CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

4 de janeiro de 2013

PALACETE MIRANDA CORRÊA

O texto abaixo, extraído de um periódico local, conta com detalhes a evolução da família Miranda Corrêa, que construiu fortuna em Manaus, e marcou aqui sua presença com a Fábrica de Cerveja Amazonense e a residência deslumbrante na avenida Eduardo Ribeiro – o Palacete Miranda Corrêa.
Esta publicação jornalística ocorreu pouco antes da demolição do palacete; em seu lugar, foi construído o edifício Miranda Corrêa, inaugurado em 1974.
Teatro Amazonas e o Palacete, desmontado em 1971

Manaus vai ficando sem os seus marcos de uma época de muito luxo e bom gosto.  O Palacete Miranda Corrêa é um deles que vai desaparecer (*)
No início do presente século, a região amazônica parecia centralizar o processo de desenvolvimento econômico do país. Em poucos anos, a borracha tinha transformado a região mais desabitada da América do Sul no espaço responsável pelo segundo lugar da riqueza brasileira. Apenas o café com sua cultura tradicional sobrepunha-se com grande superioridade às pequenas cidades (a primeira pouco mais que uma vila), conseguiram reunir uma renda per capita muito superior a do Rio de Janeiro e São Paulo.
Um grupo privilegiado de famílias e firmas importadoras e exportadoras controlava tal riqueza que, infelizmente, não ficava na Amazônia. Apenas pequenos resíduos se localizavam em Manaus e Belém, na forma de impostos estaduais e municipais, pagamento de mão de obra, palácios, palacetes, teatros e outros edifícios públicos.

Esse panorama “grosso modo” do deserto amazônico e de suas duas capitais, comandando os rios da borracha, com seus nordestinos afoitos, sofrendo a ilusão da riqueza, que terminava nas mãos dos proprietários dos seringais e, finalmente, em mãos das casas aviadoras de Belém e Manaus, o que vale dizer nos centros capitalistas mais desenvolvidos da Europa e dos Estados Unidos.

