CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, junho 10, 2021

POESIA DA ENCHENTE - ÁUREO MELLO

 Recolhido do São João del Rey Blog, gentilmente enviado por (fjsbraga@gmail.com), compartilho o poema do saudoso “caboco” Áureo Mello (1924-2015), nascido em Santo Antônio do Madeira (MT). Como se verá, estudou as primeiras letras em Guajará-Mirim (RO) e depois foi morar com a família em Santa Fé, às margens do rio Guaporé. Dali, regressou à Porto Velho e, desta cidade, à Manaus, onde cursou o primário no Grupo Escolar Cônego Azevedo, o secundário e o pré-jurídico no Colégio Dom Bosco e o de Direito na Faculdade de Direito do Amazonas.  

Áureo Bringel de Mello

Jornalista desde jovem, iniciou com a coluna "Luva de Seda", no Diário da Tarde, de Manaus. Dali, passou a editorialista em O Jornal, de Aguinaldo Archer Pinto. Em seguida, foi redator-secretário e locutor da Rádio Baré, dos Diários Associados do Amazonas.  

Eleito Deputado Estadual aos 22 anos, e reeleito no quatriênio seguinte, seguiu eleito Deputado Federal, sempre pelo PTB, exercendo este último mandato pelo Rio de Janeiro. Enfim, eleito Senador pelo Amazonas tomou parte na Constituinte de 1988, concluindo seu mandato em 1995.  

Publicou, entre outros, os livros: Luzes tristes (1945); Claro-escuro (1948); Presença do estudante Inhuc Cambaxirra; As aureonaves (1985); Inspiração em três tomos (1989);  O muito bom sozinho (2000);  Como se eu fosse um cantador (1999); Onde está Gepeto? (1999); Heliotrópios adamantinos lácteos: suco de estrelas (2004).

O poema intitula-se POESIA DA ENCHENTE, e não poderia ser mais significativa para o momento, quando Manaus assiste a maior elevação das águas do rio Negro, desde sua conhecida anotação. O melhor que o autor o escreveu com o emprego de termos de nosso caboquês. Pode ser um tanto incompreensível para os não iniciados, mas valeu, Áureo Mello.

POESIA DA ENCHENTE 

— Tu tá veno, cuirão?  Tu tá veno, José? 

Eu num disse qui a inchente esse ano era braba? 

Cadê tua juta agora? Eu quero vê cumo é 

Qui vai-se arisurvê! Suco! Água qui nunca acaba!"  

E o rio vai galgando as carnes do barranco 

Cobrindo os capinzais, os troncos assediando, 

Seguindo, mata a dentro, em desmedido arranco, 

Aos lagos e igapós as águas germinando...  

Estão mortos jutais, as plantações tombadas, 

As casas se-mostrando, à flor do lençol tétrico, 

E hercúleo e caudaloso, o rio, em rabanadas, 

Avança, vale a dentro, o corpo quilométrico...  

O Amazonas cresceu, nestes meses pioneiros 

E ainda mais crescerá, nos meses que hão de vir. 

Nesse anseio de criar que estremece os banzeiros 

O gigante brutal somente faz destruir...  

O rio é largo e belo, é como um canto errante 

Da natureza, entoado em plena tempestade. 

O ventre colossal vibra, enfunado, arfante 

E rola os vagalhões com lenta majestade...  

Na superfície, ao sol, balseiros, velhos troncos, 

Em lenta procissão vão demandando o mar. 

O vento é frio, e é forte. As vagas soltam roncos 

E espumam, são cristais se esfacelando no ar...  

A selva assiste a marcha eterna da corrente 

E é bela, é moça, é verde, é viva e misteriosa... 

A coma é seiva e luz, mas lôbrego e silente 

É o fundo coração dessa floresta umbrosa...  

As aves vêm valsar nas margens, de beleza 

Criando, contra o céu, figurações ideais, 

E segue, assim, vibrando, a enorme correnteza 

Entoando um cantochão entre sons festivais...  

O crepúsculo é um sonho, é uma paisagem linda 

De ouro e coral e azul e espelhos de cristal 

A alma se enleva e ajoelha, e esse enlevo não finda 

Quando nos céus se espalha a noite equatorial...  

Mas... o monstro subiu trinta metros ao todo, 

E as matas invadiu, as várzeas submergindo. 

Terra firme é bem pouca. O gado está no lodo  

O vento sopra, e soa a inúbia dos rebojos, 

A água sinfonizando em gorgolões sombrios... 

O pensamento sobe, em místicos arrojos 

E mergulha depois na esteira dos navios...  

             Ou triste, a se imprensar nas marombas, mugindo...  

