CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

16 de janeiro de 2013

DISPUTA DE ACADÊMICOS (Parte I)




Capa do livro
O álbum – A Cidade de Manaus e o país das seringueiras, editado em 1988 pela Associação Comercial do Amazonas ofereceu motivo para um quebra-pau entre acadêmicos. Lançado o livro, cujas legendas tiveram a chancela do historiador Antônio Loureiro, logo recebeu as corrigendas do colega Mário Ypiranga Monteiro, em publicação jornalística, abaixo postada.
A resposta do autor das legendas não demorou. Também pelo jornal, o ofendido esquentou o debate, ocasião em que declarou sua inimizade com o crítico.

O PARTO DA MONTANHA (*)
(A propósito de um álbum amazônico)

Mário Ypiranga Monteiro


Mário Ypiranga Monteiro
Após o brilhante sucesso alcançado com as edições estereotipadas de livros raros, com que a Associação Comercial do Amazonas prestou notabilíssimo serviço à comunidade pensante, não foi muito feliz com o lançamento de um álbum de fotografias, apresentado a título de “culmen” original (!). O fato daquela respeitável instituição não contar, no seu projeto cultural, com um assessor hábil e mais experiente em temas regionais, vem condicioná-la, injustamente embora, ao rigor da crítica necessária e oportuna.
O referido álbum tem por título – A CIDADE DE MANAUS E O PAÍS DAS SERINGUEIRAS e, no dizer vacilante do apresentador, “marca o período anterior às grandes melhorias urbanas, realizadas por Eduardo Ribeiro e Fileto Pires”. Fileto Pires Ferreira entra na história como Pilatos no credo.
Não devemos esquecer que a maioria das melhorias urbanas são de inspiração provincial, ou que o Estado recebeu em forma latente ou que pôs em prática, executou. O despropósito começa no cupiá. Pela forte razão do álbum conter apenas dezessete vistas de Manaus (o resto nada tem a ver com a cidade), segue que não se trata de coisa singular nem muito específica. E não é. Algumas fotos inclusas já apareciam em livros, jornais, revistas, álbuns anteriores ao que surge como amostra em 1893.
É fácil de perceber: o seringal “Providência” aparece em foto publicada em 1892, igualmente na rua dos Remédios, o edifício da Prefeitura Municipal, igreja de São Sebastião, ponte de ferro dos Remédios, casas flutuantes isoladas.
O comentador do álbum não foi feliz em muitas circunstâncias, peca por não conhecer a história da cidade, aquela outra história que se apresenta nos documentos oficiais. Não é suficiente olhar para uma foto, relacioná-la com uma época e tirar ilações. Cita-se a propósito uma teoria de fotógrafos, como presumíveis autores do álbum, mas ficaram no oblívio injusto as tendas do pioneiro da fotografia de Manaus, já em 1860, o cidadão Hunnewel, havendo outro, depois de 1896, o italiano Silvio Centofanti. Qualquer destes poderia também aparecer como autor de fotos que passaram alegar publicações.
Entretanto que é conhecido o autor verdadeiro do primeiro álbum de mais ou menos 1892-96. Contrato firmado com o governo para a execução de um álbum colorido que não foi executado, e a que substituiu o pequeno, 26x19, todo ele impresso em tinta cor-de-rosa vivo. Um outro álbum, do mesmo tamanho, em preto-branco, circulou depois de 1896, mas muitas fotos são reedições daquele colorido. É agradável de ver-se o pletorama de Manaus, os prédios, as pessoas, os vegetais, tudo cor-de-rosa, a cor ideal da idade de ouro, da abastança particular e pública. Hoje se diz metaforicamente tudo azul. Naquela etapa poderia dizer-se tudo cor-de-rosa. Assim aparecem a igreja de São Sebastião, o mercado, o porto de Manaus sem a Alfândega nova etc.
Entretanto não é isso que nos desgosta e coloca na berlinda a responsabilidade editorial da ACA, utilizando-se de inábil intérprete para ensinar as gerações atuais. Algumas legendas das fotos revelam a escassez de conhecimentos do autor. Vamos examiná-las e corrigi-las, pela ordem de entrada.

