CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, fevereiro 09, 2024

CONTO DO VIGÁRIO

Dom João, ao lado do
governador Mestrinho, 
na inauguração da
Maternidade
 Se em nossos dias as falcatruas, quase sempre realizadas pelos meios eletrônicos,  nos angustiam, a leitura desta crônica talvez nos ensine algo. O autor, Ildefonso Pinheiro, comerciante abastado e homem crente na palavra do outro, conta-nos dois “contos do vigário” que sofreu. Na Manaus de 1970, quando todos se conheciam. Curioso: um dos “contos” utilizou o nome do arcebispo de então – dom João Souza Lima.

 Manaus, cidade pacata, está atualmente cheia de vigaristas e chantagistas que, com truques premeditados assaltam as pessoas marcadas com os seus laços bem armados. As suas armadilhas não podem falhar porque são feitas com bases seguras. Somente os Santos podem escapar.

Estou falando desta maneira porque tive o despreza de receber telefonemas como passo a descrever: Sr. Ildefonso, aqui fala o Dr. Roberto Farias, do Banco de Sangue do Hospital Ana Nery, que se encontra com um caso sério e urgente a resolver, sobre a vida da Sra. Maria de Lourdes de Oliveira que se encontra hospitalizada na Maternidade “Ana Nery” (hoje Balbina Mestrinho).

Sr. Ildefonso, para atender esta causa precisamos de um litro de sangue e aqui no hospital não o temos. Há, sim, no Hospital São José e custa a quantia de cento e trinta cruzeiros novos. Gostaria que o Sr. viesse até aqui ao hospital para ver a miséria que está reinando nesta casa de saúde. Quem me indicou foi o Dr. Gesta, dizendo-me sue o Sr. não se negaria a socorrer-nos neste caso melindroso, que pela urgência exige a colaboração de pessoas bem formadas e que tenha a noção da dor do seu semelhante.

Dez minutos mais tarde, novo telefonema de aflição:

Sr. Ildefonso, o sangue de que lhe havia falado, só tem em medida de dois litros. Estamos à procura do Fernando Monteiro que não está sendo encontrado para nos dar os outros cento e trinta cruzeiros novos, para que assim possamos comprar os dois litros de sangue. Será que o Sr. pode mandar os duzentos e sessenta cruzeiros novos? que logo que encontrarmos o Fernando lhe devolveremos

Diante de tal exposição, respondi-lhe que mandassem buscar duzentos e cinquenta cruzeiros novos. Ele respondeu-me que estava bem, pois, os dez cruzeiros, eles arranjariam. Poucos minutos depois, chegou um mensageiro ao meu estabelecimento, com um recibo cujo teor é o seguinte:

Recebi da Firma Ferragens Pinheiro, na pessoa do Sr. Ildefonso Pinheiro, a importância de duzentos e cinquenta cruzeiros novos, para pagamento de 2 litros de sangue “O” positivo como patrocínio a Sr. Maria de Lourdes de Oliveira, que se encontra hospitalizada na Maternidade “Ana Nery”. Manaus, 7 de janeiro de 1970

Roberto Farias Filho – Chefe do Banco de Sangue.

Meia hora depois, novo telefonema:

Sr. Ildefonso, aqui fala o arcebispo João de Souza Lima, do hospital “Ana Nery” onde estou assistindo cenas verdadeiramente dramáticas e contristadoras para os que se reverenciam diante da dor alheia. Existem aqui casos que precisam ser resolvidos urgentemente e que exigem a colaboração minha e de todos aqueles que têm o espírito voltado para o amor ao próximo. O que estou vendo aqui, obrigaram-me a recorrer a pessoas amigas como o meu nobre amigo. Os casos que estou vendo precisam ser resolvidos imediatamente, porque são criaturas que estão em risco de perderem a vida, por falta de sangue e alguns remédios. Preciso urgente de trezentos e noventa cruzeiros novos.

Diante de tal exposição feita por S. Exa. D. João de Sousa Lima, arcebispo metropolitano de Manaus, prontifiquei-me imediatamente dizendo que mandasse buscar quinhentos cruzeiros novos, invés de trezentos e noventa cruzeiros novos, para atender mais alguém que precisasse de tal colaboração.

