CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

28 de março de 2012

Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (1ª parte)

Ainda em homenagem aos 95 anos de existência, vou reproduzir um texto do saudoso presidente Agnello Bittencourt, escrito para lembrar os 40 anos desta agremiação cultural, fundada em 1917. devo apenas acrescentar que diferente da Acdemia Amazonense de Letras, cujos fundadores foram os acadêmicos empossados na inauguração, o IGHA admitiu como fundadores todos aqueles que estiveram na sessão de abertura. No entanto, existem os sócios efetivos, os quais administram esta organização.
Agnello Bittencourt

Agnello Bittencourt
especial para O Jornal, Manaus, 28 de abril de 1957


Completa hoje 40 anos de utilíssima existência o nosso Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, pois foi a 25 de março de 1917 que teve lugar a sua instalação festiva, sendo Governador de Estado o saudoso Dr. Pedro de Alcântara Bacellar, que presidiu a sessão e se fez um grande animador do novel sodalício.
Estiveram presentes à cerimônia, como era natural, muitas autoridades, pessoas gradas e gente do povo, segundo o nosso testemunho e o noticiário dos jornais da época. Como homenagem à memória dos muitos que não mais existem, mas tomaram parte nas alegrias do momento, lembramos, apenas, os que nos ocorrem: Dom Irineu Joffily (bispo), Des. Hamilton Mourão, Drs. Alfredo Augusto da Matta, Vivaldo Lima, Manoel Francisco Machado (barão do Solimões), Manuel de Miranda Simões, Alcides Bahia, Pedro Luiz Simpson, Alexandre de Carvalho Leal, Astrolabio Passos, Francisco Pedro de Araújo Filho, Armando Barbuda, Plácido Serrano Pinto de Andrade, Elviro Dantas Cavalcante, professores Raymundo de Carvalho Palhano, Vicente Telles de Souza, José Estevão, coronéis Antonio C. R. Bittencourt, José Cardoso Ramalho Júnior, Adrião N. Ribeiro, padre José Thomaz de Menezes, capitão Sérgio Pessoa Filho, Drs. João Baptista de Faria e Souza, João Henrique dos  Santos e major Lobato de Farias.
Devidamente eleitos, pela Assembleia Geral, segundo os Estatutos já aprovados pelo governo do Estado, a primeira diretoria do Instituto foi assim constituída: coronel Bernardo de Azevedo de Silva Ramos, presidente; Dom Irineu Joffily, 1º vice-presidente; Dr. Antonio Ayres de Almeida Freitas, 2º vice-presidente; Prof. Agnello Bittencourt, 1º secretário; coronel Henrique Rubim, 2º secretário, e coronel Antônio C. R. Bittencourt, tesoureiro.

Pelo Decreto nº 1191, de 18 de abril 1917, o governo do Estado cedeu ao Instituto o usufruto perpétuo dos prédios nº 19 e 20 de sua propriedade, situados na antiga rua São Vicente (hoje Bernardo Ramos), onde funciona; e pela Lei nº 897, de 24 de agosto do mesmo ano, foi reconhecido de utilidade pública.

Desde logo, o Instituto começou a formar suas preciosas coleções preparando mostruários, arquivo, biblioteca e publicações, além de constantes reuniões festivas de caráter cultural e cívico. Raro era o mês em que, ali, não se fizessem conferências, exposições, aulas e homenagens à memória de homens notáveis e a visitantes ilustres.

Nenhuma data patriótica deixava de ser comemorada, sempre com o sentido de exaltação de que tanto precisam as gerações novas. Dentre tantas solenidades que o instituto realizou, recordemos, tão somente, por falta de espaço, apenas as seguintes, umas comemorativas, outras de recepções e conferências:

