CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, setembro 20, 2026

POEMA DOMINICAL (67)

A postagem reproduz o poema de Elson Farias, circulado no Jornal do Commercio, de 12 de setembro de 1976, há exatamente 50 anos.

Recorte da coluna do Jornal do Comercio,
12 setembro 1976

    

Canta o verso e sua música

como o remador do rio.

não importa que esse canto

venha quente ou venha frio

 

o que importa é que haja estrela

e haja fogo no pavio

da lamparina na trempe

dando luz à cumieira

 

e as marrecas se anunciam

voltando para os poleiros

lá onde os olhos não chegam

quer sejam de bons mateiros

 

tal e qual um vagalume

nas moitas da ribanceira

quando cai a noite nova

sem a lua e sua estrela

 

e a safra do rio se faça

de modo menos vasqueira

como a luz da lamparina

dando luz à cumieira

 

e os carapanãs se escondam

com medo da luz do dia

que se faz por trás da faixa

da mata, como fatia.

 

domingo, dezembro 01, 2024

POESIA DOMINICAL (4)

  O poema deste domingo foi compartilhado do Jornal do Commércio (ed. 16 janeiro 1955), em sua coluna “Social”, destinada a divulgar esta arte produzida pelos leitores manauaras. Desconheço qualquer referência sobre o autor citado, lembro apenas que na Polícia Militar estadual serviu o tenente Olympio da Rocha Catingueira, quiçá um seu descendente. 


 INCOMPREENDIDO

Escreveu Olympio da Rocha

 

Eu sou a vida, e sou a morte, a desventura


Cresce em mim como espinhos crescem nas roseiras,


Sinto a dor a sorrir, disfarço essa amargura,


Num sonho de alcançar as ilusões primeiras...

       Lembro e julgo esquecer a trágica tortura

        Procuro em vão a luz, nas ânsias derradeiras,

        Perscrutando onde irá o mal que transfigura

        E traz o bem estar das crenças verdadeiras...

         Tenho fé e descreio, e sigo, e retrocedo,

Penso que estou exausto e vejo-me tão forte

Mostro coragem e, contudo, sinto medo!...

                Retardo a vida, e mais se me encaminha a morte

                Sepultei o meu sonho, exumando um segredo,

        Prevejo agora o fim de minha estranha sorte!...

domingo, setembro 15, 2024

POESIA PARA O DOMINGO

 Houve um tempo – somente os idosos se lembram - em que os jornais publicavam com assiduidade poemas de indistintos autores. Em datas comemorativas, a produção aumentava. Até os domingos serviam para uma coluna mais apurada, como a que compartilho de O Jornal, edição de 29 de janeiro de 1956.

 

Recorte do referido periódico

 

SERENATA

 

A avenida, silente, iluminada,

Está deserta. E um trovador, apenas,

Evocando a evidência de Mecenas.

Modula estrofes de amor à sua amada.

 

Ela que em níveo leito está deitada,

Lembrando Aspásia na formosa Atenas,

Aromas trescalando de açucenas.

Tremente, abre a janela, apaixonada

 

E na amplidão da noite tão imensa,

A lua branca lá no céu fulgura,

Qual se fora de luz hóstia suspensa.

 

O trovador, de crença a alma constela,

Que do seu peito, em mística figura,

Nasce a canção de amor mais pura e bela.

 

 

A  PA R T ID A

 

Parti, chorando, em busca de outro norte,

Naquela tarde clara de setembro...

E agitado fiquei, membro por membro,

Quando um triste anexim pintou-me a sorte.

 

Passou-se o tempo. E hoje, inda me lembro

— Esquecer quem há-de a emoção mais forte? --

Da formosa Raquel -- seu belo porte —

Imagem viva que jamais deslembro.

 

Raquel, quando eu parti, chorara tanto

Que eu vi nos olhos seus de uma fonte amara

Cair torrentes de um dorido pranto.

 

Longa tristeza. Tão cruel martírio!

O anexim cumpriu-se. E com a dor ficara

Roxa saudade, como um roxo lírio.

 

O Jornal,

29 de janeiro de 1956  

segunda-feira, abril 03, 2023

MANAUS: SUA FEIRA DOMINICAL

 A Feira da Eduardo Ribeiro realizada aos domingos inspirou-me a postagem.

Nos quadros, a representação do artesanato
comercializado




domingo, novembro 03, 2019

DOMINGO NUBLADO

Nublado ou coisa parecida. Tanto que após a vitória do Flamengo sobre o Corinthians, e outros razoáveis tropeços, recorri ao saudoso padre-poeta L. Ruas, que me socorreu com esta crônica compartilhada do Jornal do Commercio, veiculada no suplemento da UBE (União Brasileira de Escritores) local, edição de 16 de agosto de 1970.

Recorte do mencionado jornal

Crônica para o amanhã

Tarde está cansada. Há macios cinzentos nas calçadas.

Hoje, talvez, fosse bom navegar em teus mares, ó cálida e vespertina doçura. Hoje, talvez, fôssemos além destes limites de azul.

Pelos ferros contorcidos da claraboia, a luz tenta uma transfiguração dos minutos. Ler a revista, sem pressa. Tragar um cigarro sem emoções. Não mover os olhos. Não molhar os lábios. Não desejar. Apenas aceitar a comunhão suave da tarde cansada.

Cessaram os ritmos violentos que rompem a tranquilidade dos equilíbrios e nos jogam, em rodopios, para o plano momento. Ah! O claro momento!
A luz cai intensa e perpendicularmente sobre a retina e fere o idílio da luminosa comunhão dos seres que se consomem na espera.

O retorno para o que foi. Há sempre retornos nos momentos da tarde, véspera da noite. Amanhã é possível que haja outras partidas.

Vejo-te. Quero-te. Sinto que te fazes presente nos momentos silenciosos do entardecer. Hoje te procuro. Hoje te desejo. Vermelho é rosa do que vivi. É sempre possível olhar no espelho e não ter medo de esperar o amanhã. Se você tomar o vermelho da rosa em suas mãos, ele se transforma silenciosamente em tarde.
Tarde cansada.

Desce em mim tua ternura feita de quietude. Estas folhas que se desprendem sem rumorosos. Agora todos estamos reconciliados. É quietude e sombra este caminhar de leve que se integra em nossa voz que murmura qualquer som.

Agora é preciso esperar a noite.
Agora é preciso desejar o amanhã.