Em poucos minutos, chegou ao meu balcão um novo emissário para receber a encomenda do Sr. Arcebispo. No dia seguinte, fiquei ciente de que o Sr. Arcebispo Não me havia telefonado e de que, também, fora burlado por esses salteadores, que precisam ser desmascarados para que esses planos diabólicos não continuem a envolver nomes de pessoas dignas em roubos e falsificações.

É assim que estamos vivendo, caros amigos, sofrendo as astúcias de vigaristas que vivem a planejar assaltos sobre aqueles que pensam no bem-estar dos seus semelhantes e têm a noção do sofrimento dos que vivem a carpir a vida na fome e na nudez.

Aos meus amigos vigaristas, uma pequena advertência. Diz o velho adagio popular: “O cântaro tanto vai à fonte, até um dia que lá fica”. 

quinta-feira, abril 14, 2016

JORGE DE MORAES (1872-1947)

Moraes foi um excelente prefeito de Manaus (1911-13), segundo os memorialistas da cidade seus
Jorge de Moares
contemporâneos. Um deles, Ildefonso Pinheiro, é o falecido autor do artigo que compõe esta postagem. A circulação deste ocorreu no centenário matutino Jornal do Commercio, edição de 6 de fevereiro de 1972. 


RECORDANDO O PASSADO

Ildefonso Pinheiro


O Dr. Jorge de Moraes foi no meu tempo de rapaz, um dos homens mais impressionantes e sedutores que conheci. O seu ser era um conjunto de beleza que se harmonizava dentro do ritmo, e da harmonia espiritual. Vestia-se elegantemente com indumentárias colhidas nos mais perfeitos figurinos parisienses e londrinos onde a casimira e as sedutoras gravatas se salientavam a impor-lhe respeito e encanto pelo gosto.
Este homem era médico; um médico muito viajado e, como tal, granjeou grande nomeada, na medicina. Foi o maior cirurgião operador da sua época. Ainda hoje existe na Beneficente Portuguesa uma sala de operação em homenagem a sua afeiçoada dedicação à medicina.

A sua cultura assombrosa fez com que os políticos da época o afastasse da medicina, levando-o para a Câmara Federal onde ele, com a sua rutilante e privilegiada oratória, fizesse-o dentro daquele recinto um representante excepcional, a exaltá-la, pelos grandes conhecimentos que era possuidor. Já na Câmara, em pouco tempo tornou-se líder entre os seus pares, pelos dotes de que era senhor e por todos os requisitos com os quais Deus o constituiu. Era um homem de luz, saber e de um poder de atração que se manifesta nas criaturas, pela criação divina.

A sua estada na Câmara não durou muito tempo porque a complexão da sua cultura e a sua expressiva facilidade de oratória, fizeram com que fosse conduzido ao Senado. A sua entrada no Senado foi triunfal, revestida de todos os galhardões com os quais um gênio privilegiado podia ser premiado. Como senador também chegou a ser um líder. Foi o mais querido e admirado por todos os colegas e pelos homens de imprensa.
Neste caminhar de ascensões e de glórias, foi indicado pelos seus pares para saudar Georges Clemenceau, presidente do conselho da França, na beleza e na sedução do idioma de Vítor Hugo, que possuía uma castidade sábia de confeccionar e harmonizar as imagens, com um brilho fascinante!

Esta saudação ainda hoje se encontra vibrante, nas antologias, a convocar a mocidade para estudá-la e senti-la na beleza do seu conteúdo.
Entre todas essas ascensões, o maior desejo de Jorge de Moraes, era ser prefeito de Manaus, para dar a sua terra o encanto e a realeza que ele havia visto e sentido nos grandes centros europeus. Assim, como homem de gosto e apaixonado pelas coisas belas, deixou o Senado e veio administrar a Prefeitura de Manaus. Como Prefeito, teve ação e ordem, no cumprimento da lei.

