CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 20, 2026

MEUS OITENTANOS (10)

            FASCÍCULO 10

 No Amazonas, assumiu o governador João Walter e, na Polícia Militar, o coronel Paulo Figueiredo (1971-73), que me manteve na função de Tesoureiro. A prestação de contas ocorria ao final do mês ao comandante, militar bastante exigente com as verbas recebidas, afinal cabia a ele responder por algum deslise junto à Corte de Contas. Certa ocasião, ele me interrogou: você já frequentou a alcova de alguma madame? “Sim, comandante”, respondi, meio ressabiado. Ele então ordenou que olhasse para as paredes da repartição, nelas eu havia colado alguns cromos florais, extraídos de calendários fornecidos pelas indústrias instaladas na cidade. Daí a comparação com os quartos de motel, enfim, foi uma forma simpática de mandar o capitão limpar as paredes. Quem sabe, por isso, sigo colando cartazes e outros impressos na parede de meu escritório doméstico.

 

Quartel da PM na Praça da Polícia, onde trabalhei
e estacionei meus carros.

Em maio, foi criada pelo governo a Comissão de Defesa Civil, que passou a atuar já no mês seguinte. O final de junho marcou o ápice da enchente regional, naquele mês vários municípios e bairros da capital ficaram severamente alagados, atingindo os moradores. Com o objetivo de lidar com a tragédia, o governo repassou ao comando da PM valores para a aquisição de gêneros básicos. Tratando-se da primeira vez em que esse procedimento seria executado, recebi instruções severas do chefe quanto à compra dos alimentos. A importância dos recursos era relativamente elevada; e logo recebi uma oferta de gorjeta. A fim de não me envolver na transação, terceirizei a negociata com o Amazonilo Castro, colega da faculdade, que realizou as compras no desaparecido Supermercado Royale. Com o troco obtido, comprei um Fusca seminovo disfarçando, com mais ou menos sucesso, o ardil.

Possuía, pois, dois automóveis que eram guardados em frente ao quartel, visto não possuir garagem minha residência; apesar de usados despertavam os olhares argutos do chefe da seção de informações. E veio mais um complicador: o amigo e compadre Mohamed Tarayra, dono de lojas na rua Marechal Deodoro, ao viajar deixava comigo seu admirável carro, que igualmente estacionava em frente à caserna. Logo, eu possuía três carros e, sendo tesoureiro, estava me locupletando na função. Enfim, as suspeitas permaneceram apenas nos rumores. A faculdade mantinha-me empolgado; em casa, idem, tanto que chegou a notícia de nova gestação, com nascimento previsto para novembro. 

Roberto Antonio, aos 34 anos

O bebê, que acompanhando a norma ancestral, batizei de Roberto Antonio, em homenagem ao pai e ao tio, nasceu no Dia de Finados. O parto previsto para o início de novembro, seria realizado no Pronto Socorro São José e eu havia contratado o obstetra doutor Wallace Oliveira, com consultório na rua Guilherme Moreira. No dia dos finados, o médico encontrava-se no feriado em seu sítio, inacessível. Ainda estava incipiente a comunicação telefônica móvel. Diante da apreensão do casal, apareceu uma enfermeira cujo nome não anotei e garantiu a vinda do moleque e que, caso sucedesse algum imprevisto, a Santa Casa situava-se ao lado. Tudo correu bem. Dias depois, no cartório para efetuar o registro, antes de indicar a data do nascimento, refleti: quem vai comemorar aniversário no Dia dos Mortos? Então, fixei – 3 de novembro, sem imaginar que no ano seguinte, Eduardo, nasceria a 5, e Diego, anos depois, a 7. Curiosamente, a madrinha batismal de RA, dona Dadá Fonseca, nasceu em 2 de novembro.

