CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, outubro 25, 2026

POEMA DOMINICAL (155)

 

O poema postado nesse domingo é de autoria do poeta Álvaro Botelho Maia (1893-1969), circulado no Pathé Journal,  para comemorar o Natal de 1922. 


BANHISTA

Dança no mar a célere banhista,

roupão de seda, sob um sol de praga...

Ao marulho, áureo tango que embriaga,

abre a boca, ergue o ventre, o seio enrista...

 

Mergulha, emerge, nada à nossa vista...


O oceano, amante que a perturba e afaga,


esconde uma perfídia em cada vaga


para o instante supremo da conquista. 

No leito verde, que estremece e estronda,

soluça a carne da mulher robusta,

ao teu beijo, espuma, ao teu abraço, onda!

 

E, enquanto aperta os vagalhões em fúria,


ao lençol brando da estação adusta,


solta o vento lamentos de luxúria...  


domingo, maio 31, 2026

POEMA DE DOMINGO

     O poema deste domingo - Margem do Caminho - é criação do saudoso Álvaro Maia (1893-1969) publicado no jornal A Crítica, em 03 de fevereiro de 1958.

      
Recorte do jornal
 
    

                        — I —

O lutador subiu a estrada tortuosa...

Subiu, andou, pioneiro de horizontes,

cortados de planícies e de montes,

de longes de ouro e rosa,

colorindo a paisagem... 

Chegara extenuado da viagem

e repousava à sombra da vertente,

que amenizava a soalheira ardente... 

                        — II —

Sentou-se. Ergueu as mãos, no recanto risonho,

para agradecer ao Senhor

e o consolo da vida interior... 

Aos ombros carregava o alforje do passado,

que lhe tombou ao lado.

Abriu-o, devagar,

e pedras rolaram pelo chão. 

Brilharam ao sol quebrado,

algumas verdes como o mar,

outras letais como o pecado,

com brilhos de atração e repulsão. 

Acariciou-lhes as pontas entreagudas.

Pensou em gólgotas e judas,

(Jesus, porque foi homem, teve Judas!),

e nos que escondem, num sorriso,

punhais de aço com os gumes entreabertos. 

                        — III — 

Fechou os olhos e sorriu,

imerso no dulçor de um grande rio... 

Sonhos, ilusões, gosto e desgosto,

fluíram das pedras, como flama.

(Passam sempre nos dias de quem ama).

Esta acertou-lhe o rosto,

rasgando carne e derramando sangue,

outra o peito, outra a cabeça,

mas todas pingando sangue.

Surgiram, pela estrada espessa,

carrancas de inimigos

e feições de amigos,

transbordando crueldade

e piedade... 

Vivos e inquietos na tremenda luta,

lembravam vinganças e alvoroços. 

— “Só o lutador errou, pela escalada...

Mostrámos o caminho: errou na caminhada,

embaraçado em dédalo infernal,

em queda estranha e bruta... 

Andámos com razão em apedrejá-lo,

como se faz ao cão danado e ao mau cavalo!” 

                        — IV — 

Ele ouviu, em silêncio, a ameaça fatal

e pediu que o Céu lhe desse um resplendente halo,

que todos, fossem velhos, fossem moços,

fugissem, de uma vez, às vibrações do mal. 

Queria dormir... Pegou as pedras, uma a uma,

e bebeu um verdor de sumaúma... 

Eram duras à fronte fatigada?

Deitou-se. Não! Ganhara um encosto macio,

tecido de paina e espuma,

próprio para o calor e para o frio... 

Sentiu que as pedras se mexiam,

ouviu que as pedras cantavam,

como preces de luz em manhã clara... 

Todas as bordoadas e castigos,

o sangue e o suor que derramara,

transformaram-se em pêndulos dum hino,

em bússola e em coragem nos perigos... 

Renasceu, redimido e pequenino...

Quase lhe saltava o coração,

aureolado em sol aos que o feriram... 

E teve o prêmio da consolação,

agradecido aos que o insultaram,

vilipendiaram

e vergastaram,

saqueando o património de uma vida,

mas lhe deram também, em horas sem concórdia,

a alta conquista da misericórdia,

a sobrevivência

e a resistência,

a humilhação

e a exaltação,

a força espiritual de nova Vida!


domingo, fevereiro 23, 2025

POESIA DOMINICAL: ÁLVARO MAIA

 O poema foi produzido por Álvaro Botelho Maia (1893-1969), fartamente conhecido na história do Amazonas, tendo sido dirigente do Poder Executivo por largos anos, a última etapa foi entre 1951-55. Para sublinhar sua condição de artista da poesia, basta relembrar que, no início de 1925,a revista Redempção em concurso público, consagrou como o "príncipe dos poetas amazonenses".
A relíquia foi compartilhada do matutino A Crítica (08 fev. 1958), portanto há 67 anos.

Recorte de A Crítica, 8 fev. 1958



O lutador subiu a escada tortuosa...

Subiu, andou, pioneiro de horizontes,

cortados de planícies e de montes,

de longes de ouro e rosa,

colorindo a paisagem...

Chegara extenuado da viagem

e repousava à sombra da vertente,

que amenizava a soalheira ardente...