As saudosas recordações vivem ainda hoje na lembrança daqueles que, como Jorge de Moraes, sonham realizar obras que tenham continuadores conscientes dos deveres e do amor ao Brasil. Embelezou as ruas e cuidou da limpeza com grande carinho. Mandou vir para Manaus um carro-pipa para jogar água nas ruas, nas tardes de verão. O jardim da Catedral (antiga igreja da Matriz), mantida pela Prefeitura, tinha um belo plantio de fícus-benjamins, donde retiravam as mudas para o plantio na cidade. Ali se plantavam também uma grande variedade de rosas e de cravos.

As nossas ruas e praças tinham os seus fícus-benjamins podados por exímios podadores, dando um aspecto impressionante à cidade. O chafariz que ainda hoje se encontra na Praça Osvaldo Cruz, foi uma das suas grandes realizações. O nosso Mercado Municipal primava na limpeza e na arrumação. Tudo ali era feito com gosto e arte.

Ele encontrou a Prefeitura, na sua parte financeira, completamente desiquilibrada. Procurou manter a ordem com a lei que impõe o cumprimento do dever. Essa imposição causou celeuma entre os políticos que se escusavam de o ajudar na sua ação construtiva; pagando os impostos daquilo que era devido à Prefeitura.

Com isto, incompatibilizou-se com os seus coestaduanos. Voltou a clinicar; mas, por novas imposições políticas, voltou ao Senado em 1928. Em 1930, quando veio a revolução, perdeu o seu mandato por força da lei. Nesta data começou a sua odisseia, como se pode sentir nesta narração de Viriato Corrêa:
"No penúltimo domingo, num fim de tarde chuvoso e melancólico, numa rua de Santa Tereza, morreu o Dr. Jorge de Moraes. E morreu em completa obscuridade e em extrema pobreza.
De tudo que Deus botou neste mundo, senhores, a coisa mais feia é a vida. A gente não sabe nunca o que ela é. O homem que, na tarde daquele domingo, morreu angustiado, foi uma das criaturas mais brilhantes e mais impressionantes e mais curiosas que já passaram pelos meus olhos.
Nestes mistérios se desenvolve a existência das criaturas em sua passagem pela terra; sem uma definição sequer da vida, porque somente Deus pode defini-la.”

Até a rua onde ainda hoje existe o antigo e belo palacete que foi do Dr. Jorge de Moraes, deixou de ser Jorge de Moraes para ser Rui Barbosa.


PS. Em homenagem a este prefeito da Capital, seu nome identifica o mercado municipal no bairro de Educandos. 

segunda-feira, novembro 23, 2015

RAMAYANA DE CHEVALIER

Ildefonso Pinheiro, saudoso nordestino que venceu no Amazonas, revelou-se como abastado comerciante, mas igualmente como cronista em seu tempo.

Contemporâneo de Ramayana de Chevalier (foto), traçou na edição do Jornal do Commercio (3 setembro. 1972) uma apreciação sobre aquele médico. Muito mais que médico, Chevalier foi um intelectual competente, que prevaleceu ao tempo do governo de Getúlio Vargas, a quem defendeu com veemência nas redações de jornais da Capital da República.


Recordando o Passado

Ildefonso Pinheiro

Antes de falar em Ramayana de Chevalier, é preciso recordar o antigo Instituto Chevalier onde o seu pai, professor José Chevalier fincou o marco conclamador do dito instituto, cujo nome tornou-se flâmula desta terra. Lembro-me perfeitamente que o instituto foi instalado pela primeira vez na Rua dos Andradas, num amplo sobrado que ainda hoje pode ser visto em seu estilo colonial, de beleza atraente. 