·      Sessão em homenagem à memória do conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira e sobre o abolicionismo, em 13-5-1919.
·      Idem, em 7-9-1922, celebrando o 1º centenário da Independência Nacional.
·      Idem, conferência da profª. Euthalia Barroso Ramos sobre a necessidade da implantação da língua Esperanto, em 2-7-1933.
·      Idem, em memória de Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos da América, em presença do cônsul desse País e da Comissão científica norte-americana que nos visitava, em 16-5-1924.
·      Idem, em memória do coronel Bernardo Ramos, ex-presidente do Instituto, em 5-4-1931.
·      Idem, conferência do comandante Braz Dias de Aguiar, chefe da Comissão Demarcadora de Limites do Setor Norte, sob o título “Cinco Anos de Demarcação”, em 5-11-1935.
·      Idem, homenagem à memória de Carlos Gomes, no transcurso do 1º Centenário do seu nascimento, em julho de 1936.
·      Idem, por motivo do falecimento do cientista italiano Guglielmo Marconi, em26-6-1937, sessão em conjunto com o Consulado da Itália, em 21-8-1937.
·      Idem, em memória de Aureliano Cândido Tavares Bastos, à passagem do centenário do seu nascimento, 20-4-1939.
·      Idem, à memória de Irineu Evangelista de Souza, visconde de Cairu, no cinquentenário do seu falecimento, sessão em 13-2-1941.
·      Idem, pelo 4º centenário do descobrimento do rio Amazonas, em 12-2-1940.
·      Idem, no transcorrer do centenário de nascimento do grande botânico e etnólogo brasileiro Barbosa Rodrigues, que tantos anos viveu em Manaus, em 23-6-1942.                                                                                                                                                                                                                                                          
A essas festas não faltavam o apoio oficial, nem brilhantes oradores e assistência.
Adriano Jorge

Para o Arquivo do Instituto, entrou, aos poucos, um acervo bem valioso. Lá, estão documentos seculares referentes a fatos da nossa evolução política.
Convém não esquecer, na riqueza desse Arquivo, a coleção de jornais e revistas que se editaram, quer no regime imperial, quer no republicano, desde a Estrela do Amazonas (1852) até 1946, coleção adquirida pelo Instituto, aos herdeiros do saudoso sócio, o amazonense João Baptista de Faria e Souza.
No citado arquivo entraram e, lá, devem estar autógrafos não menos valiosos, inclusive um Parecer do conselheiro Ruy Barbosa; bem assim, dois “Livros de Atas”, autênticos, sendo o mais antigo, de janeiro de 1852, no qual se encontram o Têrmo da Instalação da província do Amazonas; o do lançamento da pedra fundamental da Igreja da Matriz desta capital; o da libertação dos escravos, de 10 de julho de 1884; o da Ponte de Ferro da Cachoeirinha etc, etc.
Há, ainda, uma autobiografia inédita de Pedro Luiz Símpson, autor da Grammática da Língua Brasílica, de 1876. Na biblioteca, que pensamos possuir mais de dois mil volumes, há obras verdadeiramente raras e, por isso, de um valor inestimável. Lembramos, entre outras, as seguintes: História Natural, de Cayo Plínio Segundo. Madrid, dois grossos volumes, traduzida para o espanhol, ed. 1624; Paradisos, de Ludivici Blossi, Antuérpia, 1632; Compendi Historici, de Affonso Loschi, Vicenza, 1668; Memórias para a História que compreende o governo del rey d. João 1º. Lisboa, quatro grossos volumes, 1746.

Não menos admirável, pela abundância e raridade é a sessão etnográfica, que enche um salão contendo objetos indígenas, de ornato, caça, pesca, trabalho, guerra, religião etc. A nosso ver, o mais interessante e singular desse mundo selvícola é a coleção de machados de pedra, em geral de diorito.
Cerca de 130 exemplares, de formas e tamanhos diferentes, e atribuidos a tribos, algumas já desaparecidas, há mais de um século, como podemos constatar nas listas que encontramos em Barbosa Rodrigues, Araújo Amazonas e outros. 
Alfredo da Matta

É, possivelmente, a maior coleção do Brasil. Onde estariam semelhantes peças, se não fosse a coleta do Instituto? E, sem dúvida, ótimo elemento entregue às investigações de etnólogos empenhados na descoberta da origem das tribos que vieram ocupar a Amazônia, antes da Descoberta.
Em mostruários diversos, ali estão blocos de pedras, vidros contendo areias, terras, argilas, sementes, resinas, óleos. Mais além, couros e peles, coleção de madeiras, fibras, borracha.
Convém que o Instituto não pare, na sua coletânea, nos seus estudos e na conservação desse precioso acervo das riquezas, naturais e espirituais da Hiléia. É um dever dos governos e, particularmente, de cada um de nós, homens de pensamento e de ação, pela grandeza da Amazônia.  (segue)