimulam uma esperançosa reviravolta nas futuras campanhas eleitorais. Antes, você se lembra?, havia os comícios-show, findaram; os cartazes e os santinhos emporcalhando a cidade, foram cassados; anúncios em mídia impressa foram pro espaço; e outros menos nobres.

Restam a famigerada propaganda política obrigatória, tida como gratuita, e os debates televisivos e radiofônicos. Como se viu, com resultado pífio, estes recursos foram empregados nessa campanha. Os presidenciáveis não debateram no 2º turno, da mesma maneira ocorreu com alguns candidatos ao cargo de governador.  
Saldo desprezível, em razão de que os eleitores escolheram seus representantes sem atentar para essa parafernália de expedientes, sem considerar as lazarentas fakes, sem notar a experiência dos governantes antigos, mas, sim, por ansiar pela inovação. Tão somente. Desse modo, por que a Justiça Eleitoral não nos isenta dessa barafunda?  

Que venham os novos governantes, a fim de desfrutarmos de certa paz!

sexta-feira, agosto 03, 2018

EPHIGENIO SALLES (2)

Mais um trecho da autobiografia deste governador do Amazonas (1926-30), retirado do opúsculo Ao Serviço do Amazonas (Manaus, 1934). Neste espaço, Salles relembra com ampla discrição seu trabalho nas Casas  Legislativas do País, posto que foi deputado federal e senador pelo Amazonas. 
Fragmento da folha de rosto do opúsculo

Afora esses dispositivos orçamentários, várias leis existem e se acham em vigor, de minha exclusiva autoria, sobre assuntos do interesse geral como do interesse regional, tais sejam: a que considerou de utilidade pública a Universidade de Manaus e o Clube da Seringueira; a que concedeu idoneidade às Faculdades de Direito e de Agronomia, de Manaus, primeiro passo para a sua fiscalização e equiparação ulterior, e que constituiu uma assinalada vitória de minha atividade parlamentar, com a elaboração e o concurso inestimáveis, junto ao Conselho Superior de Ensino, dos Dr. [Simplício] Mello de Rezende, de saudosa memória, e desembargador Gaspar Guimarães, ambos professores da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Manaus, de que o último era ao tempo diretor; a que concedeu a subvenção pleiteada pelo Sr. coronel Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, para dar publicidade à sua grande obra acerca das inscrições da América Pré-histórica, que tanto tem preocupado os círculos científicos; a que aumentou a percentagem dos fiscais do imposto de consumo do Amazonas, e a que, anteriormente apresentada, mas somente encaminhada e sancionada já no governo Washington Luiz, reincorporou ao quadro dos funcionários da Fazenda Federal os guardas aduaneiros, sendo por eles hoje intitulada de “Lei Ephigenio de Salles".

Em 1925, quando da reforma constitucional de Arthur Bernardes, um episódio se verificou, que bem demonstra o desassombro com que sempre me bati pelos direitos do Amazonas. O leader dessa reforma na Câmara, o eminente senhor Herculano de Freitas, convocara uma reunião dos demais leaders, no Palácio do Catete, onde o presidente da República fez sentir a necessidade de serem retiradas as emendas já oferecidas, pelas diferentes bancadas, ao anteprojeto enviado ao Congresso.

Falando em nome da representação amazonense, declarei para logo, sem hesitações, que não retiraria as que havíamos apresentado, eu e os meus dignos companheiros de bancada, senhores Dorval Porto, Alcides Bahia e Monteiro de Souza, subscritas, de resto, por mais de cinquenta outros deputados, se o governo, por seu turno, não fizesse cancelar do anteprojeto a figura constitucional do “Território”, ali criada expressamente com o objetivo de degradar o nosso querido Amazonas.

Desse ponto de vista não me afastei uma linha, embora os insistentes apelos que, no momento, me fizeram não só o Presidente como o leader Herculano de Freitas. E foi mercê da minha intransigência irredutível e do apoio leal dos meus colegas de representação, que o governo resolveu eliminar da reforma aquela anômala entidade, com que obtivemos uma vitória fragorosa para o nosso estado, salvando-lhe a personalidade política e mantendo-lhe as prerrogativas de autonomia no seio da federação brasileira. (De passagem revela não esquecer que a Constituição atual, de 16 de julho, cogita expressamente da formação de "Territórios", no seu art. 1º, e ninguém ignora a ameaça que pesa sobre a autonomia, hoje mais do que nunca periclitante, do Amazonas). 

terça-feira, julho 31, 2018

EPHIGENIO SALLES (1)

Prosseguimento do capítulo sobre a vida deste governador do Amazonas (1926-30), compartilhado de Ao Serviço do Amazonas (foto).