Recorte do mencionado periódico
O Instituto Chevalier ali foi instalado em 1911 ou 1912, tendo permanecido por muito tempo. Depois mudou-se para a rua Dr. Moreira, esquina com a Quintino Bocaiuva, onde atualmente se encontra a Hospedaria Garrido. Aí funcionavam diversos cursos tendo como professores — José Chevalier e Paulo Eleuterio que, entusiasmados pelo Escotismo, passaram a lecionar esta disciplina que Olavo Bilac com suas belas canções impulsionara o povo brasileiro de Norte ao Sul. Assim, ao amanhecer de cada dia estavam os dois mestres dedicados a convocar os meninos daquela época para tão sublime conquista espiritual. 
Entre os novos escoteiros encontrava-se Ramayana de Chevalier, moço sagaz, em cujos olhos existia a esperança para o Brasil de mais um filho culto e radiante. Ele foi um soldado impulsionado pelo sentimento poético de Olavo Bilac com suas canções patrióticas, pois tocavam os corações pela chama sagrada do ideal, do amor pela liberdade e pelo progresso do Brasil. 
No desenvolver dos tempos, Ramayana de Chevalier fora tido como um espirito fadado às ciências e às letras. Ao seu lado encontravam-se Leopoldo Peres, André Araújo, Carlos de Araújo Lima, Olavo das Neves e muitos outros que conduziam a bandeira da ordem e do progresso, nos seus corações. Nesse desenvolver de dias, noites e meses, anos se passaram e chegamos ao ano de 1941 quando encontrei Ramayana de Chevalier viajando no navio Santos, do Loide Brasileiro, de Manaus à cidade Maravilhosa. 
Nessa comprida viagem de 22 dias o navio fora transformado numa Academia de Letras, onde os astros fulguravam com seus espíritos de jornalista, poeta, sociólogo, que eu ainda hoje conservo em minha retina, fazendo reviver aqueles dias felizes, nos quais Ramayana de Chevalier, André Araújo, Genesino Braga e Aguinaldo Archer Pinto transformaram aquela cidade flutuante num ambiente de artes e de cultura. 
Em 1950 o vi e senti ao lado de Adalberto Vale com o seu verbo brilhante e sedutor quando saudava a gleba verde com o seu discurso pela passagem da entrega do “Hotel Amazonas” à cidade de Manaus.
Suas frases refeitas de imagens estelares tinham o encanto das flores às margens dos rios, a murmurar por todo este Amazonas que surpreende e catequiza tudo o que tiver a felicidade de o contemplar em sua apoteose maravilhosa.
A inauguração do “Hotel Amazonas” marca o divisor de suas épocas. Esta formidável iniciativa da Prudência Capitalização, através do gênio empreendedor de Adalberto Ferreira Valle, que Assis Chateaubriand classificou no seu brilhante artigo Dos Grisões à Amazônia com o único rival do anexo do Copacabana Palace, representa nas suas linhas arquitetônicas, na excelência do seu material prestante, no arremesso de suas colunatas, no emaranhado modernismo dos seus detalhes técnicos, um monumento ao amazonense singular, cujo espirito, envolto nas tarlatanas da graça e do poder positivo, jamais se esqueceu, como o fez Ruy, do ninho onde nascera... 
Sobre Ramayana de Chevalier o ministro Jorge Mendes, na sessão do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas pedirá um minuto de silêncio para prestarem uma homenagem póstuma ao grande amazonense, dizendo: "Ramayana de Chevalier, como homem teve os erros, mas, nas letras, vejo-o iluminado ao lado de Álvaro Maia como os dois maiores amazonenses". 

quarta-feira, julho 20, 2011

Ildefonso Pinheiro (final)

por Francisco Bacellar,

pai do poeta Luiz Bacellar,
publicado no livro Uma Vida...
(Manaus: Editora Sérgio Cardoso, 1963)

Reverencia a terra em que se fez homem e que ama com ternura -- aí está o Edifício Manaus mirando o dileto rio de águas negras e misteriosas. Não esquece a terra que lhe serviu de berço -- vemos o Edifício Fortaleza -- símbolos vivos do seu reconhecimento; frutos da sua iniciativa. Ambos ostentam em suas paredes quadros artísticos e conceitos de boa moral, atestando a inclinação para o belo e o caráter dogmático do seu proprietário.


Passo a passo vai aperfeiçoando os seus conhecimentos. Com as suas publicações permanentes no "Jornal do Comércio", onde ele pontifica os seus ensaios sobre economia, finanças, história, biografias, crítica, sugestões, conselhos e até política, vai publicar Uma Vida..., que, de fato, não dizem dos seus feitos, nem seus sofrimentos, nem suas alegrias; é, apenas uma faceta do caráter desse homem extraordinário.