PALÁCIO DOS GOVERNADORES. O autor dela insinua, desalertado do hábito perigoso das generalizações, haver sido ali a “residência oficial dos presidentes provinciais e governadores estaduais até a aquisição do atual Palácio Rio Negro”. E anteriormente a 1865, quando se iniciam as obras, onde dormiam os preclaros? Nenhum presidente ali residia, nem provincial nem estadual.
O general Dr. Miranda Reis morava na hoje avenida Sete de Setembro e o último prócer político, Dr. Pedro de Alcântara Bacelar tinha seu humilde teto na hoje avenida Getúlio Vargas. Se perguntarmos onde dormia o Dr. Eduardo Ribeiro, sabemos que no belo edifício da rua José Clemente Pereira; e o Dr. Fileto Pires Ferreira na mesma casa onde dormiu o general Miranda Reis, então rua Municipal. E nem mesmo João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha foi dormir no antigo palácio dos governadores, aquele que precedeu ao segundo, junto à Alfândega.

PRAÇA 15 DE NOVEMBRO – A legenda insinua absurdos de má redação, que tornam ambíguo o aspecto nocional: edifício “depois denominado Kahn Pollack” e as “palmeiras imperiais antecedentes das mangueiras” (!). O edifício que se observa na esquina, já era de propriedade de Kahn Pollack, e que pegou fogo pouco tempo após a liberação dos escravos no Amazonas, sendo levantado o de frontão ornamental. Mangueiras e castanholas é exato que ali frutificassem, porém, as primeiras são posteriores de muito a 1900 e pelas fotos da época observam-se troncos e ramos ainda jovens, esguios.
O que predominava mesmo era a castanhola, cujo fruto ácido satisfazia a gula da malta. O curioso é que as mangueiras não chegaram mesmo a envelhecer. De repente construiu-se ali um bar Ajuricaba e as mangueiras se foram naquela parte. Mais tarde iam-se também as palmeiras imperiais durante a ardida administração municipal do coronel Teixeira. Tudo isso se verificou sob a complacente negligência da imprensa, embora muita gente de respeito, como Genesino Braga, houvessem protestado. A legenda não está positivamente errada, apenas embrulhada numa proposição galimática.
Página do livro remendada por Mário Ypiranga Monteiro

TEATRO AMAZONAS – É um desenho de Crispim do Amaral e foi publicado em jornal da época e num livro “Questões penitenciárias”, do Dr. Regalado Batista, página 251, junto com outras fotos idênticas às do referido álbum, e eu mesmo reeditei-a na página 89 do primeiro volume do meu livro “Teatro Amazonas”.

ASILO ORFANOLÓGICO BENJAMIN CONSTANT – Existem vários erros bem chocantes na legenda: esta deveria explicar que o prédio e o terreno constituíam o solar do barão de São Leonardo, solar vendido ao governo quando aquele titular emancipou seus escravos antes de tempo e transferiu-se para o Ceará. O que choca, porém, é a ambiguidade da pretensa dilucidação: “Aqui editou-se a revista científica ‘Vellosia’, com vários números, uma das primeiras no tipo, no Brasil”. Conhece-se uma metáfora de sentido, mas ao povo não é dada a habilidade de resolver criptogramas.

RESERVATÓRIO DA CASTELHANA – O autor da legenda diz que o “estilo arquitetônico era o mesmo da casa de bombas e das represas etc.” Ou é a má redação ou é a péssima erudição, porque nem o pretérito e nem os vândalos destruíram o prédio da Castelhana. Em hipótese alguma esse “era” possui virtuosismo e atualidade. Acontece que o estilo do edifício da Represa da Cachoeira “era” (aqui se instaura o passado), acomodavam-se ao estilo dos prédios da Alfândega, da ex-casa das máquinas do “roadway” da ex-Manaus Harbour, da ex-enfermaria Militar, do Palácio Mourisco, do ex-Alcazar (ex-Guarani), da Penitenciária.
O da Castelhana, mais antigo, é compósito, uma réplica mirim de meia-castra francesa com suas torrículas, suas ameias, seus dentes pontiagudos, seus arremedos de ogivas, seus janelões simulando portas. O autor das legendas considera em boa hora que “foram destruídos por extratores de pedras”. Deveria ter dito que um governo relapso, pusilânime, entregou tudo àquilo ao coronel Tancredo Cunha, cujo destruiu tudo, aproveitando as pedras para a construção da piscina do Bosque, que tem seu nome. Como se vê é uma história diferente e bem triste para os nossos foros de civilizados. Exatamente o que vem acontecendo no momento.

RUA DOS REMÉDIOS, atual de Miranda Leão. É foto antiga, anterior a 1892. Não se compreende o que a legenda precisa a respeito: “após a construção da ponte do mercado de ferro, a partir de 1882” (?). É ambígua a descrição, sujeita a devaneios...

IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO – A legenda insinua o seguinte, que desperta logo náusea: “Já apresentava, em 1893, o mesmo aspecto atual”. Mas como, se o aspecto atual é algo diferente, com a presença do domo bizantino, que não aparece na foto do álbum? Aliás a história da igreja já está escrita por mim e publicada e agora o Patrimônio Histórico vai tirar uma edição ilustrada e documentada.

MERCADO PÚBLICO – Há que consertar a legenda. Não existe nenhuma referência ao antigo mercado, pois o que aparece na foto já é o segundo chantado ali mesmo, sobreposto ao outro.

PONTE DOS REMÉDIOS – O autor da legenda dá-lhe, erroneamente, o nome de Ponte da Glória. A ponte da Glória era de madeira, muito extensa, partindo da rua atual de Guilherme Moreira para a de Leovegildo Coelho, um lançante sobre o igarapé dos Remédios (hoje avenida Floriano Peixoto), em continuação à decantada travessa da Glória, atual rua Quintino Bocaiúva. Possuía bancos e luminárias e deu muita dor-de-cabeça aos edis, por ser ponto de convergência de namorados e de ociosos que apagavam os lampiões para o desfrute do amor... segundo as partes dos fiscais.
O pior, porém, é que no álbum está legendado corretamente “Remédios à Bridge”. A mesma erronia surge na página oposta. Aliás, para falar em material pré-fabricado, de ferro, a história é mais antiga e vem da Província, com as igrejas de Parintins e de outros municípios, já não existentes, cujo modelo vem no meu livro “A Catedral Metropolitana de Manaus”. Poderíamos lembrar igualmente o tanque d’água dos Remédios, o gasômetro e os numerosos portões ornamentais e gradis.

SERINGAL PROVIDÊNCIA, rio Purus. A legenda é um tapa-misérias discutível. Era proprietário do seringal o comerciante português Caetano Monteiro da Silva, genitor do nosso velho mestre de latim, padre Manuel Monteiro da Silva e do cidadão Manaus Monteiro da Silva, que presumo ainda viva. Essa mesma foto já vinha publicada em outras páginas referentes ao Amazonas.

Na penúltima foto o autor das legendas descobre que as casas sobre jangadas de madeira, do lago Marranhã, foram criadas pelos índios Paumari e abona a autoridade de Manuel Lobato, o mesmo Lobato que num livrinho sobre a borracha reproduz ilustrações de livros de antigos viajantes sem declinar a origem, manobra que o autor das legendas repete num dos seus livros.
Difícil coisa é tomar a parte pelo todo, e é mais difícil ainda improvisar conhecimentos, permutando a nuvem por Juno. Armações sobre jangadas de madeira ou de bolas de borracha eram tão antigas nos rios da Amazônia, que apontar um epônimo é o mesmo que vacilar na escolha entre o ovo e a galinha.
A foto da menina que aparece com o torso nu foi publicada pelo viajante Lourenço da Fonseca (“No Amazonas”, p.78), com a legenda: “A nossa serviçal (rapariga das margens do Purus)” e dá-la como mamaluca, que é o que parece ser, pela fisionomia e vestuário, embora no álbum referido apareça a indicação: “Palmary girl – Purus river”.

Com estas hipóstases não é mais possível acreditar nas boas intenções do serviço editorial da ACA. Assim, não. Que a presidência daquela entidade, em que pomos o nosso respeitoso crédito, daqui por davante organize “realmente” um conselho editorial competente, e que a esse conselho seja deferida a grande responsabilidade de por seu aval nas obras a serem editadas. Apesar de que meu nome faça parte (fazia) do rol dos integrantes da Comissão Cultural do Fundo Editorial, não fui cheirado quando se decidiu publicar o álbum que é objeto desta crítica e de que possuo um exemplar fragmentado. O que foi para mim e muitas outras pessoas interessadas, desagradável surpresa, tanta invencionice ocorre sob a tutela da História. Aliás, não era de esperar-se coisa melhor. Doloroso parto de que saiu apenas um “ridiculus mus”.
E tudo isso para quê? Para comemorar o advento da alforria negra! Como se houvesse alguma relação entre alhos e bugalhos. Muito mais coerente seria se a ACA publicasse, fac-similado, o trabalho sobre a escravidão negra e sua manumissão, da lavra do historiador (esse sim, historiador) Dr. João Batista de Faria e Sousa.
“Vanitas vanitatum”...

(*) A Crítica, 4 de julho de 1988