CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, abril 14, 2012

CONGRESSOS EUCARÍSTICOS NO AMAZONAS

Eu me chamo José Rodrigues Cardoso Filho, e sou professor da Universidade Federal do Amazonas.Após inúmeras tentativas infrutíferas junto a pesquisadores de minha cidade, recorro ao senhor, na esperança de obter a "letra do Hino do 2º Congresso Eucarístico da Manaus".O referido hino inicia com versos: "Ao concerto exultante das matas / Sob o céu de um azul triunfal / Eis que vem adorar-te o Amazonas / Pão de amor, Cristo Vivo, imortal / Rei dos Céus, ó Jesus Sacramento / Te adoramos, cantando a teus pés / Hás de sempre reinar triunfante / Sobre as terras em flor do barés...".

Porém, eu gostaria de obter a letra completa.

Capa do opúsculo patrocinado pela
Prudência Capitalização
Em resposta à consulta acima, que já atendi ao professor Cardoso, aproveito para relembrar alguns desses movimentos eucarísticos, efetivados pela Igreja Católica, em nossa cidade. Não foram muitos. Apenas três: dois de alcance regional, em 1942 e 1952. O terceiro, de caráter nacional, ocorreu em 1975.

O 1º Congresso Eucarístico Diocesano foi realizado entre 31 de maio e 4 de junho de 1942. Não foi tão simples. A realização deste conclave exigiu esforços redobrados dos organizadores. É preciso lembrar que, em 1941, assumiu a diocese o quinto bispo do Amazonas, Dom João da Mata Andrade e Amaral.

Apenas sete meses disounha o prelado para a preparação do encontro religioso. O apoio dos governos (interventor Álvaro Maia e prefeito de Manaus, Alvaro Bandeira de Melo) foi imprescindível, e mais, a colaboração do comércio e o esforço dos integrantes da Ação Católica ajudaram a sobrepujar as dificuldades.

O hino do Congresso teve a música composta pelo padre Pedro Mottais, sacerdote francês que havia se incorporado ao clero amazonense. Posteriormente, ele ajudou na inauguração da Faculdade de Ciências Econômicas e foi reitor do Seminário São José. A letra é de autoria do padre-poeta Manuel Albuquerque, que pertencia ao clero paraense e trabalhou em Santarém (PA).

Já nos planos do Sul te adoraram / em Congressos de imenso esplendor; / hoje é o Norte de imensas florestas / que te adora, ó mistério de amor. / Canta e louva, agradece e suplica / adorando na hóstia Jesus. (bis)


O esforço do Dom João da Mata foi plenamente recompensado com a presença de altas figuras do clero nacional e da região Norte. Mais que isso, o comparecimento do povo católico, que se reuniu na praça Antônio Bittencourt (em frente ao IEA), a qual passou a ser conhecida por Praça do Congresso.

* * *

Dez anos depois, na mesma praça do Congresso, reuniu o mundo católico do Amazonas, convidando os irmãos de fé nortistas. Era pastor da diocese do Amazonas, Dom Alberto Ramos, o jovem bispo brasileiro, nascido em Belém do Pará.

Praça do Congresso, vendo-se, ao fundo, a residência
da família Miranda Corrêa e o Ideal Clube (à dir.)
Em julho de 1952, em homenagem ao I Congresso e para comemorar a elevação de Manaus à categoria de sede metropolitana de nova província eclesiástica, separada de Belém. Além desse fato retumbante, estava acrescido da posse do primeiro arcebispo, o mesmo Dom Alberto Ramos.

Outros dois fatos relevantes foram a coroação da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora; a reunião de todo o episcopado do Vale Amazônico e a sagração dos bispos de Tefé e Boa Vista (hoje Roraima).

A organização do Congresso coube ao bispo do Amazonas e aos padres José Pereira Neto (diretor do Colégio Dom Bosco); Walter Gonçalves Nogueira e João Alves da Costa, depois monsenhor e vigário dos Remédios.

Álvaro Maia, governador; Dom Jaime Câmara, cardeal; Dom
Alberto Ramos, arcebispo, e André Araújo, deputado
federal (a partir da esq.) 

O hino escolhido em concurso foi composto e orquestrado pelo maestro José Arnaud, hoje pouco conhecido, mas que abrilhantou a Banda de Música da PMAM. A letra era de autoria do então clérigo Aureo Pereira de Araújo, que findou integrando a Ordem dos Dominicanos, em São Paulo.

