CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

17 de janeiro de 2013

DISPUTA DE ACADÊMICOS (Parte II)



Acadêmico Antônio Loureiro
O álbum – A Cidade de Manaus e o país das seringueiras , editado em 1988 pela Associação Comercial do Amazonas ofereceu motivo para um quebra-pau entre acadêmicos. Lançado o livro, cujas legendas tiveram a chancela do historiador Antônio Loureiro, logo recebeu as corrigendas do colega Mário Ypiranga Monteiro, em publicação jornalística, ontem postada.
A resposta do autor das legendas não demorou. Também pelo mesmo jornal (vide abaixo), o ofendido esquentou o debate, ocasião em que declarou sua inimizade com o crítico.


A RESPEITO DE UM ÁLBUM AMAZÔNICO (*)

Antônio Loureiro

Quão belo é para a velhice o saber julgar,
E para os anciãos o saber aconselhar.
Eclesiástico  25:6


Capa do livro polêmico
Jamais pensei que o autor do panfleto publicado na segunda-feira, por este jornal, fosse tão desafeto à minha pessoa, como deixou transparecer no seu arrazoado sob o título acima. Eu nunca lhe fiz qualquer mal e o tinha como um amigo distante, incapaz de atos tão deselegantes e tendenciosos. Agora que a sua verdadeira posição apresentou-se aos meus olhos, devo declarar-lhe que não o aceito como juiz impiedoso e rigoroso de meus trabalhos, goste ou não goste dele, aceite ou não aceite o meu modo de escrever. O achincalhe é uma forma inábil de deitar fora o despeito e o rancor. Até que eu, em termos mais racionais, mas diante da falta destes requisitos, rejeito-os por afrontosos.
Inicialmente, informo que o Fundo Editorial da ACA foi idéia de Jorge Loureiro e financiado pela edição, a primeira, do meu livro “A Gazeta do Purus”, doada para a sua concretização. Fizemos, em quatro anos, o que não foi realizado por nenhuma entidade cultural desta terra, imprimindo 15 mil exemplares de obras raras, usadas, por muitos autores, como material de pesquisa própria, sem citar a fonte da sua origem. E muitas outras serão reimpressas, abrangendo fotos não pertencentes ao arquivo de qualquer escritor.
A editoração continuará dentro de suas boas intenções e das quais não sairá, para ser manobrada por qualquer grupo, desses que têm tornado estéril a vida cultural amazonense, pelas suas tendências moloquianas de destruírem as vocações sinceras. Não aceitando o jogo da maledicência e do escândalo. São coisas do passado e já não fazem o mesmo sucesso. O que escrevo não se destina à obtenção de vantagens pessoais ou à satisfação de vaidades, faço-o por gosto e por dever espiritual.
Se toda aquela catilinária originou-se de um desabafo, vinculado à polêmica coloração externa do Teatro Amazonas, como transpareceu nas suas entrelinhas, declaro, firmemente, que o assunto só poderá ser definido por técnicos especialistas, que após levantarem, camada por camada, as películas das tintas sobre as paredes externas, identifiquem a tonalidade inicial, estabelecendo a verdade definitiva. A mim não interessa que ela seja cinza, azul ou cor de rosa, mas a verdadeira, sem sofismas.
Mesmo com a destruição do reboco, existem áreas indenes, nas quinas e nas partes protegidas das intempéries, onde seriam encontrados os restos dos pigmentos mais antigos.
Tem-se voltado às verdadeiras cores de Miguel Ângelo, pintadas há centenas de anos, porque não às de um teatro com menos de um século de inaugurado. Há necessidade dessa perícia, sem o que tudo o que sobra são meras opiniões, a serem defendidas, por quem falar mais alto e isto não se admite mais, na época atual.
O panfletista tentou denegrir a minha condição de escritor, como se isso fosse de sua atribuição e arbítrio. A condição eu já a adquiri através das minhas obras “Amazônia – 10.000 Anos”, “A Gazeta do Purus” e a “Grande Crise”, já tendo prontas outras, ainda inéditas, pelo fato de não utilizar recursos estatais para editá-las, a fim de manter a minha independência. Elas abrangem temas da nossa história contemporânea, tão desprezada pelos áulicos, encastelados em seus cartórios culturais, e que só abordam temas coloniais, para não se comprometerem, ou do tipo segredos, curiosidades e ninharias, sem se identificarem, incapazes da análise dos fatos históricos. Não é historiador quem apenas narra essas antiqualhas, às vezes de maneira anacrônica.
Quanto ao método de análise adotado no panfleto, pinçando trechos fora do contexto geral e dando opiniões pessoais e reticentes sobre pontos discutíveis, considerando-as definitivas e irretorquíveis, criando redações ou estilos, ou ainda, fazendo acréscimos para demonstrações de sapiência, considero-o uma forma disfarçada de chicana e rabulice.
Vejamos os assuntos abordados e retrucados de forma tão iracunda:

