CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, novembro 14, 2022

VINICIUS RUAS (1924-2022)

 Conheci este artista (dos pincéis e do tatame) através da Internet, depois que publiquei sobre o saudoso padre-poeta Luiz Ruas (seu primo); no contato ele me enviou o endereço e a convocação para uma conversa. Era um sítio em Niterói, cercado com lembranças de Manaus, onde ele nascera, filho do artista Branco Silva. Também foi pelas redes sociais que conheci seu falecimento, dia 11, aos 98 anos.

Tela intitulada "Careiro"


Foram ao menos três visitas ao tapiri do Sensei 8º Dan, e mestre dos pinceis e tintas, com muitas histórias para contar. Mostrou-me os seus arquivos, fotografei o quanto pude e já compartilhei neste Blog. Por fim, presenteou-me um quadro que recria uma cena clássica de nossos igarapés, dedicando a este "historiador" com sua autoridade de Doutor acadêmico. Fecha-se assim o ciclo da família de Branco Silva. 
Até a eternidade, Vinicius.

Transcrevo parte da notificação da Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro:
 

Nota de pesar

falecimento do Sensei Vinicius Ruas

 2  Diano Massarani  0 comentários

A Federação de Judô do Estado do Rio de Janeiro informa, com grande pesar, o falecimento, aos 98 anos, do Sensei Vinicius Ruas Ferreira da Silva, kodansha 8º Dan. Um homem admirado por ter sua trajetória confundida com a própria história do judô e do jiu-jitsu no Brasil.

Com 14 anos, em 1938, Vinicius Ruas começou a praticar as artes marciais em Manaus, com o japonês naturalizado brasileiro Antônio Soshihiro Satake, que ao lado do Conde Koma, foram os grandes discípulos da segunda geração da Kodokan responsável por espalhar a “arte do Caminho Suave” pelo mundo. Satake é considerado por muitos o primeiro japonês a abrir uma academia de Judô/Jiu-jitsu no Brasil, o Atlético Clube Rio Negro, na capital do Amazonas. Vinicius Ruas é um dos principais e mais respeitados discípulos do mestre Satake.

Se mudou para o Rio de Janeiro onde se dedicou a repassar tudo que havia aprendido. Ligado ao Clube Sion até o final de sua vida, também foi presidente da FJERJ. É Doutor em Educação Física e Desportos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde, em 2013, foi nomeado Professor Emérito por sua vida atuando, principalmente, no Judô Infantil e pelas características particulares de sua forma de ensinar. Também por isso, foi convidado a ministrar palestras em diversos locais, como a Universidade do Porto, em Portugal.

Um verdadeiro artista dos tatames e do ensino, não foi apenas à arte do Caminho Suave que Vinicius Ruas se dedicou. Filho do artista plástico Branco Silva e primo de falecido padre-poeta L. Ruas, em seu sítio, em Niterói, deixou vir à tona a veia de artista plástico, como no quadro abaixo.

O legado nas artes de combate foi repassado a Marco Ruas (filho do primo de Vinicius, mas considerado um sobrinho do sensei), segundo brasileiro a ser campeão do UFC e famoso por ter fundado a equipe Ruas Vale Tudo e o conceito de cross-training, que preconiza que para se manter no topo do MMA é necessário se aperfeiçoar em várias modalidades.

terça-feira, abril 02, 2019

CASCO DE BRANCO SILVA


Já publiquei neste espaço sobre a morte do artista plástico Branco Silva, acontecida em 12 de fevereiro de 1959, portanto, há sessenta anos.


Pouco, muito pouco existe dele em Manaus, lembro de uns quadros no IGHA e outros na Pinacoteca do Estado. Há cinco anos, tomei contato com seu filho Vinicius Ruas (93a), que reside em Niterói-RJ. Em duas ou três visitas a este, conheci algo mais sobre o criador do Presépio Maravilha.
Nesses dias, graças a Internet, sou solicitado a escrever sobre nosso saudoso artista, quando Gustavo Gurgel, de Minas Gerais, me interpela sobre o achado em museu de Portugal.

Cheguei ao seu e-mail através de seu blog porque estive pesquisando sobre o artista Branco Silva. Chegou ao meu conhecimento a existência de uma peça disponível no Museu da Presidência da República, em Portugal, cuja descrição do artista cita esse nome, Branco Silva.
A peça é um óleo sobre carapaça de tartaruga disponível no salão de presentes de Estado daquele museu, ofertado aparentemente em 1957 pelo governo do Brasil ao Chefe de Estado de Portugal. Desejo conhecer mais sobre o histórico desse objeto.

Em outro e-mail, Gurgel envia o endereço da descoberta:

O casco de tartaruga está exporto no Museu da Presidência da República, em Portugal. Você pode vê-lo através do tour virtual existente no portal da instituição na internet.
Link do portal direcionando para a 

Completa Gurgel:
Está identificado como Óleo sobre casco de tartaruga, Branco Silva, 1957. Fiquei maravilhado com a peça. Alto nível de representatividade e informação; além, claro, da beleza singular. 