Voltei, como sempre, a mourejar na imprensa, até 1907, quando resolvi embarcar para o Rio, no propósito de reencetar os meus estudos de Direito, interrompidos de início, à falta de recursos. Matriculado desde então, regressei ao Amazonas, de onde me transportava à capital da República, ao fim de cada ano letivo, para prestar exames de segunda época.

Agrava-se em 1910 a situação política do Estado. Precipitam-se os acontecimentos e, de tal forma, que, à noite de 7 de outubro desse ano, pernoitávamos eu e o então deputado Dr. Monteiro de Souza, além dos Drs. Pedrosa Filho e Pedro Guabiraba; tenente-coronel Manoel Carvalho, conde Marco de Panigai, major José Lins e Aristeu Rocha, no quartel da força pública do Estado, então comandada pelo intrépido coronel [PM] Pedro José de Souza (e hoje dissolvida em circunstâncias lamentáveis), entrando a participar da resistência heroica ao bombardeio de Manaus, levado a efeito, desde as primeiras horas do dia 8, por cinco navios da Marinha de Guerra, surtos em nosso porto, pelo 19° Grupo de Artilharia e pelo 48º BI do Exército.

De arma em punho, como simples soldado, defendi a ordem legal e a autoridade constituída, na pessoa do então governador, coronel Antonio Bittencourt, com quem éramos todos solidários. E diz-me a consciência que cumpri, com destemor e desinteresse, um dever elementar de lealdade e de patriotismo.
Em novembro de 1910, fui provido, por concurso e vitaliciamente, no cargo de distribuidor e contador geral do Foro, cargo de que vim a ser exonerado, após a revolução de 1930, por ato do então interventor Álvaro Maia, ex-diretor da Imprensa Pública no meu governo, e a quem eu igualmente nomeara lente das duas cadeiras de que é proprietário, no Ginásio Amazonense Pedro II.

Já formado em Direito e sem prejuízo das minhas obrigações forenses, assumia, em fevereiro de 1912, a direção do “Diário do Amazonas”, que, de órgão do partido dominante, se transformara em jornal independente, sustentando a candidatura do senhor Monteiro de Souza à sucessão do coronel Bittencourt, no governo do Estado.

* * *

Candidato avulso, logrei eleger-me, em 1914, a primeira vez, para a Câmara dos Deputados, integrando a representação federal do Amazonas.

E como deputado federal aqui me encontrava, em 14 de janeiro de 1917, quando se verificou o movimento armado que visava impedir a posse do Dr. Alcântara Bacelar, eleito governador do Estado para suceder ao Dr. Jonatas Pedrosa. Mais uma vez, compreendi que não podia faltar com o meu concurso à defesa da autoridade e da lei.

Dirigi-me, por isso, incontinenti ao palácio do governo, hoje sede da administração municipal, e em ali chegando, na companhia dos Drs. Pedrosa Filho, Mario Sá e Alberto Corrêa, major José Soares, Raimundo Neves, Jaime Baird e Aldovar de Sales Vitor, tratei de aparelhar a resistência legal, guarnecendo, eu mesmo, uma metralhadora assestada à porta principal do edifício, enquanto os companheiros ocupavam posições estratégicas, armados de rifles e fuzis, para repelir o assalto.

EPHIGENIO SALLES

Capa do folheto
Efigênio Salles foi governador do Amazonas no quadriênio 1926-30. Nascido em Minas Gerais, desembarcou ainda jovem na "capital da borracha", e nela fez amplo progresso. Ele próprio conta sua rocambolesca passagem pela vida, no folheto Ao serviço do Amazonas, publicado em 1934. 
A reprodução deste será feita em etapas.

Título geral do capítulo



Limitar-me-ei, todavia, a uma simples enumeração de fatos, expostos à luz da verdade sabida de todos, com referência precisa a datas, figuras e documentos, mas em geral desacompanhados de quaisquer comentários, que, aliás, não comportaria a natureza sucinta desta narrativa.

Trata-se apenas de avivar, na justa oportunidade, o que está na consciência dos bons amazonenses, sem atenção e com desprezo absoluto aos desmemoriados, que se negam a si mesmos, negando a própria evidência do dia de ontem.