 

Rua Conselheiro Nebias, 301

As férias marcadas para dezembro ocorreram, agora com a família acrescida, inclusive da sogra e da cunhada, e fomos desfrutá-las em Santos, junto aos pais e irmãos, instalando-nos no apartamento 31 da rua Conselheiro Nebias, 301, que havia se transformado numa pousada, todavia, reconfortante pelo reencontro das famílias. Viajei de paletó e gravata, retomando o estilo de antanho, e aproveitando dois cortes de casimira de cortesia de amigos. Em Manaus, a confecção de roupas ocupava intensamente os alfaiates, que acumulavam encomendas. A família chegou à noite e, a despeito da hora, os peixes regionais foram levados ao fogo e servidos para acompanhar o bate-papo, que se prolongou pela madrugada. O verão santista foi salutar, contudo, as férias chegaram ao fim. Em janeiro de 1972 retornei à residência para cuidar dos pimpolhos e, ao quartel, da tesouraria.

domingo, novembro 02, 2025

DIA DOS FINADOS 2025

 Este Dia de Finados me traz recordações curiosas, porém como recorda o articulista - Renato Mendonça, antes havia uma sacralidade, a visita aos cemitérios, aos mortos era motivo de ganhar indulgências. Hoje, a preocupação é com o resultado do jogo de futebol e equivalências.

Sepultura no cemitério São Francisco, situado
no Morro da Liberdade - Manaus
 

DIA DE SAUDADES

02.11.2025                                                        Renato Mendonça

O dia de hoje, para a maioria dos cristãos, vem carregado de sentimentos. Antigamente, trazia no bojo uma certa sacralidade, recheado de emoções e lembranças de nossos entes queridos que “partiram”. São emoções profundas que nenhuma lógica humana consegue explicar. Um ar circunspecto, envolto em um mistério divino, acompanhava multidões aos cemitérios, aos jazigos ou aos espaços onde os finados deixaram suas marcas. Uma forma de reverenciá-los com gratidão.

Entretanto, a cada ano que passa por nós e nos abandona, confirma-se aquele velho adágio popular: “O pior da morte não é morrer, é ser esquecido”. Fazendo um contraponto com essa dialética da vida, devemos nos alicerçar em um pressuposto: aqueles que nos amaram e aqueles a quem amamos, não passam, jamais morrerão. A presença deles é inesquecível e faz parte do nosso ser e de nossa história.

A profundidade do mistério da vida nos é garantida pela imortalidade de Cristo, que vive em nossos corações e mentes. Ele, também, nos abastece de amor com argumentos místicos que se encerram numa fé profunda sobre o nosso porvir: "Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá" (Jo 11:25-26).

A morte de qualquer pessoa do nosso convívio nos faz pensar também na nossa, pois é inevitável. Esta realidade, ao invés de diminuir o sentido da vida, nos contextualiza dentro da lógica humana, para viver plenamente cada momento como se fosse a eternidade. Isso nos é oferecido pelo amor, pois só o amor nos eterniza.

O Dia de Finados, além de ser um momento de reflexão, é também um Dia de Saudades. Um dia de homenagem aos mortos e oportunidade de lembrar que nosso viver, aqui nesse plano físico, está confinado dentro de um espaço de tempo, dentro dos planos de Deus.

A Encíclica Gaudium et Spes nº 18 (Alegria e Esperança) nos oferece fundamentos filosóficos confortantes sobre a nossa condição humana: “Para qualquer pessoa que reflete, a fé dá-lhe uma resposta à sua angústia sobre a sorte futura. Ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de comunicar-se, em Cristo, com os irmãos queridos já arrebatados pela morte, trazendo a esperança de que eles já tenham alcançado a verdadeira vida junto de Deus”.

Por uma questão de obviedade, sempre lembro de minha mãe, falecida prematuramente. Hoje, nesse dia especial, estendo a todos os nossos entes queridos essa lembrança. Deus os guarde à sombra de Sua proteção e à luz de Sua Face!

Amém.

domingo, novembro 03, 2024

DIA DE FINADOS - 2024

 A lembrança dos Finados deste ano de 2024 pertence ao Renato Mendonça, mais uma vez exercitando sua competência com a simbologia religiosa. A ilustração me pertence apanhada ontem no cemitério de Água Verde, em Curitiba.

Detalhe da decoração em jazigo 

DIA DE FINADOS - 2024 

Embora faça parte da vida, temos dificuldades em aceitar a morte de maneira natural e humana. É como se fosse o corte do cordão umbilical de um bebê ao nascer, quando perde o contato fisiológico com a mãe, chora. Por que choramos a separação física? A Igreja não nos proíbe de chorarmos. Podemos, sim, oferecermos nossas lágrimas e saudades àqueles entes queridos que conviveram conosco, às vezes até como uma forma de gratidão pela lembrança e pelo legado que nos deixam. No meu caso, principalmente àquela que ofereceu seu ventre para geração da vida. Há os antepassados que, mesmo conhecendo apenas suas histórias, somos gratos por nos ofereceram a seiva do amor em genes, para a formação da estrutura familiar.