E o caboclo? O mongol calado da restinga?

Onde está o oriental do "jaticá", do arpão? 

Campeão dos matupás, batalhador da aninga

Rei completo do anzol, da rede e do facão?  

Onde está o grande herói que na proa da sua 

"Montaria" partiu pra pescar jacaré? 

Onde o veste-de-trapo, o João-ninguém que à lua 

E ao sol trabalha e luta, alentado a "chibé"? 

Onde é que você está, meu bravo amazonense, 

Que mergulha no barro arrancando o jutal?

Onde é que você está, nordestino, cearense 

Que caboclo ficou nas lides da jangal?

 

Está no pastoreio ao gado? Na caçada? 

Cortando canarana ou lançando o espinhel? 

Virando tartaruga à praia? Na queimada? 

Ou foi pro seringal, representando Abel?  

Qual o quê! O caboclo, encorujado a um canto 

Está, qual um Noé, sozinho no Dilúvio. 

Sem casa, sem vintém, tendo a vida, se tanto 

Nada pode fazer contra o inimigo plúvio...  

Plantar roças sobre água? Impossível! Pescar 

Ele o pode fazer, mas com dificuldade. 

Que lhe resta, afinal? É remar, é remar 

E ir, como outro já fez, mendigar na cidade...  

"Vucê, se me ajudá, cumpatrício do sur, 

Vai ganhá de presente umas cuisa incantada: 

Vú mandá pra vucê, já "feito", irapuru

E olho de buto, viu? Suco! Inchente zangada!"

Fonte: Áureo Mello INSPIRAÇÃO (Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1989).


quarta-feira, março 31, 2021

ÁUREO MELLO (1924-2015)

 Narra uma lenda suburbana que o falecido Áureo Bringel de Mello (1924-2015) – advogado, jornalista, poeta, contista, pintor, político e senador pelo Amazonas – não encarava uma viagem aérea sob hipótese alguma, ou como canta o musical, tinha “medo de avião”. Não sei como desembarcou em Manaus em fevereiro de 1970, ocasião em que os amigos lhe fizeram os melhores encômios. Primeiro foi Luiz Bacellar, que o saudou com um poema aqui compartilhado.

Semana seguinte foi a vez de Genesino Braga, cronista de dilatado texto, enaltecendo ao porto-velhense que se realizou no Amazonas. A publicação aqui compartilhada ocorreu no Jornal do Commercio (15 fev. 1970).


Aureo Mello caricaturado por
Moacir Andrade, na Revista da
UBE de 1983

De breve tornado aos seus pagos há muito deixados, Áureo Mello vagueia, nestes dias, os caminhos em que outrora andaram em sonhos a sua poesia e o seu amor. Os dias da infância e os da mocidade, culminados num triunfo de ideal político que o levaria a transplantar-se da querência amada, ressurgem-lhe a toda hora, por todos os lugares, com aquelas mesmas imagens insistentes que se guarda na lembrança dos tempos mais felizes. A velha porta amiga que se reabre; os braços afetuosos de outrora que se estendem; o rosto esquecido que súbito, reaparece, sorrindo; a árvore frondosa do quintal antigo, — símbolo de hospitalidade e proteção; o gosto sápido dos frutos regionais saboreados no tabuleiro do Messias (ah!, os pajurás de racha...); a exclamação alarmada dos bem-te-vis nos ninhos das mangueiras; a velha casa de beiral que sumiu dando lugar ao edifício de vinte ou mais andares, — tudo devolve à sensibilidade poética do conterrâneo visitante as suas velhas fontes de inspiração, com as imagens que se não diluíram e jamais se diluirão no andar dos tempos, porque fixadoras de todo um mundo interior e reflexo de sentimentos, do qual ele é poeta amoroso e gentil.

Recorte do citado jornal

Vinte e cinco anos distam do lançamento, aqui entre nós, do primeiro livro de poemas de Áureo Mello. “Luzes Tristes”, que assim se intitulava o belo volume, e assim porque — ele próprio o revela no último terceto do soneto de igual título, — “Pois, ó sonho!, ó sorrir!, ó deus amor!, ó glória!, / Sois, nesta vida umbrosa, humana e transitória / Os meus tristes clarões, as minhas luzes tristes...”, representam bem a sua individualidade poética, que extravasava o seu prodígio criador, seivoso e novo, nas mais puras expressões da beleza com afirmação e intensidade. Seus poemas de então tinham funda expressão pessoal e suas ideias eram mensagens sensíveis de uma grande alma otimista e generosa, encerrando toda a comoção humana através dos símbolos mais nobres.

