CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

15 de janeiro de 2014

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA (2)


Santa Casa de Misericórdia - Manaus
Pequenas notas jornalísticas produzidas pelo extinto mestre Mário Ypiranga Monteiro (*) sobre a Santa Casa de Misericórdia, a respeito do aniversário deste hospital, que se encontra “fechado pra balanço”. A publicação comporta duas partes.
 
Naquele 1872, a epidemia da febre amarela obrigou o governo provincial a construir um lazareto no Cacau-Pirera, e a reclamação a favor da construção de um nosocômio continuava. Deve-se ao presidente da província Dr. Domingos Monteiro Peixoto, em 1872, encetar o movimento pró-construção do hospital. Fez ele uma convocação, à qual compareceram os tenentes-coronéis Clementino José Pereira Guimarães, João José de Freitas Guimarães, João Marcelino Taveira Pau Brasil e José Coelho de Miranda Leão; tenente Emílio José Moreira; comendadores Francisco de Sousa Mesquita e Alexandre Paulo de Brito Amorim; comerciantes José Antônio da Costa, José Teixeira de Souza e Manuel Alves dos Santos, que até o dia 12 de outubro haviam subscrito a importância de 4:300$000 réis (Cr$ 4,30). Além dessa subscrição houve outra, popular, que arrecadou 12:759$590 (Cr$ 12.759,59).
O terreno para a construção do prédio foi solicitado pela Província ao Ministério de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, sendo concedido por Aviso de 26 de outubro de 1873. O ato de 2 de janeiro de 1873 autorizou e empregar-se pelo orçamento provincial, a quantia de 40:000$OOO (Cr$ 40,00). O lançamento da pedra fundamental verificou-se a de janeiro de 1873 com as solenidades do estilo e comparecimento das autoridades e do povo. Mas não foi na rua Dez de Julho, e sim no primitivo local escolhido, ou seja, à antiga praça de Uruguaiana, nomenclatura histórica desaparecida por influência de nome estrangeiro. Como vem acontecendo nesta heroica cidade de mortas tradições e de vivas e suspicazes reformulações com que a história do futuro há de ajustar contas.
No mesmo ano de 1873, por intermédio do comerciante Francisco de Souza Mesquita, foram encomendados em Portugal os blocos de cantaria (parte). A 15 de fevereiro eram dispensado, da comissão encarregada da construção do próprio os cidadãos tenente-coronel João Marcelino Taveira Pau Brasil e tenente Emilio José Moreira, substituídos pelos capitão de mar e guerra Nuno Alves Pereira da Meio Cardoso e tenente-coronel Maximiano de Paulo Ribeiro. Então já se estava pensando em localizar o hospital noutra parte. E surge a questão do desapropriamento do terreno. Os proprietários foram indenizados na quantia de 2:785$000.

O projetO de orçamento do edifício esteve a cargo do engenheiro Dr. João Carlos Antony, e contava o prédio com 64 janelas no pavimento térreo e outras tantas no superior. As ombreiras, vergas e peitoris eram de mármore branco (calcário de Lisboa é o que é, a exemplo das colunas do prédio da Prefeitura Municipal, antigo Palácio do Governo e do Colégio Estadual do Amazonas, antigo Liceu Provincial).

Arremataram as obras de construção dos alicerces, a 22 de fevereiro de 1873, os pedreiros João Fernandes e Antônio Luís Moreira. Mas a pedido dos arrematadores, o contrato foi rescindido por portaria de 7 de março. Postas as obrasnovamente em licitação, arremataram Manuel Martins Pereira & Cia., cujo contrato é de 1º de maio de 1873. Fizeram todos os alicerces à razão de Cr$ 19,80 (?) o metro cúbico, mas a cal foi fornecida pela Província. Iniciaram a 12 de maio e terminaram a 15 de setembro.

Muitas das pessoas que subscreveram a lista para a construção do Hospital de Caridade ou Santa Casa (os nomes se confundem depois nos papéis oficiais), não pagaram. O comerciante José Francisco Monteiro, do rio Madeira, contribuiu com Cr$ 1,47 (melhor dizer 1:470$000).

Até 1876 as obras se arrastaram, à dependência do estado financeiro da Província. Deste ano em diante, inclusive, teve início a construção do pavimento superior. Não foram concluídas as obras que dizem respeito às partes confinantes com as ruas de José Clemente e de Lobo d´Almada, ficando reservadas a pequeno cemitério. Em 1894-98 ainda aparecem editais pedindo propostas para a terminação do edifício, que continua inconcluso. O paredão foi feito nas gestões dos Drs. Eduardo Gonçalves Ribeiro, Fileto Pires e coronel Ramalho nior, obedecendo ao mesmo estilo dos do Teatro Amazonas, Palácio da Justiça e Reservatório de água.

Somente depois que indicamos a lei de 12 de maio de 1870, que autorizou mandou construir o hospital, é que o articulista de domingo, 16 de julho, se favoreceu dela e fez bem. Mas posto que oferecendo subsídios valiosos, vincula-se ainda ao orçamento de 1872 (lei nº 244, de 27 de maio), que dota de oitenta contos de réis o novo hospital e escolas de ensino primário na capital.

Não me parece que seja novidade. O orçamento financeiro para 1871 (lei nº 219, de 20 de maio), manda aplicar a importância de noventa e dois centos de réis na construção de uma igreja na freguesia que mais necessitar, casas para escolas de ensino primário do sexo feminino na capital e na construção do Hospital de Caridade, não cabendo, portanto, nenhuma prioridade nesse aspecto da questão ao presidente Clementino José Pereira  Guimarães, e, sim, ao presidente general José de Miranda da Silva  Reis. Aliás, aos deputados provinciais, como consta dos "Anais da Assembleia Provincial".

A propósito de Henrique Antony (cuja naturalidade ainda é duvidosa), o trabalho pioneiro, pesquisa realizada entre os membros da família, é o de Lázaro Baumann, “Os Antony na História - esboço biográfico de Henrique Antony”, publicado na revista “Vitória-Régia”, ano I, nº 4, Manaus, abril, 1932. Desse trabalho tirei cópia autêntica, que ofereci a Arisfófano Antony. Deve de existir entre os seus papéis, sem dúvida.

Nota pessoal - (1) não concordo com a conversão monetária estabelecida pelo autor, entretanto, não disponho de recursos para a correção. (2) concordo com o comentário dele sobre a mudança de nome de ruas e avenidas e outros becos empregados em Manaus. Também não disponho de recursos para mudar isso, o nome dele atropela a velha e tradicional rua Recife.


A Notícia. Manaus, 17 de julho de 1972