Do menino criado de favor ao estivador, de mordomo do Ideal ao homem de negócios de hoje, soube Ildefonso sempre fazer-se respeitar. Exerceu todos os seus variados misteres desde o mais humilde, com dignidade elevada -- jamais foi humilhado, jamais foi aviltado ou vilipendiado. A sua personalidade sem arrogância, o seu procedimento comedido "impunha o respeito e mantinha a simpatia".

Qual a força, e poder, a magia que produziu este milagre?...

* * *
Ildefonso, criança ainda. aqui chega em companhia dos pais e de sua irmãzinha. Não vieram tangidos pelos flagelos nem em busca de melhoria de vida -- prestigiosa família cearense, dos Pinheiro de Fortaleza, nos seus pagos gozavam de todo o conforto. Vieram a chamado de um parente, o Dr. Solon Pinheiro, irmão do pai de Ildefonso, advogado de nomeada a serviço da maior potência financeira da Amazônia de então -- B. Antunes & Cia. Segue a família para o Javari onde lugar de confiança espera o pai.

Em 28 dias, o beri-béri galopante cava três sepulturas nos ínvios barrancos e um menino de apenas quatro anos de idade, inopinadamente despojado de tudo o que representa meio de sobrevivência e proteção acha-se, pequenino e só, no seio da maior e mais densa floresta do universo. E' o nada frente ao tudo -- é o ponto em face do infinito. O menino não chora; ignora a extensão da sua perda - E' um bem-aventurado. Não luta, ignora o perigo. Já é um vencedor. Não se atemoriza; ignora também que ele próprio é um eleito, um escolhido.

A Providência Divina estende sobre ele a sua proteção -- o destino massacra-o com satisfação, argamassa-o, esmurra-o e, finalmente, o amolda. O destino não se engana com o material. E' de boa estirpe e possui o estofo da boa progênie. A marca da qualidade flutua-lhe no sangue, fixa-se na medula dos ossos, prepondera na índole, no gênio, e é por isso que o menino Ildefonso é hoje o Sr. Ildefonso da Silva Pinheiro, feito a sua própria custa, "sem medo e sem mácula", "impondo-se ao respeito e mantendo a simpatia".

Jornal do Commercio, Manaus, 16 jun. 1912
Nota própria:
Político cearense oposicionista, Dr. Solon Pinheiro veio para Manaus escapando da perseguição de Accioly, então governador do Ceará. Advogado competente, aqui se estabeleceu com escritório a rua Joaquim Sarmento, 18. Aqui se reuniu aos colegas, muitos dos quais seus conterrâneos.
A ilustração veiculada no Jornal do Commercio, de Manaus, identifica a perseguição imposta aos adeptos de Solon Pinheiro, o "pinheirismo".
Solteiro, afortunadamente casou-se com Rosa Pereira da Silva, filha do advogado Agesilau Pereira, que fora presidente da província do Amazonas. Tiveram cinco filhos. Mas, Solon Pinheiro morreu inesperadamente em 24 de setembro de 1917.

segunda-feira, julho 18, 2011

Ildefonso Pinheiro (II)


por Francisco Bacellar,

pai do poeta Luiz Bacellar, publicado no livro
Uma Vida... (Manaus: Editora Sérgio Cardoso, 1963)

Uma vida..., seleção de crônicas publicadas no Jornal do Commercio, de Manaus, representa, sob o aspecto de reminicências do autor, a cristalização de um passado de lutas firmado dentro de uma bela tradição de tenacidade, civismo e honestidade que honram e dignificam sobretudo a sociedade que testemunhou e ainda assiste o exemplo edificante do roteiro traçado, palmilhado e rememorado pelo autor. (da orelha do livro)


Sede do Jornal do Commercio,
na avenida Eduardo Ribeiro

Ildefonso sempre teve a sua reserva. Cumpridor perfeito das suas obrigações e possuidor de alto senso de responsabilidade não admite, por isso, imposições descabidas nem excesso de autoridade; quando isto acontece o "faça favor, tire a minha conta" resolve a situação, isto numa época em que perder um emprego consistia a maior calamidade para quem dele dependesse.