Curiosamente, o mesmo governante dirigia o Amazonas, trata-se de Álvaro Maia, então governador do Estado. Entre as autoridades eclesiásticas, convém ressaltar a presença do primeiro cardeal no Amazonas, Dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo-cardeal do Rio de Janeiro. É interessante ressaltar que este prelado também esteve em 1942, quando arcebispo do Pará.  (segue)

quinta-feira, junho 09, 2011

ACADEMIA AMAZONENSE DE LETRAS E SEUS PADRES

Aos noventa e três anos de existência, o silogeu amazonense acolheu apenas cinco sacerdotes, em mais de 130 acadêmicos. Pela ordem hierárquica, foram dom Alberto Gaudêncio Ramos, dom Luiz Soares Vieira, cônego Walter Gonçalves Nogueira e os padres Raimundo Nonato Pinheiro e José Pereira Neto.

Mas, pela ordem de posse: primeiro foi Nonato Pinheiro, nascido em 1922, que assumiu em 1950 a Cadeira 20, sucedendo a José Chevalier. Morreu em 1994. Em 1953, Alberto Ramos nascido em Belém (PA) em 1915, assumiu a Cadeira 2, sucedendo ao médico Adriano Jorge.

Padre Pereira Neto, em sua posse,
O Jornal, fev. 1956
Pereira Neto nasceu em Aracaju (SE) em 1911. Pertencia à ordem salesiana, e era diretor do Colégio Dom Bosco quando assumiu a Cadeira 21, como sucessor de Socrates Bonfim, em 1956.

Walter Nogueira, nascido em Coari (AM) em 1923, tomou posse em 1969, sendo o fundador da Cadeira 32, do patrono Bernardo Ramos.

Apenas Luiz Vieira, nascido em Conchas (SP) em 1937, permanece na Casa de Adriano Jorge. Sua acolhida ocorreu em 1997, na Cadeira 36, em sucessão a Josué Cláudio de Souza.

É reduzidíssimo o número de sacerdotes que disputaram uma vaga da Academia de Letras. Tenho conhecimento apenas do saudoso padre Luiz Ruas que assim procedeu, em 1971, mas não alcançou quorum para ser eleito, apesar de ser candidato único.

Quarenta anos depois, na atual disputa pela Cadeira 40, vaga pela morte de Waldemar Salles, apareceu outro sacerdote. Trata-se do padre João da Silva Mendonça Filho, pertencente à Inspetoria Salesiana, portanto, da mesma ordem do finado padre Pereira Neto. Pe. João da Silva, nascido em 1961, acaba de frequentar o Instituto Teológico Pio XI, e presta seus serviços na cidade.

Que Dom Bosco inspire nossos acadêmicos nessa escolha, possibilitando à Igreja ampliar suas cadeiras no Salão do Pensamento Amazônico.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

PLÍNIO COELHO E O CASAL MAKK (1958)

Correio do Norte, jul. 1960
Em seu primeiro governo (1955-1959), Plínio Coelho convidou ao casal Makk para visitar o Amazonas. Américo e Eva Makk (acompanhados do filho AB, nascido em São Paulo, SP) estiveram em Manaus em 1958, quando iniciaram com uma exposição de seus quadros no Ideal Clube. Após essa apresentação, foram contratados para decorar alguns pontos da capital.

Três desses trabalhos se destacaram, todavia, apenas um resiste ao desmanche. Creio que foram executados simultaneamente, afinal estiveram apenas esse ano em Manaus.

Pintaram nas paredes do hall do Palácio Rio Negro algumas alegorias, tomando por tema a rebelião do tuxaua Ajuricaba contra os colonizadores, em especial, os portugueses. No governo de Danilo Areosa (1967-71) o trabalho artístico desapareceu sob tinta comum aplicada por pintores de paredes. Apesar do esforço do próprio governador em contratar técnicos capazes de restaurar a obra, nada pode ser feito. A dificuldade deve ser substancial, pois nenhuma outra revisão do Palácio Rio Negro foi capaz de “descobrir” o painel.

Conta uma lenda, no entanto, que o desastre ocorreu por “determinação” do governador Areosa que, filho de portugueses, sentia ofensa com o tema exposto. E mais, que os técnicos consultados desdenharam da qualidade dos painéis, por isso, mais tintas selaram a sorte da obra.

Casal Makk, com o filho AB,
em Manaus, 1958
Outras paredes aproveitadas pelo casal ainda perduram no Palacete Provincial, utilizadas ao tempo de quartel da Polícia Militar. Nelas, o casal retratou a presença da tropa expedicionária amazonense contra Canudos. Estão impressas na entrada do edifício e devem permanecer por mais tempo.