Palácio dos Governadores – Aqui houve o interesse de confundir propositalmente o leitor desavisado. E o próprio texto crítico comentou um erro ao afirmar: “E anteriormente a 1865, quando se iniciam as obras, onde dormiam os preclaros?” Ora, o Paço da Câmara, origem da atual sede da Prefeitura de Manaus, teve a sua pedra fundamental assentada a 1º de janeiro de 1874, no terreno entre o do quartel do 3º Batalhão de Artilharia a pé e a Cadeia, já estando, em pouco tempo, com os seus alicerces começados, conforme a Fala do presidente Domingos Monteiro Peixoto, de 25 de março de 1874. A sua construção estava orçada em 105.757$439, como se vê no Relatório do mesmo presidente, datado de 16 de março de 1875, e em andamento.
Cinco anos após foi reformado, para servir de Palácio da Presidência, dado que consta do Relatório de 14 de janeiro de 1880, de José Clarindo Queiroz. Mais tarde seria alugado, pela Província, por 4 contos de réis mensais. Diante dessa documentação, como ele poderia existir, em 1865? Além desse Palácio e de outro junto à Alfândega, a cidade, em diferentes épocas possuiu o “Palácio dos Governadores”, dos idos coloniais, em terreno confrontando “a E com a rua Governador Vitório, ao N com a rua dos Inocentes, a O com a casa e terreno dos herdeiros de José Amaro Pereira Guimarães e ao S com a praça Tenreiro Aranha”, sendo que parte do imóvel era ocupado por uma horta, tudo de acordo com José Paranaguá, no seu Relatório de 25 de março de 1883; o “Paço Provincial”, à rua do Imperador e praça Riachuelo, citado por João Wilkens de Mattos e pelo general Miranda Reis, nos Relatórios de 25 de março de 1870 e 25 de março de 1872, respectivamente, e o “Palacete Provincial”, à praça 28 de Setembro, prédio adquirido em fase de construção, pelo Presidente José Coelho da Gama e Abreu (1867/68) e terminado em 1873, ali funcionasse o Liceu e a Biblioteca Pública e, posteriormente, a Assembleia Provincial e a Repartição de Obras, tudo conforme as Exposições de 9 de fevereiro e 1º de junho de 1868, de Gama e Abreu e de Jacinto Pereira do Rêgo, e a Fala de 25 de março de 1874 e o Relatório de 16 de março de 1875, de Domingos Monteiro Peixoto.
Estrada para a Colônia Oliveira Machado, do livro em debate

Praça 15 de Novembro  – O panfletário transcreveu erradamente o texto, para causar impacto. As palmeiras antecederam as mangueiras, naquele local.

Teatro Amazonas – Não foi discutida a autoria do desenho.

Asilo Orfanológico Benjamin Constant – Nada de chocante existe no texto original. O Museu Botânico, que ali funcionou, foi criado pela Lei nº 629, de 18 de junho de 1883, sendo instalado na chácara Cachangá, a 16 de fevereiro de 1884, alugada para tal finalidade. À sua inauguração, já possuía coleções de botânica e etnográfica, esta última trazida do rio Urubu, pelo 1º tenente Antonio Madeira Shaw, além de duas pedras com inscrições, achadas nas Lages e na rampa do Mercado Novo, como pode ser visto no Relatório de 16 de fevereiro de 1884, do presidente Paranaguá, onde também há a referência ao prédio e a chácara do barão de São Leonardo, com 126 metros de frente e 324 de fundos, proposta para sua futura sede, além de outro canal, na estrada da Colônia Maracaju.