Feito o registro. Lembrando que o presente foi entregue ao presidente de Portugal, Craveiro Lopes, quando de sua passagem por Manaus, em 1957, ocasião em que efetuou uma visita ao Brasil.



domingo, dezembro 16, 2018

PRESÉPIO DE BRANCO SILVA


Aproveitando a proximidade do Natal, quando ainda se cultua a representação do nascimento de Jesus, vou relembrar o autor do mais expressivo presépio construído em Manaus, infelizmente desaparecido. Trata-se do Presépio Maravilha, de autoria do saudoso mestre das artes plásticas - Branco Silva.

Branco Silva
Mais conhecido pelo seu presépio do que pelas suas telas, Branco Silva (comumente alcunhado de Branco “e” Silva) na vida real chamava-se Leovigildo Ferreira da Silva. Amazonense, nascido no Seringal São João, nas barrancas do rio Purus na entrada do rio Tapauá, em 1892, era filho de um rico comerciante português que fez fortuna na época como exportador de borracha.

Para esta relembrança transcrevo uma página que me ofertou seu filho, Vinicius Ruas, sacada de seus alfarrábios, cujo texto recorda uma proeza de seu genitor. Informo que não há identificação do órgão, nem data. Porém, esta publicação e relativos anúncios foram impressos no Rio de Janeiro, por ocasião do 36º Congresso Eucarístico Internacional (julho 1955), ocasião em que Branco Silva teve seu presépio exposto.
  
Recorte da publicação

 RACHEL de Queiroz, a fulgurante estrela da constelação literária do Brasil, esse espírito brilhante que todos aplaudimos e admiramos, teve ocasião, numa de suas crônicas de jornal, de dizer de sua estranheza por não ter o Brasil um presépio de Natal à altura de suas tradições católicas, que se coadunasse com o espirito essencialmente cristão de nosso povo.
É natural que mesmo um grande conhecimento de nossa terra e de nossa gente, aliados à cultura da notável cearense haja cometido tão grande equívoco. Não fosse o Brasil “esse gigante pela própria natureza”, essa enorme extensão de terra!
Se citamos Rachel e a crônica é apenas para mostrar aos leitores como, mesmo uma cultura privilegiada tal a da autora de “O Quinze”, pode cometer um equívoco desse jaez. Por aí também se verifica como é grande o desconhecimento das coisas do país!
Fotos da página

Quando chegamos ao Amazonas a fim de fazer a cobertura jornalística de uma excursão empreendida por estudantes cariocas e paulistas às misteriosas regiões amazônicas, tivemos nossa atenção despertada para uma das partes do programa de visitas que aludia a um certo “Presépio Maravilha”. Mesmo ao penetrarmos no recinto onde se encontra localizado o presépio, tínhamos a impressão de que iriamos encontrar uma dessas miniaturas a que se acostumaram os cariocas. O que se nos deparou, porém, foi algo diferente de tudo o que já viramos. Diante de nós estava numa sala enorme, um presépio enorme sem similar no mundo inteiro.
Todas as personagens, trabalhadas por mãos de mestre, trajavam riquíssimas roupas e eram de tamanho normal. Apresentavam o máximo de naturalidade possível. Os pastores, o arabiano, os Reis Magos e Nossa Senhora, debruçada sobre o Menino Jesus eram alguma coisa de comover um frade de pedra. A um canto, uma pequena cascata jorrava água que, tal qual como um conto de fadas, se transformava em rubis e esmeraldas. Os carneiros, o galo, os camelos, o rei negro e o branco, um enorme elefante, duas pombas, o jumento, todos de tamanho normal, fazem do presépio Maravilha a mais perfeita reconstituição do nascimento de Cristo.
Enquanto a água corre pela pequena cascata e se transforma em rubis e esmeraldas, o elefante levanta a tromba e saúda Cristo, o galo canta, as pombas arrulham e os carneiros fazem ouvir seus balidos. Uma música natalina belíssima toca em surdina, trazendo ao ambiente um misto de respeito e comoção inevitáveis.
Ao fundo, um quadro representando a morte de Cristo, com os relâmpagos fazendo ato de presença, compunham um dos mais belos quadros a que já tivemos a sorte de assistir. Ali estava numa das mais brilhantes facetas do engenho humano, toda a magnificência, toda a beleza do sublime nascimento do Salvador da Humanidade. 
Quando chega o Natal, o presépio Maravilha abriga em seu seio milhares de pessoas que ali vão para sentir as emoções indizíveis que tal trabalho provoca. 
Depois daqueles momentos de observação atônica, pedimos a Branco Silva, o autor daquela obra de arte, que nos dissesse os motivos que o inspiraram a compor o presépio. Figura simples, Branco Silva nos disse que, quando pensou em compor o presépio, desejou apenas preencher uma lacuna já que, anteriormente, não havia no país uma composição do nascimento de Cristo que pudesse fazer as delícias de adultos e de crianças.
Não é a primeira vez que um visitante eventual do presépio se maravilha com o que vê. Pascoal Carlos Magno, em sua recente estada no Amazonas, teve ocasião de visitar o ateliê de Branco Silva, e, como nós, extasiar-se com o que viu. Os príncipes de Orléans e Bragança também lá estiveram e sua surpresa e comoção não foram menores que as nossas. Prometeram, mesmo, enviar a Branco Silva uma crônica em que dariam suas impressões porque, naquele momento, não tinham palavras com que dissessem o que lhes ia n’alma.O general Mendes de Moraes, quando Prefeito do Distrito Federal dirigiu a Branco Silva um convite para que trouxesse o presépio ao Rio de Janeiro, pondo à disposição do autor o Teatro João Caetano. Além desse honroso convite, Branco Silva teve um outro de pessoa ligada ao governo português que desejava, a todo transe, transferir o presépio para Lisboa. Mesmo do Vaticano chegou uma tentadora proposta para exibição na terra do Papa.
Além do presépio, Branco Silva tem dois outros trabalhos notáveis — um, Lendas e Fatos da Amazônia, outro, A ceia de Cristo, ambos norteados pelo mesmos propósitos do que hoje focalizamos, com a mesma movimentação, com a mesma arte. 
Anúncio circulado
Branco Silva, porém não se limita apenas à fazer trabalhos de escultura como são o presépio, a ceia e lendas e fatos da Amazônia. No seu ateliê se encontram lindos quadros, baseados em fatos da região, pintados com o coração de um amazonense que ama sua terra, sua gente e seus costumes.
Pena é que a ceia e lendas e fatos estejam atualmente desmontados, por falta de espaço. Quando se abrem as portas de todas as instituições para a chamada “arte moderna”, esse amontoado de sandices que os próprios autores não entendem, é de lamentar-se que um pintor como Branco Silva, tendo em sua bagagem verdadeiras obras de arte, esteja lá no longínquo Amazonas, sem oportunidade, sem possibilidade de mostrar sua capacidade criadora, de que o presépio é uma pálida amostra.