*  *  *
Cheguei a Manaus em abril de 1896, com 17 anos de idade apenas e sem nenhuma carta de apresentação ou recomendação, como um pobre imigrante que era, dentro do meu país. E aqui aportando, iniciei desde logo a minha vida, muito modestamente, como mero aprendiz de tipógrafo nas oficinas do Diário Oficial do Estado. Mas, logo no ano seguinte, regressava ao Rio, precisamente quando mais intensa ia a luta de Canudos, entre os fanáticos de Antonio Conselheiro e as tropas do governo, constituídas de batalhões do Exército e das forças policiais de diferentes unidades da República. Moço, cheio de ardente civismo, imediatamente ingressei na coluna Arthur Oscar, seguindo para a Bahia incorporado ao 22° BI, sob o comando do coronel Bento Thomaz Gonçalves e, em seguida, por substituição, do seu bravo fiscal, major Lydio Porto, debaixo de cujos ordens servi até vitória final dos legais. Terminada essa sangrenta biela, de tão doloroso registro na história dos primeiros dias do regime, voltei ao Amazonas.

Dispondo, já então, de um círculo maior de relações, fui convidado pelo major Euzébio Caldas, gerente do jornal “Amazonas”, para incumbir-me, como repórter, da parte noticiosa daquela folha, dirigida e redigida, à época, pelos saudosos amazonenses, coronéis Antonio Bittencourt e Antonio Salgado dos Santos. Fastidioso fora rememorar, nestas linhas, a crônica do velho e tradicional órgão de publicidade, que durante certa fase foi forçado a suspender sua publicação. Seria necessário volver toda uma página movimentada da vida política do Estado. É tarefa para o historiador de amanhã.

Entre 1898 e 1899, no governo Ramalho Junior, partia eu para o Acre, em companhia de Luiz Galvez Gonçalves d'Arias, afim de tomar parte na reação que, sob a orientação do mesmo Galvez, ali se organizou para expulsar os bolivianos que haviam invadido a região, de lá desalojando grande número de famílias brasileiras, cearenses, naquelas paragens radicadas desde muitos anos.
Não há lugar também, aqui, para a rememoração desse capítulo.
Gravemente enfermo, desci do Acre, diretamente com destino ao Rio de Janeiro, de onde tornei a estas plagas, de meados para o fim de 99, retomando o meu obscuro posto de auxiliar da imprensa, na redação do “Amazonas”.

Eis que, já no governo Silvério Nery, são os acreanos de novo deslocados de suas antigas propriedades, vindo refugiar-se nas cercanias de Puerto Alonso, um pouco abaixo da linha Cunha Gomes, em Caquetá, Esperança e outros pontos. Tangiam-nos, ainda uma vez, os bolivianos, comandados pelo general Rojas, com a presença até dos generais Pando e Monte, aquele presidente e este ministro da guerra da Bolívia.

A opinião brasileira, como é natural, alvoroçou-se com esses sucessos de repercussão viva e imediata na capital amazonense, onde para logo se formou uma expedição patriótica, sob os auspícios do governador Silvério Nery e direção do denodado Dr. Orlando Corrêa Lopes.

Não vacilei em participar espontânea e entusiasticamente dessa coluna, que se compunha de elementos de escol no jornalismo e nas letras, e tenho o orgulho de ter sido nela o voluntário número 1, ao lado de vultos brilhantes, logo depois incorporados, tais, entre muitos outros, o grande Plácido de Castro, que viria mais tarde a desempenhar papel de extraordinária relevância nos acontecimentos do Acre; João Barreto de Menezes, José Maria dos Santos, comandante Pery Delamare, Trajano Chacon, Ribeiro de Castro, José dos Anjos, Arnaldo Machado, Guilherme Souto, Inácio José de Carvalho, Gentil Norberto, Avelino Chaves, para citar dos maiores alguns já desaparecidos, e bem assim o atual diretor-proprietário da “União Portugueza”, senhor Manoel Domingos dos Passos Gomes na gloriosa jornada, dizem mais alto que tudo as promoções que sucessivamente obtive, passando de cabo-sargenteante da primeira guerrilha, posto em que daqui saíra, a capitão assistente do cominando geral de todas as forças acicatais, e sempre por atos de bravura em árduas refregas e no desempenho de arriscadas missões de que fui encarregado. 

Em princípios de 1901, baixava, porém, a Manaus, com outros companheiros na causa comum, e isto por solidariedade ao comandante em chefe das nossas tropas, Dr. Orlando Lopes, em divergência, com o comando de algumas unidades provisórias organizadas pelos próprios elementos da região.