Esta publicação jornalística ocorreu pouco antes da demolição do palacete; em seu lugar, foi construído o edifício Miranda Corrêa, inaugurado em 1974.
![]() | ||
Teatro Amazonas e o Palacete, desmontado em 1971 |
Manaus vai
ficando sem os seus marcos de uma época de muito luxo e bom gosto. O Palacete Miranda Corrêa é um deles que vai desaparecer (*)
No início do
presente século, a região amazônica parecia centralizar o processo de
desenvolvimento econômico do país. Em poucos anos, a borracha tinha
transformado a região mais desabitada da América do Sul no espaço responsável
pelo segundo lugar da riqueza brasileira. Apenas o café com sua cultura
tradicional sobrepunha-se com grande superioridade às pequenas cidades (a
primeira pouco mais que uma vila), conseguiram reunir uma renda per capita
muito superior a do Rio de Janeiro e São Paulo.Um grupo privilegiado de famílias e firmas importadoras e exportadoras controlava tal riqueza que, infelizmente, não ficava na Amazônia. Apenas pequenos resíduos se localizavam em Manaus e Belém, na forma de impostos estaduais e municipais, pagamento de mão de obra, palácios, palacetes, teatros e outros edifícios públicos.
Esse panorama “grosso modo” do deserto amazônico e de suas duas capitais, comandando os rios da borracha, com seus nordestinos afoitos, sofrendo a ilusão da riqueza, que terminava nas mãos dos proprietários dos seringais e, finalmente, em mãos das casas aviadoras de Belém e Manaus, o que vale dizer nos centros capitalistas mais desenvolvidos da Europa e dos Estados Unidos.
Alguns nomes de famílias, no Pará e no Amazonas, sobreviveram a todo esse período aventureiro e aleatório, que viria a se tornar lendário na história da economia mundial. Essas famílias, no Pará: Acatauassú, Lemos, Malcher, Pinho, Miranda Corrêa, foram algumas entre as que construíram grandes casas em Belém.
A família
Miranda Corrêa, originária da região do Lago Grande, nas vizinhanças de
Santarém, descendia de um velho tronco português miscigenado com os índios da
região. Na época da
borracha formava um verdadeiro clã, filhos de Jucundina (plataforma de cacau no
baixo Amazonas, e de Inocêncio, juiz) vivendo, em sua maioria em Belém do Pará.
Eram eles os
engenheiros Luiz Maximino e Antonino Carlos, o médico Deoclécio, os bacharéis
Carolino e Adelino, o almirante Altino, o comandante Acrisio Fulvio e duas
irmãs: Joana e Sinhá Sussuarana. Todos
obtiveram sucesso financeiro e construíram grandes casas em Belém e, mais tarde,
no Rio de Janeiro, onde por exemplo, Antonino Carlos e mais tarde sua viúva Zélia, possuíram uma das mais belas mansões da Av. Vieira
Souto, em Ipanema. O clã Miranda Corrêa, no Pará, era aparentado de grande
número de famílias importantes e com os futuros casamentos terminou interligado
a quase todas as famílias mais antigas do Pará e do Maranhão.
Luiz
Maximino, engenheiro civil, foi o responsável pela construção da Estrada de
Ferro Belém-Bragança e pela construção de um grande número de prédios
importantes de Belém. Sócio de um
dos homens mais ricos e requisitados do Pará, Francisco Bolonha, engenheiro e
arquiteto, responsável pela implantação do “art nouveau” no Estado vizinho,
fizeram construir a Fábrica de Cerveja Paraense e a Fábrica de Gelo Amazonense.
Outro irmão fazia parte da sociedade – Antonino Carlos. Mais tarde desfazem a
sociedade, ficando os dois irmãos Miranda Corrêa com a fábrica de gelo
amazonense e a família Bolonha com a fábrica de cerveja paraense.
Nessa época,
Luiz Maximino constrói uma belíssima mansão em Belém do Pará, na Avenida
Independência. Dentro do gosto “art nouveau” é um palacete com três andares que
sobrevive até hoje.
Antonino
Carlos vem para Manaus a fim de dirigir a fábrica de gelo em constante
progresso. Luiz Maximino segue para o Rio, viajando em seguida para Nova York,
com toda a sua família. Pretendia montar, de sociedade com um amigo português,
uma fábrica de guaraná nos Estados Unidos. Após residir ali longa temporada, resolve voltar ao Rio de
Janeiro, assustado com a epidemia de poliomielite que grassava naquela cidade.