Saindo, como poeta, do grupo de intelectuais novos que, abelhas inquietas, apuravam o mel nos favos do Centro de Estudos da Mocidade, "igrejinha" de escola renovadora que fez sozinha a significação literária de uma época, Áureo Mello se integrou no movimento modernista mais por uma necessidade íntima de renovar, nas tendências e nas ousadias das novas correntes. E o que nos mostrou, através de seu livro de estreia, foi um índice forte de definição dos novos rumos do espírito brasileiro, já a esse tempo se desembaraçando das imposições passadistas. Por isso, quando apareceu, marchava seguro de si mesmo, com uma clara compreensão da poesia de seu tempo, apoiado num pleno domínio da personalidade. (...)

Agora mesmo, depois de um agradável reencontro com o poeta, em dias desta semana, durante o qual mais uma vez pudemos sentir a irradiação do seu poder de simpatia, através da palestra clara e fluente, através do gesto largo e espontâneo, através das palavras de louvor e de admiração para tudo e para todos (não falou mal de ninguém, não reagiu, não restringiu, não opôs, não contrariou, não demoliu. Admirou, aplaudiu, concordou, — como admirou sempre as paisagens, como aplaudiu sempre os amigos: a bondade de uns, a fortaleza de outras, o talento de todos), — agora mesmo, dizíamos, tomamos da estante, para as delícias de alguns breves momentos, seu livro de poemas, aquele mesmo da estreia: "Luzes Tristes". (...)

Agora o poeta, que teceu há vinte e cinco anos essa teia lírica de encanto e de beleza, revê suas velhas fontes límpidas de inspiração, nas terras de seu nascimento. O sonho de futuro que ele sonhara — para a sua terra para o seu povo e para si próprio como sentimento de uma e de outro, -- aí está em afirmativas reais no processo de desenvolvimento econômico em que o Amazonas hoje se expande. Não lhe são revelação nem surpresa, bem o sabemos, por que estavam justos nos termos de sua clarividência de amazonense idealista. Mas, lhe falam de um triunfo que tomou sentido com os "peleadores" de seu clã lítero-político. Por isso, enlaçamos-lhe no abraço amigo que lhe estendemos ao reencontrá-lo a vaguear solitário, saudoso de si mesmo, naquela tarde de violência crepuscular, semana última pelos mesmos caminhos que outrora andaram em sonhos sua poesia e seu amor.

sexta-feira, março 26, 2021

"O GALO" DE LUIZ BACELLAR

Envolvido com os Estudos sobre a literatura amazonense, de Tenório Telles, retornei ao meu “surrão”, como aprendi com Farias de Carvalho. Nele encontrei o poema aqui compartilhado, de Luiz Bacellar, sobre o qual consultei ao poeta Zemaria Pinto, que me assegurou se tratar de uma obra inédita do saudoso autor de Frauta de Barro.

Bacellar, em pé, 1983

Outro pormenor aqui já revelado, que faço questão de repisar: Bacellar encomendou-me uma pesquisa dos poemas que ele publicou em jornais de Manaus. Almejava com eles editar um livro, cujo título seria Calhaus. Fiz o que pude, entregando a ele certo número deles, porém, o poeta não teve tempo de realizar sua aspiração. Aqui vai mais um, mestre Luiz Bacellar.

Nota: no original, como se lê, está A GALO, no entanto, a incorreção presumo cabe à falha de revisão ou outra iniquidade existente nas oficinas. 


 O GALO

Luiz Bacellar

(na volta de Áureo Melo à terra manauara)

Eu hoje 

tomei emprestada a pluma

de Neruda,

voltei aos tempos do paganismo

e sacrifiquei

um galo ao deus Apolo.

Não a Apolo retornei

Mas a ti Sol,

próton do infinito,

fonte da vida

que me fizeste nascer

na Terra.

Por ordem de Meu Senhor

era um galo

guerreiro como eu, guerreiro e cantador.

 

Tinha um peito de oiro

macio e brilhante,

a cauda de esmeralda,

a crista do mais rubro

coral.

Joia de plumas

de macheza

e canto,

grande produtor de ovos

e de alguns frangos,

multidões de frangas.

Ao sacrificá-lo

sacrifiquei-lhe o canto

porque sou cantor

do meu Senhor.

Mas também sacrifiquei-lhe a vida

porque devo a vida

ao meu Senhor.

Senti-lhes os estertores

nas minhas mãos implacáveis

quando torci-lhe a cabeça

para separá-la do corpo,

depois rompi-lhe o peito

e arranquei-lhe o coração

ainda palpitante,

e ofertei-o na palma de minha mão direita

ao Sol,

fonte da vida,

da Alegria,

da Saúde.

 

(Sacrifiquei o galo

como o ritual

litúrgico

dos flâmines latinos

de Apolo).