sábado, janeiro 06, 2018

BRANCO SILVA (1892-1959)

Vinicius Ruas, Niterói-RJ, em 2016
Transcrevo neste post o folheto sobre este saudoso grande artista, a mim ofertado por seu filho Vinicius Silva, residente em Niterói (RJ). Não se trata de uma biografia ou arte semelhante, porém registros de lembranças filiais.

Aos 93 anos, Vinicius segue colecionando troféus, ainda em dezembro passado esteve em Manaus para receber uma homenagem.



Mais conhecido pelo seu presépio do que pelas suas pinturas, Branco Silva (que é comumente chamado de Branco “e” Silva) na vida real chamava-se Leovigildo Ferreira da Silva. Amazonense, nascido no Seringal São João, nas barrancas do rio Purus na entrada do rio Tapauá, em 1892, era filho de um rico comerciante português que fez fortuna na época como exportador de borracha.

Com um ano e meio de idade viajou para Europa acompanhado de suas irmãs, de alguns parentes mais próximos e dos velhos. Fez o curso primário em Berna [Suíça], depois estudou em Lisboa, no Liceu de Artes e de Ofícios e Artes.

Com a queda da borracha, seu pai mandou buscá-lo de volta para Manaus. Além disso, Branco já estava na idade de servir ao Exército. No 27º BC teve como companheiros Álvaro Maia [que foi interventor e governador do Estado] e Américo Antony [competente poeta].

Ao chegar a Manaus ele sentiu-se como um "peixe fora d'água", explica o filho. "Ele vinha de um meio intelectual mais sofisticado, falava e escrevia bem o espanhol, o francês e o alemão. Montou o ateliê de pintura, trabalhou como cenógrafo e produziu placas para o comércio de Manaus, além famoso pelas decorações que fazia para as festas de Carnaval dos Clubes".

Branco Silva, tela existente
no ateliê do filho
Além do ateliê, ensinava e produzia pinturas, Branco Silva gravitava em torno das iniciativas privadas dos europeus funcionando como intérprete.
Segundo seu filho, o presépio que Branco Silva começou a esculpir em 1929 funcionava como “caça-níqueis" que ajudava seu pai a sustentar a família. Para visitar o presépio era cobrado ingresso e o público não se cansava de admirá-lo. Fora da época natalina eram apresentadas cenas de amazônicas feitas por ele em papel-marché também mediante pagamento de ingresso.

Os navios que faziam a rota para Manaus incluíam no seu roteiro turístico uma visita às exposições do Branco Silva.

Em determinada época da sua vida, o pintor partiu de Manaus para fazer um levantamento das propriedades da família no Purus. Ali passou um ano inteiro. O contato com a exuberante natureza r a para sempre a sua obra paisagista.

Nos anos 40, através da sua amizade com Ademar de Barros (na época, governador de São Paulo), Branco Silva sai do Amazonas. 


Atualmente em Manaus encontram-se pouquíssimos quadros pintados por Branco Silva. Seu filho ofereceu a explicação para o fato dizendo que, na partilha dos bens, os quadros ficaram com seus irmãos que moram em Manaus, com ele ficou o presépio.