É extremamente difícil ver o pai, a mãe, os filhos, os irmãos ou mesmo os amigos íntimos arrebatados pela morte. No entanto, no mundo cristão em que fomos conformados, a fé nos ensina a sermos fortes nos momentos de dor e nos convida à meditação, usando como símbolo a vida e a morte de Jesus Cristo. Ele chorou a morte de seu amigo Lázaro, segundo as escrituras. Maria, sua mãe, chorou aos pés da cruz. Maria Madalena e outras pessoas choraram durante a crucificação. Tudo isso está registrado no Novo Testamento, que nos exorta ao não chorar por desespero, porém com a esperança na vida eterna.

Poderemos mitigar nosso sofrimento, encontrando alívio nas sábias palavras do apóstolo Paulo: “Não queremos, irmãos, que estejais na ignorância acerca dos mortos, para que não vos entristeçais como os outros, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus trará com ele aqueles que morreram em Jesus.” (1Ts 4,13-14)”

E por que recordamos os que já faleceram? Porque cremos que em Deus não existe a morte, todos vivem na fé, e fazemos parte da mesma comunhão tanto no céu como na terra; porque além do nosso corpo material, que é perecível, existe o espírito, etéreo e infinito, que perdurará além de nossa passagem por este chão. E é isso que chamamos de ressurreição, tomando como exemplo e modelo — recorro, novamente — a Paixão e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele veio para dar testemunho e elevar a nossa fé. É sempre bom acreditar em um Amor Maior que não tem fim, não se acaba...

E não podemos esquecer também o afeto que nos une aos nossos animais de estimação. O próprio adjetivo define que devemos ter uma estima elevada, para usufruirmos com eles nossas alegrias e enlevos, os encantamentos que nos oferecem. O lado triste dessa relação é que, quando há a separação, o sofrimento é muito maior. Porém, para quem tem fé em Deus, pode acreditar que há um paraíso animal para cães onde a minha Elzinha pode estar repousando agora, ou brincando, como era de sua índole. Eu não poderia deixar de fazer esse registro, pois hoje seria a data de seu aniversário de nascimento.

A todos nossos entes queridos, Deus os guardem à sombra de Sua proteção e à luz de Sua face! Amém.

terça-feira, novembro 02, 2021

DIA DOS FINADOS (1)

 

Detalhe da capela, apontado pelo anjo,
no cemitério de São João.

REFLEXÕES DO DIA DE FINADOS

“Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. 

E quem vive e crê em mim, jamais morrerá.” Jo (11:25-26).

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem vida eterna,

 e eu o ressuscitarei no último dia...” Jo (6: 54-55)

 

Este Dia de Finados, como em todos os anos, nos traz lembranças, sentimentos e emoções que nenhuma lógica humana é capaz de explicar. O clima diferente, que nos envolve, nos faz diminuir as palavras e aumentar nossos sentimentos de pesar, de perda e de tristeza.

Para quem nos amou muito, teve sua participação efetiva, tanto na nossa geração como na nossa criação e educação, e, se ainda os amamos tanto, essas almas merecem a nossa reverencia, nossa dedicação e memória.

Creio que o pior da morte, visto pelo lado humano de quem ainda permanece entre nós, não é morrer — afinal somos finitos —, é ser esquecido, abandonado em túmulos e nem ao menos ser visitado nestes dias de dedicação aos mortos. Qualquer lógica doutrinária que tente nos afastar dessa homenagem, para o cumprimento de um dever meramente humano, não tem lógica, não tem respaldo a partir da fé em Jesus Cristo.

A morte dos outros nos faz pensar na nossa, é inevitável. Mas, essa realidade cruel, não nos diminui o sentido da vida, pelo contrário, nos dá argumentos e fé para viver plenamente cada momento, como se fosse a eternidade.


