CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

28 de janeiro de 2013

PRAÇA OSVALDO CRUZ


Sant´Ana Nery, desenho de Ed Lincon

Apesar das incorreções, como a que confunde o barão de Sant´Ana Nery com o compositor Carlos Gomes, além da data da homenagem, nada disso atrapalha a notícia sobre a demolição da praça Osvaldo Cruz. Atendendo à solicitação, o melhor ponto de referencia é que esta ficava em frente ao Porto de Manaus. Onde o governo construiu um elevado para o trânsito de pessoas em direção aos barcos.
No local existe um estacionamento e um quarteirão de prédios abandonados, contendo somente as paredes frontais. Nesses edifícios funcionaram algumas repartições importantes, a mais lembrada é a da Companhia de Eletricidade. Em uma das esquinas, funcionou a agência da Booth Line (empresa de navegação), depois supermercado com o mesmo nome. Também a Loteria Estadual. Sim, esse tipo de “roleta oficial” funcionou longo tempo em Manaus.
Enfim, o monumento ao barão de Sant´Ana Nery desapareceu, restando somente o busto, creio que recolhido ao Centro Cultural Palácio Rio Negro (a confirmar).
O texto, publicado há mais de 40 anos e extraído de A Crítica, conta um tanto mais dos costumes de nossos pais e avós.


ESTA PRAÇA VAI ACABAR
POR CAUSA DO TRÂNSITO (*)

O Serviço de Transportes Coletivos de Manaus está tomando providências no sentido de que, ainda nesta segunda quinzena de janeiro, seja criado no centro de Manaus, dois estacionamentos destinados a táxis, e carros particulares.
O chefe do Serviço de Transportes Coletivos de Manaus, Sr. Rui Barroso declarou que a medida é urgente e, para tanto, a secretaria de Obras da Prefeitura de Manaus, irá tomar a frente dos trabalhos de demolição parcial da praça Osvaldo Cruz.

Praça Osvaldo Cruz antes da reforma projetada, c1971
Por que a Osvaldo Cruz
A praça Osvaldo Cruz foi escolhida para os dois estacionamentos porque é localizada no centro de maior movimentação da cidade. A praça Osvaldo Cruz que é dividida em três partes, sendo distribuídas desta forma: Tabuleiro da Baiana (antiga Estação dos Bondes), Palácio do Café (defronte ao porto de Manaus), as duas partes a serem aproveitadas para o serviço de estacionamento.
Enquanto que a outra parte restante, ou seja, aquela que fica defronte ao Parque Infantil, não será afetada pelas obras a serem introduzidas no local.

Alargamento
O local foi escolhido por oferecer condições de alargamento para colocar os veículos que estacionam nas ruas próximas ao local, como área do Banco do Brasil, Relógio Municipal, Marquês de Santa Cruz e Monteiro de Souza (próximo a Fazenda).
As duas praças ficarão com pequenas áreas inferiores a 5 metros, no Palácio do Café, na área do Tabuleiro da Baiana, a lanchonete vai permanecer, e o restante da praça será demolido, o mesmo acontecendo com o Palácio do Café.

Praça Osvaldo Cruz
Há quase um século a praça Osvaldo Cruz foi criada. Na época, estavam chegando a Manaus os mais belos ornamentos de bronze e mármore vindos da Inglaterra. Era o período áureo da borracha. Belos conjuntos foram colocados em diversos trechos da cidade, como na praça da Saudade e praça São Sebastião. A mais bela, foi instalada, na Estação dos Bondes, a praça Osvaldo Cruz. Os chafarizes ali instalados tinham o mais perfeito serviço de iluminação elétrica, fornecido pela Manaus Electric Lighting Company, depois encampada pelo governo e explorada pela The Manáos Tramways and Light Co. Ltd. A praça Osvaldo Cruz continuou a ser o lugar preferido pelos manauenses para espairecimento físico e espiritual.