Alguns nomes de famílias, no Pará e no Amazonas, sobreviveram a todo esse período aventureiro e aleatório, que viria a se tornar lendário na história da economia mundial. Essas famílias, no Pará: Acatauassú, Lemos, Malcher, Pinho, Miranda Corrêa, foram algumas entre as que construíram grandes casas em Belém.
A família Miranda Corrêa, originária da região do Lago Grande, nas vizinhanças de Santarém, descendia de um velho tronco português miscigenado com os índios da região. Na época da borracha formava um verdadeiro clã, filhos de Jucundina (plataforma de cacau no baixo Amazonas, e de Inocêncio, juiz) vivendo, em sua maioria em Belém do Pará.
Eram eles os engenheiros Luiz Maximino e Antonino Carlos, o médico Deoclécio, os bacharéis Carolino e Adelino, o almirante Altino, o comandante Acrisio Fulvio e duas irmãs: Joana e Sinhá Sussuarana. Todos obtiveram sucesso financeiro e construíram grandes casas em Belém e, mais tarde, no Rio de Janeiro, onde por exemplo, Antonino Carlos  e mais tarde sua viúva Zélia, possuíram  uma das mais belas mansões da Av. Vieira Souto, em Ipanema. O clã Miranda Corrêa, no Pará, era aparentado de grande número de famílias importantes e com os futuros casamentos terminou interligado a quase todas as famílias mais antigas do Pará e do Maranhão.
Luiz Maximino, engenheiro civil, foi o responsável pela construção da Estrada de Ferro Belém-Bragança e pela construção de um grande número de prédios importantes de Belém. Sócio de um dos homens mais ricos e requisitados do Pará, Francisco Bolonha, engenheiro e arquiteto, responsável pela implantação do “art nouveau” no Estado vizinho, fizeram construir a Fábrica de Cerveja Paraense e a Fábrica de Gelo Amazonense. Outro irmão fazia parte da sociedade – Antonino Carlos. Mais tarde desfazem a sociedade, ficando os dois irmãos Miranda Corrêa com a fábrica de gelo amazonense e a família Bolonha com a fábrica de cerveja paraense.
Nessa época, Luiz Maximino constrói uma belíssima mansão em Belém do Pará, na Avenida Independência. Dentro do gosto “art nouveau” é um palacete com três andares que sobrevive até hoje.
Antonino Carlos vem para Manaus a fim de dirigir a fábrica de gelo em constante progresso. Luiz Maximino segue para o Rio, viajando em seguida para Nova York, com toda a sua família. Pretendia montar, de sociedade com um amigo português, uma fábrica de guaraná nos Estados Unidos. Após residir ali  longa temporada, resolve voltar ao Rio de Janeiro, assustado com a epidemia de poliomielite que grassava naquela cidade.
Em Manaus, Antonino Carlos, que montara uma casa de venda de chopes e um cinema faz sociedade com os irmãos Luiz Maximino, Altino, Carolino, Joana e Deoclécio e funda a Cervejaria Amazonense, que passaria a ser dirigida até sua morte ocorrida em Lisboa, por ele e por seu irmão Luiz Maximino. Após a morte de Antonino Carlos, a direção da empresa ficaria nas mãos de Luiz Maximino, já então, um dos três sócios restantes: Zélia Viana (viúva de Antonino Carlos), Geralda (viúva de Deoclécio) e Luiz Maximino.
A casa que ficou conhecida como o Palacete Miranda Corrêa e que agora será demolida para dar lugar ao edifício Maximino Corrêa, não foi construída por Luiz Maximino. Adquiriu-a de um comerciante português, de nome Coutinho, que a fizera construir dentro da linha do grande arquiteto francês Mansard, bem ao gosto das mansões normandas e bretãs. No momento de adquiri-la, hesitou entre a casa que residiria por mais de 30 anos e o Palacete Scholz (atual Palácio Rio Negro), ambas a venda pelo mesmo preço.
O impaludismo que grassava naquela região da cidade, fez com que se decidisse pela casa da Avenida Eduardo Ribeiro. Reformou-a por diversas vezes, respeitando sempre sua arquitetura original. Enquanto habitada pela família era decorada com móveis franceses, condizentes com cenários de grandes festas e recepções.
Em suas salas se encontravam dois pianos  de cauda, um Beckstein, e outro Cramer, que foram utilizados por todos os grandes pianistas que visitaram o Amazonas, entre eles Souza Lima, Guiomar Novaes, Madalena Tagliaferro e outros. Luiz Maximino era um profundo conhecedor de música, sendo ele mesmo pianista e compositor.
Muitos dos móveis e objetos de arte que se encontravam na bela residência foram partilhados entre seus oito filhos: Renato Américo, Luiz Almir, Eunice, Clarice, Arlete, Yvete, Déa e Haydéa. Outros se encontram guardados na Cervejaria Miranda Corrêa. Outros, ainda, foram vendidos a particulares.
Um belo lustre de forjado e cristal francês assinado encontra-se, por exemplo, no gabinete dos governadores do Amazonas, adquirido pelo professor Arthur Reis. Anteriormente estava colocado no gabinete do velho Maximino Corrêa. Importado de Paris pelo engenheiro e decorado com motivos amazônicos (orquídeas), encomendado especialmente para sua casa. Um dos seus pianos de cauda encontra-se na Academia Amazonense de Letras, doado por seus descendentes ao centro musical que leva seu nome.
O prédio é, sem dúvida, um dos mais belos exemplos arquitetônicos de Manaus. O único prédio dentro do estilo normando que Mansard usaria em tantos palácios e castelos da França, lembrando a ala mais antiga de “Versalhes”, do castelo “Champs de Bataille” na Normandia (propriedade dos duques  d'Arcourt) que tem sensibilizado  tantos membros da família Miranda Corrêa em viagem pelo norte da França.
(*) A Notícia, sexta-feira, 17 de setembro de 1970. Recorte cedido pelo pesquisador Ed Lincon.