Texto produzido pelo Renato Mendonça 

 

sábado, novembro 02, 2019

DIA DOS FINADOS

Manuel e Francisca, meus pais


Raimunda e Manuel e Lauro (criança) Barbosa, tios e primo

Acima, Vicente e Adelaide (avós), certidão de tio Fernando,
abaixo, tia Maria Lima e Dona Dora, mãedrasta.

Roberto Souza, em seu casamento, o filho.
As lembranças dos que me precederam com o sinal da família. Os avós maternos Vicente e Adelaide; minha mãe Francisca e meu Manuel, em diferentes cemitérios, cuja reunião devo proceder no próximo ano; meus tios Raimunda casada com Manuel e Fernando, com Maria; o primo mais velho Lauro; enfim, o filho Roberto Souza.

sábado, novembro 03, 2018

DIA DOS FINADOS (2)

Luiz Ruas, que foi padre-poeta (1931-2000), manteve em A Crítica uma coluna intitulada Ronda dos bairros. Esse exercício ocorreu do meado de 1957 ao início do ano seguinte. Lembrando que o colunista escrevia sobre assuntos diversos, aquilo que lhe parecia de interesse dos leitores.

Reproduzo o texto de 5 de novembro de 1957, em que o reverendo comenta o Dia de Finados.

Cemitério de São Francisco, ontem


Velas Acesas

Finados, já vai mais ou menos distante. Três dias nos separam do dia consagrado àqueles que nos precederam com o sinal da fé, como reza a Sagrada Liturgia. Assim mesmo vamos registrar alguns fatos que nos pularam diante dos olhos lá no Campo Santo. Não se assuste, leitor, não se trata de histórias de mortos, mas de vivos.

Como nos anos passados, fui também eu no dia dois ao cemitério, apesar de me sentir mal diante de tanta irreverência ali verificada. Não sei porque cheguei, porém, ao perceber uma coisa até então deixada no rol das coisas sem importância e que, de repente, ao anoitecer do dia dois p.p [próximo passado] criou muita significância para mim.

É justamente quando a noite cai que o cemitério toma um aspecto de feérie. Os milhares de chamas das velas crepitando sobre as campas em toda extensão plana, pareceu-me o símbolo de uma luta da luz contra as trevas, da vida contra a morte. Pareceu-me um esforço de ressurreição. A liturgia cristã que está na base do costume das velas acesas não nos ensina de que elas são símbolo; da fé? E a luz na terminologia joanica não é o símbolo de todas as mortes, inclusive a do pecado? Pois bem, foi isso que me veio à mente quando alguém me perguntou:

– Para que servem as velas acesas?

O Busto

O Governo Trabalhista do Sr. Plínio Ramos Coelho [1955-59] inaugurou o busto do extinto presidente Getúlio Vargas. Isto sim, isto é que me deixa embasbacado. Que a Nação venere a memória dos seus falecidos presidentes, está certo. Que um determinado partido venere a memória de seu fundador, também está certo. Mas está errado é que se queira fazer política à custa de defunto. Isso não. E está claro que o intento do Governo Trabalhista espetando no cemitério o busto de Vargas, não tem outra finalidade senão a de explorar ao máximo o nome e a memória do ex-ditador para proveito dos que ainda lutam para conquistar o poder.

Esta, aliás, não tem sido outra linha de conduta do Sr. João Goulart ao fazer tanto espalhafato com a tal carta-testamento, cuja presunção chega aos limites do ridículo. Getúlio àquela altura já devia estar meio alucinado, já devia ter perdido o equilíbrio mental. Não há naquela história de entrar para a História uns ressaibos do “que grande artista o mundo vai perder” de Nero?
O busto no cemitério não tem sentido. Simplesmente.

O PADRE PREGANDO

Quando entrei o padre estava pregando lá na capela e sua voz que o alto falante fazia rouquenha chegou aos meus ouvidos:

– Rezemos para que saibamos sempre a vontade de Deus: Pai Nosso...
– Rezemos para que nos corrijamos de nossos vícios e alcancemos o perdão de nossos pecados: Pai Nosso...     