Vencendo as maiores dificuldades procura se instruir e o faz graças a existência de um homem a quem Deus concedeu o dom da benemerência: Alfredo Garcia, com a aparência de um filósofo hindu, trazendo em si a sabedoria de um Buda, a paciência, a obstinação e a renúncia de um Gandhi e a predestinação de um Tagore, sem ceder à canseira, não buscando o conforto, não aspirando o poder pecuniário nem a gratidão humana, na sua "Santo Antonio Comercial School" ensina de manhã à noite.
Procuram-no os humildes, os necessitados convictos, os empregados que não dispõem de tempo. Recebe, ali, Ildefonso, as bases com as quaest, autodidata, pode adquirir os variados conhecimentos que dia a dia vai aprimorando.

Tem início, então, a consolidação do pequeno homem de negócio, do economista em potencial; dura prova, porém, se lhe depara, consequência natural dos seus impulsivos "faça favor, tire a minha conta". Ildefonso torna-se estivador do porto, no serviço mais pesado de então para o qual escolhida turma de portugueses alentados é empregada. A desistiva do carvão coke é feita em cabaças de vime que, formada a fila, -- jogada de mão em mão desde o ponto do enchimento ao do despejo. O recém-estivador, o intruso era franzino, a enfibratura, porém, era rija.

A princípio, os gigantes desdenhavam do pequeno colega e tratam de testá-lo. Se não bastasse ser-lhe o soco das cabaças propositadamente maior a falta de prática do novato não evitava que as pontas de talas despregadas dos vasilhames rasgassem-lhe a carne dos braços. A resistência e a obstinação do neófito tocaram aquela gente simples e nobre. A mofa transmuda-se em admiração.

Depois desta prova de fogo o estivador passa à pracista. Nesta profissão vence galhardamente. Outro impulsivo "faça favor, tire a minha conta" joga-o para o Ideal Clube onde vou encontrá-lo no posto de mordomo. Na sua convivência com os gentis-homens do Ideal faz ele o seu estágio. Prepara-se para a escalada decisiva aos píncaros o que lhe foi relativamente fácil.

Rara virtude lhe orna o espírito. A de servir e servir bem, "em desdouro para si próprio, sem humilhação para quem dele precisa. Conta-se entre os seus amigos, grandes e pequenos, humildes e poderosos, pobres e ricos, cultos e não cultos, para ele só há distinção na virtude que os exalce. Também rara felicidade lhe acompanha: a de jamais ter tido necessidade de recorrer ao irrecorrível a quem quer que seja.

Presto, vemô-lo na A Tropical, onde vencendo inveja, derrubando preconceitos, mudando tradições e costumes, transformando, aliás, a feição de uma época, torna-se comerciante. Ali dá largas ao seu espírito caritativo e mecenas das artes e das letras, lhe vale ser armado "cavalheiro" da mais restrita ordem que jamais existiu.
Quatro membros apenas, não violentos nem vingativos como os do Apocalipse, mas "espíritos fogosos e sonhadores”. O agraciador foi um poeta em nome de "O Satã". No tempo de A Tropical a minha cruz foi tareada com pesadíssima sobrecarga de chumbo. Carrega-Ia tornou-se-me bem penosa.

Ildefonso constituiu-se meu cirineu; exigiu que todos os domingos fosse com ele almoçar. Os acepipes eram preparados pelas suas próprias mãos. O meu lugar, o de honra na cabeceira da sua mesa.