No tempo dos bondes
Foi exatamente no tempo dos bondinhos, que a praça Osvaldo Cruz passou a ser chamada a praça dos Bondes. Havia muito movimento, naquela época, naquele local. A juventude da cidade de Manaus esperava nos seus 10 bancos, localizados próximo ao Tabuleiro da Baiana, a abertura das portas da Mimosa, onde jogava bilhar toda a rapaziada, disse o Sr. José Rodrigues, engraxate que trabalha no local há mais de 20 anos.
Disse o engraxate, aqui era um belo local de atrações aos domingos. Toda a criançada dos bairros, vinha pela tarde para distrair-se com os ornamentos instalados. Local de encontro de programas festivos na cidade.
Praça Osvaldo Cruz, 1950

Depois, ônibus
“Com a retirada dos bondes de circulação das linhas da cidade de Manaus, vieram os ônibus. Foram criados diversos abrigos aqui. Dois deles foram retirados nos últimos dois anos”, afirmou o engraxate José Rodrigues, que conta com 57 anos. “Muitos engraxates que trabalharam aqui, já abandonaram o serviço e estão movimentando outros negócios. Eu continuo aqui até quando me derem o fora do local”. Disse: “aqui estacionavam os ônibus do Circular Cachoeirinha, Flores, Chapada, São Raimundo e Beco do Macedo. Na linha do Circular e Beco do Macedo, eram as mais preferidas pelos torcedores amazonenses para assistir os maiores clássicos do ‘pebol’ local”.

Para onde vão
Os vendedores que estão localizados na praça Osvaldo Cruz, estão um tanto preocupados com o que a Prefeitura vai acabar em uma certa área da praça Osvaldo Cruz, na parte do Tabuleiro da Baiana e do Palácio do Café. Sabem que a medida é muito justa, mas pensam todo instante para onde vão. Pipoqueiros, engraxates, garapeiros e cambistas da loteria do Estado. Sabem que tudo vai mudar de vez.
A pergunta surge a todo instante, para onde vai o busto de Carlos Gomes (Barão de Sant”Anna Nery), uma homenagem prestada pelo Estado do Amazonas, nos idos de 1849, ao ilustre barão (sic). Ali está sua efígie em bronze ao alto do monumento. Ao lado esquerdo, embaixo, uma mulher segurando dois galhos de café, o produto que simboliza a principal economia do país. Tanto que está gravado, em letras graúdas: BRASIL, TERRA DO CAFÉ.
Segundo palavras dos vendedores do local, possivelmente a prefeitura vai colocar a estátua no outro lado da praça, defronte ao parque infantil Dom Basílio Pereira.

Hoje é feira de frutas
A Prefeitura resolveu ceder a Praça Osvaldo Cruz no final de ano para os importadores de frutas sulinas para a venda durante as festas de fim de ano. Assim é que deu um prazo para a venda até o dia 31 de dezembro, recém-findo. E, não se sabe até que dia vai ficar. Será até o dia da demolição da praça?

Durante a noite
A Praça, durante a noite não é ambiente de tranquilidade. Muitos embriagados, prostitutas durante a noite exploram o local. Enfim está transformada num ambiente antissocial. As pessoas que desejam  durante a noite passear pela praça, deixam de fazer essa higiene mental devido os maus procedimentos ali registrados a todo instante. Durante a noite toda espécie de boemia toma conta da praça e usa e abusa das autoridades.

As sestas vão terminar
Os trabalhadores no porto de Manaus, principalmente aqueles que não vão a casa fazer sua refeição ao meio dia, após comer nos restaurantes mais próximos do porto, vão fazer suas sestas até a hora do almoço, próximo ao Palácio do Café. Agora tudo vai terminar. Agora terão que ir as suas casas ou pelo contrário, vão deitar nos arredores dos armazéns da Administração do Porto de Manaus.
Manaus está mudando. É o trânsito.

(*) A Crítica6 de janeiro de 1971