 

- II -

Sentou-se. Ergueu as mãos, no recanto risonho

para agradecer ao Senhor

e o consolo da vida interior...

 

Aos ombros carregava o alforje do passado,

que lhe tombou ao lado.

Abriu-o, devagar,

e pedras rolaram pelo chão.

Brilharam ao sol quebrado,

algumas verdes como o mar,

outras letais como o pecado,

com brilhos de atração e repulsão.

 

Acariciou-lhes as pontas entre agudas.

Pensou em gólgotas e judas,

(Jesus, porque foi homem, teve Judas!),

e nos que escondem, num sorriso,

punhais de aço com os gumes entreabertos.

 

— III —

Fechou os olhos e sorriu,

imerso no dulçor de um grande rio...

 

Sonhos, ilusões, gosto e desgosto,

fluíram das pedras, como flama.

(Passam sempre nos dias de quem ama).

Esta acertou-lhe o rosto,

rasgando carne e derramando sangue,

outra o peito, outra a cabeça,

mas todas pingando sangue.

Surgiram, pela estrada espessa,

carrancas de inimigos

e feições de amigos,

transbordando crueldade

e piedade...

 

Vivos e inquietos na tremenda luta,

lembravam vinganças e alvoroços.

 

-- “Só o lutador errou, pela escalada...

Mostrámos o caminho: errou na caminhada, embaraçado em dédalo infernal,

em queda estranha e bruta... 

Andámos com razão em apedrejá-lo,

como se faz ao cão danado e ao mau cavalo!”

 

-- IV –

 

Ele ouviu, em silêncio, a ameaça fatal

e pediu que o Céu lhes desse um resplendente halo,

que todos, fossem velhos, fossem moços,

fugissem, de uma vez, às vibrações do mal.

 

Queria dormir... Pegou as pedras, uma a uma,

e bebeu um verdor de sumaúma...

 

Eram duras à fronte fatigada?

Deitou-se. Não! Ganhara um encosto macio,

tecido de paina e espuma,

próprio para o calor e para o frio... 

 

Sentiu que as pedras se mexiam,

ouviu que as pedras cantavam,

como preces de luz em manhã clara...

 

Todas as bordoadas e castigos,

o sangue e o suor que derramara,

transformaram-se em pêndulos dum hino,

em bússola e em coragem nos perigos...

 

Renasceu, redimido e pequenino...

Quase lhe saltava o coração,

aureolado em sol aos que o feriram...

 

E teve o prêmio da consolação,

agradecido aos que o insultaram,

vilipendiaram

e vergastaram,

saqueando o patrimônio de uma vida,

mas lhe deram também, em horas sem concórdia,

a alta conquista da misericórdia.

a sobrevivência

e a resistência,

a humilhação

e a exaltação,

a força espiritual de nova Vida!


domingo, dezembro 15, 2024

POESIA DOMINICAL (5)

     Prossigo relembrando o antigo hábito cumprido pelos jornais de Manaus no século passado: a publicação de poemas de artistas consagrados ou não. Nesta postagem, Américo Antony evoca o conhecido governador Eduardo Ribeiro, saudando o amigo Avelino Pereira, médico oftalmologista. A segunda foi escrita por Ary de Andrade, poeta sem referências. 

Publicados no jornal A Gazeta👆
em O Jornal, 1º julho 1962👇

 

domingo, outubro 27, 2024

POEMA DOMINICAL

Este poema  de Auri Silva Braga, integrante do Clube do Arrebol, foi compartilhado do Jornal do Commercio (25 abr. 1958), publicado ao tempo em que era praxe os periódicos de qualquer tamanho assim procederem. Em nossos dias, os jornais encurtaram o tamanho e extinguiram a coluna de poesias. 

 

Recorte do mencionado jornal

ENCONTRO COM A FELICIDADE

AURI SILVA BRAGA

(Do Clube do Arrebol)

Sempre ouvira falar da felicidade

Qual meiga fada para mim desconhecida

Então parti a procurá-la pela vida

Com ardente desejo, com imensa vontade.

 

Busquei-a nos brilhantes píncaros da glória,

No deslumbrar das riquezas a ela não vi,

Nas ilusões fugazes busquei com frenesi,

Ainda nos triunfos não logrei vitória.

 

Onde está a felicidade que procuro?

Em vão meu peito fraco e inseguro,

Clamou por ela sem poder a encontrar.

 

Por fim cansada voltei desiludida

E na humildade do meu ponto de partida,

A felicidade veio-me abraçar.


 

domingo, agosto 18, 2024

DOIS POETAS AMAZONENSES

 Na sequência: i) a capa do livro de poesia de Farias de Carvalho (1930- 1997) - PÁSSARO DE CINZA (Manaus, 1957); ii) o oferecimento inserido no exemplar de Farias para Mário Ypiranga (1909-2004), folclorista e, em tempo oportuno, poeta; e iii) a consideração pouco lisonjeira de Ypiranga expressa em página do livro sobre o autor.

Livro publicado em Manaus, em 1957

Oferecimento do autor para "meu irmão querido"
Mário Y. Monteiro

Comentário de Mário Ypiranga: "Esse Farias é vigarista
até nas mensagens. Acaba pedindo uma entrada de
favor no Céu, como pedia ao Vasco Farias, no cinema."