A princípio estranhei aquilo. Não parece muito lógico, à primeira vista que no dia dedicado aos mortos a gente esteja rezando por nós, os ainda vivos.
Estava ainda estranhando a oração pelos vivos no dia dos mortos, quando me veio à mente o poema de [Manoel] Bandeira, no qual ele pede que não se reze pelo seu pai, que já está morto, mas por ele, o filho, que ainda está vivo. E, pensando bem, o padre tinha razão. Os vivos precisam mais. 
     

sexta-feira, novembro 02, 2018

DIA DOS FINADOS


Autor, observando o drone
Estive no cemitério São João hoje para um exercício lúdico, secundar ao amigo Darlan que usava seu drone. Na quadra destinada ao sepultamento de membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, local ainda conservado com respeito, onde estabelecemos o “droneporto”. O resultado fotográfico está sendo apurado.  

A data de hoje é destinada a nos lembrar dos antepassados, dos nossos mortos. Realizei isso de forma atravessada, todavia, possuo o irmão Renato Mendonça que aproveita ao extremo a data. Separado de nossa mãe pela distância geográfica, ele que a perdeu com um ano de idade, ainda assim, mantém com ela – Francisca Lima um relacionamento denso.
Para ratificar esse devotamento, compartilho dele a crônica abaixo, encartada no seu livro Renato, aos poucos II – memórias, crônicas & contos. (Niterói: Clube de Autores, 2018).

MAIS UM DIA
[escrito em] 02/11/2004

Estive no cemitério, aqui em Niterói, em mais um Dia de Finados. Hoje, não sei por que, não me sentia bem. A saúde parecia querer falhar; o fôlego estava aquém das minhas necessidades. Pensei com meus anjos: Será que é o peso dos anos?! Ou será que Jesus está me chamando? Se for, quero ser surdo. Acho que não era nada disso, estava desatento mesmo, e um pouco impaciente. O calor, diferente de outros anos, estava insuportável. Em condições normais não sentiria a temperatura e me concentraria só em reflexões.

Francisca Lima (1917-52)
Mesmo assim, cumpri meu ritual: acendi velas, procurei outros túmulos de pessoas conhecidas; busquei na administração a certeza da minha pesquisa e dediquei, dentro das minhas limitações, urna prece a todos eles.

Esse ano, por uma boa razão, me sentia mais tranquilo que nos demais: tinha conseguido, depois de vários planejamentos frustrados, a recuperação do túmulo da minha mãe. Contei com a ajuda providencial e necessária de meu pai e de meu irmão. Fiz um projeto e detalhei o tipo de revestimento. Imaginei-o todo revestido em azulejo branco, e uma cruz azul deitada na face superior, levemente inclinada, deixando a impressão de que se levanta da superfície.

Quis passar o conceito de que as pessoas ali enterradas, simbolizadas pela cruz, apenas adormecem e estão, com o passar do tempo, emergindo. Emergem em nossos corações e pensamentos; estão, a exemplo de Jesus, ressuscitando no exemplo de amor deixado nas suas biografias; e nos sensibilizando para os valores espirituais que precisam ser alcançados. E uma maneira de revitalizar essas pessoas tão queridas e importantes na nossa vida.

Não quero discriminar nenhum dos antepassados, todos deram sua contribuição para que eu estivesse aqui registrando essa crônica, porém estou dedicando essas linhas com o pensamento mais voltado para minha mãe e avó paterna. Foram elas que me salvaram de uma morte prematura e me educaram. E até hoje me educam; até hoje aprendo com os seus exemplos, com os seus legados.

À minha mãe, devoto, de vez em quando — particularmente, quando estou muito triste e reflexivo —, algumas lágrimas. Talvez as mesmas que ela derramou, e untou o meu corpo, quando teve que me abandonar precocemente. É a única coisa que posso dedicar-lhe nesses momentos. Repartir o amor, como se fosse o pão no gesto eucarístico de Cristo.

Refiz, mentalmente, uma imagem dramática de minha mãe dos seus últimos dias. E, baseado no sermão que ouvi de um padre recentemente numa missa de domingo, criei uma oração pra ela. Canonizei-a na minha doutrina, e apelo sempre quando tenho alguma angustia. Já senti seus afagos e o calor da sua voz espiritual em alguns momentos particulares da vida. (...)

Dediquei parte das minhas recordações à minha avó, quem me mostrou que sua simulada rudeza fazia parte do jogo da educação. E reconheço até que, por sua cultura provinciana, não tinha como me oferecer algo melhor. Mesmo assim, tenho as melhores lembranças de seu gesto e atitudes.

Descansem em paz!