Depois de A Tropical, a sua plena situação econômica e financeira é atingida. Torna-se proprietário e acionista da Eletroferro em pura e honesta forma sobre a qual nem ao menos paira qualquer suspeita. (segue)


O financista em estado latente ensaiava os passos para se desenvolver. Nunca esteve desempregado. Não podia estar, era do seu trabalho que provia o seu sustento. Econômico por índole, por precaução e por imposição da natureza do seu trabalho, pois, folga, só raramente em alguma tarde de um domingo.

domingo, julho 17, 2011

Ildefonso Pinheiro

por Francisco Bacellar,
pai do poeta Luiz Bacellar,
para o livro Uma Vida...
(Manaus: Editora Sérgio Cardoso, 1963)



Eu o conheço desde o tempo em que a gente arregaça a manga e "corre atrás das asas ligeiras das borboletas azuis".

De um encontro fortuito de meninos que, sem possibilidade de distração que custasse dinheiro, aproveitavam as procissões para folguedo surgiu o nosso conhecimento, informal, sem apresentação, por muito tempo, talvez, sem um saber o nome do outro que, com o decorrer do tempo transforma-se em amizade e, solidificada, ainda hoje persiste.
Capa do livro, de autoria de
Getúlio Alho

Tenciona Ildefonso breve publicar o seu livro: Uma Vida...; em se tratando de vida, seja qual o prisma visado, porém que a ele se refira, julgo-me autorizado pelo longo tempo da nossa privança, independente de ser chamado, a "meter a minha colher" e dizer algo que não tem escapado à minha observação.


Ao nosso primeiro encontro casual outros seguiram, sempre por ocasião das procissões, no pátio da igreja Matriz, onde proliferavam os vendedores de guloseimas -- o convite para os doces era fatal. Ildefonso, apreciador precoce do belo sexo, escolhia de preferência o doceiro que estivesse rodeado do maior número de garotas do nosso tope e, numa demonstração de pequeno homem endinheirado, num gesto largo e cortês lançava o seu brado de conquista pelo suborno: "senhoritas, são servidas de alguns doces? eu pago... sirvam-se à vontade". Isto dentro da mais primorosa regra da elegância que ele conserva até os nossos dias, em que a elegância tornou-se arcaica.


Certa vez, largo tempo passou sem que nos avistássemos; quando isto se deu encontrei um Ildefonso cheio de recriminações e ressentimentos.

Que tem você, rapaz? Perguntei-lhe... "Você passa por mim todos os dias e não me fala" - surpreendeu-me a acusação. Explicou... Era empregado em um botequim na rua dos Barés; um verdadeiro buraco onde a luz do sol não penetrava e, ofuscado pela claridade, na rua, não permitia ao transeunte ver lá dentro senão a escuridão. "Como poderia lhe ver no fundo de uma cova de onça?... A minha justificativa desarmou a animosidade.

Conquistador inveterado, muitas aventuras "deram-lhe na cabeça"; duas, porém, tiveram sabor imperecível: Entregador, fora deixar presente de algum apaixonado em um das muitas casas galantes que aqui existiram.

A destinatária, nordica-eslava, das que dedilhavam Chopin ao piano e davam-se ao luxo de falar francês, está no seu boudoir de cama dourada, cortinas de renda onde se mistura o acre almiscarado do pecado ao odor dos perfumes caros. Naturalmente achava-se à vontade e não há porque mudar a sua atitude.

Pela primeira vez o menino Ildefonso depara ao vivo o modelo de um quadro de Goia, e, já no país da fantasia ali vê uma fada amável, carinhosa, linda e fascinante. Por muito tempo aquela lembrança o perseguiu nítida, violenta, avassaladora; um tormento adorável para a sua vitalidade mal nascente, um pesadelo exigindo satisfação mal satisfeita. Hoje o sonho envelheceu, enrugou e os dois praças da velha guarda se cruzam sem ao menos uma continência de estilo.

Moreninha, criada, mimada e educada por família de tratamento. Rapazinho insógnito (sic) que as circunstâncias impunham a situação plebeia de trabalho humilde para prover a própria subsistência numa idade em que deveria frequentar um colégio da cidade; ousou, supremo atrevimento, suspirar pela morena - Não! cenhos carregados, portas fechadas... e Ildefonso sofre o amargo de uma paixão impossível - Depois aquelas mesmas portas se abriram, os olhares ferozes se ameigariam... mas isto foi mais tarde. Já era tarde demais.
(segue)