 

Quando as últimos palpitações

do seu pequeno coração

cessaram

na palma imóvel da minha mão

cobri o rosto com ambas

para que o meu rosto

se tingisse de atinjo

como o do Sol, e o Sol me reconhecesse

como seu filho.

Sacrifiquei o galo

com lágrimas nos olhos.

Que me perdoe o meu Senhor

que me proibiu

sacrifícios cruentos.

Pagaste o teu galo a Asclépios. 

quarta-feira, maio 13, 2020

REVISTA DA UBE/AM (2)



A Revista da UBE (União Brasileira de Escritores), seção do Amazonas, circulada em maio de 1983, ilustra sua capa com o trabalho de dois saudosos artistas plásticos: Moacir Andrade e Áureo Melo. Expressam suas habilidades como cartunistas, expondo notórios personagens de nossa história.


O mais avultado foi o fundador do jornal A Crítica, Umberto Calderaro, revelado pela pena de Áureo Melo. Na tira inferior, vê-se a partir da esquerda: 1) Moacir expõe o Áureo, que elabora as demais, sendo 2) Moacir Andrade; 3) Jayme Pereira (presidente da UBE/AM); 4) Borges (será o argentino Jorge?) e 5) Jorge Tufic.



domingo, março 13, 2016

CHARGES DO SENADOR AUREO MELLO (1924-2015)

Aureo Mello
Adicionar legenda






segunda-feira, junho 20, 2011

Exposição: Legado de Anísio Mello

Anísio Mello (AM) no lápis do Palheta
Não consegui concretizar a exposição – Legado de Anísio Mello, já declarado em postagem anterior.

Por isso... Vou aproveitar este espaço para reproduzir algumas das obras que estariam na exposição. A partida será com as caricaturas de Anísio Mello, realizadas por alguns de seus amigos e frequentadores do Liceu de Artes Ester Mello, na av. Joaquim Nabuco.

O mais destacado, pelo número de produção é o artista plástico Jorge Palheta. Outros são os poetas Aureo Mello, Sérgio Pereira e J. Maciel e os internacionais: o chinês Fang, o boliviano T. e o peruano Maes.

AM visto pelo Palheta, 1986
AM pelo Palheta, 1986


AM pelo Palheta, 1986
AM no lápis do Palheta 1987



Anísio Mello por J. Maciel, 1982

Anísio por Aureo Mello, 1982

Anísio Melo por seu amigo Sérgio Pereira, 1991

Anísio Mello na pintura de Afranio Pires


Anísio visto por Fang, 1985 


terça-feira, março 22, 2011

DEU NO... JORNAL DO COMMERCIO

Janeiro 1972

Joel Ferreira (à esq), Antunes de Oliveira e Natanael Rodrigues,
Jornal do Commercio. Manaus, 6 janeiro 1972
1. Os deputados Joel Ferreira e Natanael Rodrigues recebem no Aeroporto Ponta Pelada o companheiro de lutas políticas, professor Antunes de Oliveira (centro), de regresso do Rio de Janeiro. No dia seguinte, informa o matutino, os dirigentes do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao Governo Militar, seguiram para diversos municípios do Estado, preparando as convenções municipais.

Ernesto Geisel, João Walter (centro) e Jorge Baird, Jornal do
Commercio. Manaus, 13 jan. 1972
2. General Ernesto Geisel, presidente da Petrobras, aparece em visita ao canteiro de obras da Usina Hidrelétrica nº 2 da CEM (Companhia de Eletricidade de Manaus), no Mauazinho. Aparecem na foto, o governador João Walter de Andrade (ao centro) e o dirigente da concessionário, Jorge Baird (à dir.). Na ocasião, o futuro presidente do País disse da sua satisfação em conhecer a qualidade da obra e do futuro cliente da Petrobras.

Acompanharam ao presidente da Petrobras, além do governador, os chefes da Casa Civil, Gilton de Albuquerque, e da Militar, tenente-coronel Pedro Lustosa.

Jornal do Commercio. Manaus, 15 jan. 1972
4. Eis o novo livro de Aureo Mello, poeta grande que agora vive em Brasília, mas não esquece Manaus, onde se formou e se adulto. Neomênia, que significa “lua nova”, foi lançada em Manaus, na Praça da Polícia, dia 25, em promoção do Clube da Madrugada.

Este livro foi lançado inicialmente, informa o Jornal do Commercio (20 jan. 1972), no Distrito Federal. Depois de Manaus, será a vez de Belém e de Belo Horizonte. Na festa em Manaus tocou o grupo musical paraense “Os Incas”, que se preparava para excursionar ao Peru.