Em Manaus,
Antonino Carlos, que montara uma casa de venda de chopes e um cinema faz
sociedade com os irmãos Luiz Maximino, Altino, Carolino, Joana e Deoclécio e
funda a Cervejaria Amazonense, que passaria a ser dirigida até sua morte
ocorrida em Lisboa, por ele e por seu irmão Luiz Maximino. Após a morte de
Antonino Carlos, a direção da empresa ficaria nas mãos de Luiz Maximino, já
então, um dos três sócios restantes: Zélia Viana (viúva de Antonino Carlos), Geralda
(viúva de Deoclécio) e Luiz Maximino.
A casa que
ficou conhecida como o Palacete Miranda Corrêa e que agora será demolida para
dar lugar ao edifício Maximino Corrêa, não foi construída por Luiz Maximino.
Adquiriu-a de um comerciante português, de nome Coutinho, que a fizera
construir dentro da linha do grande arquiteto francês Mansard, bem ao gosto das
mansões normandas e bretãs. No momento
de adquiri-la, hesitou entre a casa que residiria por mais de 30 anos e o
Palacete Scholz (atual Palácio Rio Negro), ambas a venda pelo mesmo preço.
O
impaludismo que grassava naquela região da cidade, fez com que se decidisse
pela casa da Avenida Eduardo Ribeiro. Reformou-a por diversas vezes,
respeitando sempre sua arquitetura original. Enquanto habitada pela família era
decorada com móveis franceses, condizentes com cenários de grandes festas e
recepções.
Em suas
salas se encontravam dois pianos de
cauda, um Beckstein, e outro Cramer, que foram utilizados por todos os grandes
pianistas que visitaram o Amazonas, entre eles Souza Lima, Guiomar Novaes,
Madalena Tagliaferro e outros. Luiz Maximino era um profundo conhecedor de
música, sendo ele mesmo pianista e compositor.
Muitos dos
móveis e objetos de arte que se encontravam na bela residência foram partilhados
entre seus oito filhos: Renato Américo, Luiz Almir, Eunice, Clarice, Arlete,
Yvete, Déa e Haydéa. Outros se encontram guardados na Cervejaria Miranda
Corrêa. Outros, ainda, foram vendidos a particulares.
Um belo
lustre de forjado e cristal francês assinado encontra-se, por exemplo, no
gabinete dos governadores do Amazonas, adquirido pelo professor Arthur Reis.
Anteriormente estava colocado no gabinete do velho Maximino Corrêa. Importado
de Paris pelo engenheiro e decorado com motivos amazônicos (orquídeas),
encomendado especialmente para sua casa. Um dos seus pianos de cauda
encontra-se na Academia Amazonense de Letras, doado por seus descendentes ao
centro musical que leva seu nome.
O prédio é,
sem dúvida, um dos mais belos exemplos arquitetônicos de Manaus. O único prédio
dentro do estilo normando que Mansard usaria em tantos palácios e castelos da
França, lembrando a ala mais antiga de “Versalhes”, do castelo “Champs de
Bataille” na Normandia (propriedade dos duques
d'Arcourt) que tem sensibilizado
tantos membros da família Miranda Corrêa em viagem pelo norte da França.
(*) A Notícia, sexta-feira,
17 de setembro de 1970. Recorte cedido pelo pesquisador Ed Lincon.
A cegueira, até certo ponto justificada, daqueles que aqui aportam, sempre muitos bem recebidos, conduzem-nos a uma reflexão: É responsabilidade de todo amazonense, principalmente dos manauaras uma identificação maior com Manaus e seu Patrimonio Cultural. É inadmissível que perdas como esta ainda possam ocorrer e quase sempre produzidas por quem aqui não tem raízes e se tem, aí imperdoável. A fachada original do Cine Avenida está escondida por uma placa horrivel da Bemol, será que essas pessoas não se tocam, meu Deus?
ResponderExcluirQUEM SÃO OS PARENTES DE ANTONINO COLARES DE MIRANDA CORRÊA,SEUS PAIS BIOLÓGICOS,É POSSÍVEL TER ESTA INFORMAÇÃO? ALGUÉM ME AVISE,TENHO ALGUMAS REFERENCIAS SOBRE ESTE ASSUNTO,DESEJO SABER MAIS! AGRADEÇO.
ResponderExcluir