Reservatório da Castelhana – Nada a acrescentar. O seu estilo arquitetônico era semelhante ao da Casa das Bombas, junto à represa, já desaparecida e de construção um pouco anterior, por serem do mesmo autor, participante da Exposição de Chicago. Quanto à sua existência atual, isto é ponto pacífico, óbvio e ululante. A semelhança só existiu no passado, sendo aplicável o “era” refugado.

Rua dos Remédios – A região do bairro dos Remédios foi realmente palco de expansão urbana, após a construção da ponte dos Remédios.

Igreja de São Sebastião – A legenda pode ter sido pouco detalhista. Quanto à náusea, procure outra causa paralela.

Mercado Público – Há o que acrescentar, mas não a consertar. Os dados referentes ao mercado estão corretos.

Ponte dos Remédios – Este foi o deslize cometido, mas que não invalida a obra, pois se conservou, na foto original, o seu nome correto. Não era a ponte da Glória.

Seringal Providência – Não sei se o seringal Providência foi de propriedade do português Caetano Monteiro da Silva. Ele foi possuidor dos seringais Silêncio e Desterro, no (rio) laco, depois de 1881. Em 1910, a pedido de Samuel Barreira, então prefeito do Alto Purus, escreveu uma carta, publicada no jornal “O Alto Purus” e transcrita no meu livro “A Gazeta do Purus”, esclarecedora de suas primeiras incursões pelo laco. Comerciante de conceito em Manaus, foi cônsul da Bolívia, no Amazonas, sofrendo grandes prejuízos durante a Rebelião Acriana. Tentou, segundo Leandro Tocantins, recuperar o dinheiro perdido, nada conseguindo, faleceu pobre.

Abrigos de Inverno dos Pamaris – Indique o articulista outra imagem mais antiga e mais perfeita do que a apresentada. Que existam casas semelhantes em outros locais da América não discuto, até anteriores, mas por qual motivo devemos destruir o significado desta foto, se ela retrata uma realidade que só pode ser posta em dúvida com a apresentação de outra anterior.
As jangadas de bolas de borracha eram de uso comum, não para a base das casas, mas para a remessa das próprias pélas, pela falta de transporte, como o fez, certa vez, meu bisavô, por volta de 1882, no Alto Javari.
Também não me cabe defender Manuel Lobato da diatribe contra ele assacada com o evidente intuito de atingir-me indiretamente. Pelo menos fiz referências à essa fonte indireta, cintando-a, se bem que alguns autores locais já tenham utilizado o material, sem qualquer indicação da origem e pessimamente reproduzido.

Moça Pamari – Rio Purus – O termo mais correto é pamari, como os últimos remanescentes reconhecem, em Caviana, município de Manacapuru e como grafa o álbum. Não discuti a precedência da publicação da foto, se de Lourenço Fonseca ou do álbum. Para sabê-la se pamari ou mamaluca, só perguntando à própria.
Também não podemos negar a Fileto Pires a qualidade de continuador da gestão de Eduardo Ribeiro, concluindo grande parte de suas obras e iniciando outras, como o aterro entre a (rua) Mundurucus e a ponte dos Remédios, além de dados importantes, para a história do Teatro Amazonas.
Para mim ficou bem clara a intenção presente do início ao fim do panfleto – o esfacelamento do Fundo Editorial da ACA e o posterior aparecimento de um salvador, capaz de tirá-lo do caos. No mais, a posição do autor Mário Monteiro foi a de um inquisidor, de um familiar do Santo Ofício, julgando suas vítimas. Não voltarei ao assunto, pois dele só tirei decepções e uma inimizade definitiva.

(*) A Crítica, 14 de julho de 1988