A terceira e mais importante obra foi realizada na Catedral de Nossa Senhora da Conceição. Imenso trabalho, esforço enorme, pois, cobriram todo o teto do altar principal e as paredes do altar mor. Nestas, rememoraram o progresso da Igreja em Manaus, desde o forte, passando pelas capelas e a igreja consumida pelo fogo, em 1850. A extensão do painel elaborado no teto permitia inscrevê-lo em livro de recorde, dado sua grandiosidade era “a maior obra de arte sacra do mundo” (O Jornal, 13 set.1958).

Quase tudo desapareceu na última reforma, sobretudo a decoração do teto.

Obra do casal idealizando a primeira capela existente na Barra

Igreja matriz de Manaus, local das pinturas
Os Makk tiveram ainda tempo para pintar os retratos de algumas autoridades: de Plínio Coelho, governador do Estado, que os trouxe a Manaus e patrocinou os trabalhos. Outro foi o de Dom João de Souza Lima, então arcebispo do Amazonas, em reverência ao vigário maior. Também confeccionaram o de Dom Alberto Ramos, então arcebispo do Pará, para ser afixado na galeria dos ex-bispos do Amazonas.

O saudoso memorialista Genesino Braga recebeu uma homenagem dos artistas. Em 1960, ao lançar Fastígio e sensibilidade do Amazonas de ontem, o trabalho editorial coube à extinta gráfica Sergio Cardoso, mas a capa foi elaborada com exclusividade pelos pintores Américo e Eva Makk (artistas húngaros, radicados no Brasil).

Alguns cronistas atentaram para o trabalho do casal. Lembro o padre-poeta L. Ruas, que assinala deles a exposição de quadros realizada no Ideal Clube. Também os periódicos se manifestaram, a exemplo do editorial de A Crítica (junho 1958).

Padre Nonato Pinheiro. O Jornal, 5 outubro 1958
Outro padre – Nonato Pinheiro, também se preocupou com os artistas e escreveu sobre a Decoração da Catedral (O Jornal, 5 out. 1958), lembrando o oportunismo da comemoração do centenário da Catedral de Manaus. Acerca da obra dos Makk, afirmou que “é uma orgia harmoniosa de cores, sem exageros e dissonâncias”.

Apesar de que a decoração da Catedral tenha recebido o apoio cultural da empresa de jornais Archer Pinto, onde já operava o jornalista Phelippe Daou, o governador Plínio Coelho contribuiu grandemente para colorir a capital.

O Jornal. Manaus, 13 set. 1958

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

GOVERNADOR PLÍNIO COELHO

Plínio. A Crítica, 4 fev.58
A biografia deste governador (1920-2001) ainda não foi escrita, precisa ser publicada. Alguns apontamentos esparsos foram produzidos, mas nada que se possa intitular de uma história de sua vida. Assim, vou colocar aqui minha contribuição.

Plínio Coelho tomou posse do Amazonas em 31 de janeiro de 1955, quando a Petrobrás dava os primeiros passos. Ainda assim, a empresa conseguiu a façanha de “descobrir petróleo” em Nova Olinda do Norte, na calha do rio Madeira. Isso implantou o delírio não somente no município, mas no próprio Estado. Diria que no País, visto que a descoberta trouxe a Manaus e Nova Olinda o presidente da República.

Presidente Café Filho, em Nova Olinda
Era um momento de transição nacional, por isso, João Café Filho presidia o Brasil. E ao desembarcar acompanhado de sua comitiva, trouxe o subchefe da Casa Militar, coronel Ernesto Geisel. Na base de Nova Olinda foi realizada uma foto emblemática: o presidente Café Filho, entre o governador do Amazonas e o coronel Geisel, depois presidente da Petrobras e presidente do Brasil no Governo Militar.

O petróleo possuía tudo para redimir o Amazonas, trazer-lhe o desenvolvimento que há muito o rio levara. Mas, como a Petrobras dava os primeiros passos, não foi capaz de se aguentar e acabou "caindo"... deixando no Estado a lembrança de “ uma noite de verão”.


Situado na av. Castelo Branco, hoje bastante desfigurado.
O Jornal, 5 dez. 1956 
Plínio alcançou o governo de Juscelino Kubitschek, que revolucionou o Brasil, com o sonho realizado de Brasília. Quando da inauguração da Refinaria de I.B.Sabbá, JK esteve em Manaus e inaugurou uma ponte (em Educandos) e um conjunto residencial na Praça General Carneiro, onde se contruiu o Palácio Rodoviário (hoje UEA), o cine Ipiranga. As duas obras levam o nome de JK. Há muito mais desse governador.


Café Filho concede entrevista ao Jornal do Commercio, Manaus

Governador Plínio Coelho recebe amostra de petróleo.
Jornal do Commercio, 16 mar. 1955 

A partir da dir. general cmt GEF; Café Filho; Plínio Coelho e
Dom Alberto Ramos, arcebispo do Amazonas