CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, janeiro 07, 2023

PONTA PELADA: DETALHE DE SUA HISTÓRIA

 Breve nota para a história do aeroporto de Ponta Pelada. O texto foi publicado em O Jornal (edição 5.393, circulada em 10 ago. 1953), e compartilhado do livro Phelippe Daou, o jornalista, organizado por Abrahim Baze.

Capa do livro

Relata a presença em Manaus do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura (1910-94), em inspeção às obras neste campo de pouso. Este oficial conduziu o Ministério durante o último governo de Getúlio Vargas, de quem era amigo, nomeado em 1º|jan|1951 e afastado em 18|ago|1954, portanto, uma semana antes do suicídio de Vargas.

Lamentável que o jornalista tenha se olvidado de mencionar algum oficial operando em Manaus na construção do Ponta Pelada.

 

Recorte da página do livro mencionado

Realizando uma viagem de magna importância para a navegação aérea e, consequentemente, para a economia nacional, chegou ontem a esta capital o brigadeiro Nero Moura, ministro da Aeronáutica, que, viajando em avião da Força Aérea Brasileira, se fez acompanhar de brilhante comitiva.

No aeroporto da Ponta Pelada, já se encontrava o governador Álvaro Maia e outras altas autoridades de Estado, quando ali pousou o aparelho da FAB, em que viajava o titular do Ministério da Aeronáutica. Pouco depois de sua descida do aparelho, o brigadeiro Nero Moura, em companhia de sua comitiva e do governador Álvaro Maia, passou a inspecionar as obras em andamento do aeroporto da Ponta Pelada, demorando-se em examinar os trabalhos já realizados.

A IMPORTÂNCIA DA VIAGEM DO BRIGADEIRO NERO MOURA

Está o Ministério da Aeronáutica interessado vivamente em dar por terminada o mais breve possível a importante rota Rio-Manaus, compreendido no acordo firmado entre o Brasil e os Estados Unidos, cujas principais cláusulas estabelecem rotas americanas para o Brasil e o trafego aéreo em várias direções do nosso território.

Nesse sentido, ou melhor, para maior garantia da navegação naquela rota, vem o Ministério da Aeronáutica trabalhando ativamente no senti de dotar os aeroportos de Aragarças, Xavantinas, Cachimbo e Jacareacanga do aparelhamento necessário, equipamento de auxilio básico à navegação aérea, para melhor balizamento da rota Rio-Manaus. Esse trabalho, de importância para nova linha a ser inaugurada, está em franco andamento.

A COMITIVA DO MINISTRO

A comitiva do ministro está constituída das seguintes pessoas: brigadeiro Raimundo Vasconcelos Aboim; coronéis aviadores Cazemiro Montenegro Filho, Jussura Fausto de Souza; tenentes-- coronéis Paulo Emilio de Camargo Ortegal e Lino Romualdo Teixeira; major aviador Haroldo Veloso e major Celso; capitão aviador Henrique; sargentos Inácio, Hélio Ameno, Rubens, Mirabele e Ludendorf.

O REGRESSO DA COMITIVA

O ministro da Aeronáutica e sua comitiva regressaram na manhã de hoje, viajando com destino a Cametá e Belém, de onde prosseguirá tocando em diversos pontos da rota costeira.

sexta-feira, maio 04, 2012

O Jornal e o Diário da Tarde, parte 2

A parte final do texto de Ajuricaba Almeida, em que narra o doloroso final da empresa Archer Pinto. Colaborou na edição deste material o colecionador Ed Lincon, a quem agradeço.

O FIM DE “O JORNAL”
(Minha pior reportagem)

O DECLÍNIO GRADATIVO

Quando cheguei à redação do OJ levado pelo meu muito querido amigo Ulysses Paes de Azevedo Filho, em janeiro de 1965, lá encontrei Phelippe Daou, Milton Cordeiro, Irisaldo Godot, Heliandro Maia, Félix Valois, filho, Arnoldo Coimbra, Cornélio Álvaro Belmond, Corrêa Neto, Osires Silva, "dos que lembro imediatamente", jornalistas "de mãos cheias", que afirmavam e confirmavam a imagem de líder do jornal.

Mas os tempos mudaram. Com as saídas de Ulysses, Daou, Milton e outros "esteios" do jornal, Maria de Lourdes [Betina] ficou praticamente sozinha na direção e comandamento, que ela chamou totalmente para si. Era muita coisa para ela só.    
    
Jornalistas Phelippe Daou (à esq.) e Almir Diniz entrevistam
em Nova Olinda do Norte, para O Jornal, 1955

As dificuldades começaram a pesar e as soluções não resolviam. A redação e a oficina foram esvaziando aos poucos. O material empregado prejudicava a impressão pelo desgaste, à falta de reparos ou renovação. Os anúncios escasseavam, a tiragem caía e o pagamento do pessoal atrasava mês a mês.
Os concorrentes revigoraram suas redações e oficinas, ingressando no sistema de "off set". Enfim, o OJ perdeu o seu título de "líder da imprensa amazonense."

RÁPIDO REFLORESCIMENTO

Em 1972, o Grupo TAA entabulou negócio com a empresa, acertando uma sociedade. Os homens da cúpula chegaram "com todo gás" e começaram investindo alto. Renovavam-se as esperanças do pessoal. Ocorreu uma reestruturação geral. O Jornal refloresceu realmente. Foram contratados novos profissionais, adquirido novo material, a tiragem aumentou, os anunciantes voltaram e o pagamento da equipe foi normalizado.

Mas a empolgação durou pouco mais de um ano. O Grupo se desfez e a direção retomou às mãos de Maria de Lourdes, que novamente se viu com um pesado fardo às costas, sem forças para "aguentar a barra".

O que havia sido feito aos poucos foi sendo consumido. Apenas se prolongava o que de pior estava para acontecer. O Diário da Tarde desapareceu de circulação. O INPS [hoje INSS] cobrava uma vultosa dívida, acumulada através dos anos. Foi feita a penhora de todos os bens.

O corpo redacional ficou reduzido a três elementos: o secretário, o subsecretário e um repórter esportivo, que "faziam das tripas o coração" para jogar o jornal na rua, e todos que labutam pelo material de que dispunha. De dez linotipistas, restavam uns... seis e, das cinco máquinas compositoras, às vezes só duas funcionavam, "uma, aliás, estava paralisada há anos por falta de recuperação". Todos os setores ficaram sem chefe, encargo imposto ao secretário de Redação, que se via maluco para resolver tanto problema.   
    
Premiação da Corrida pedestre Archer Pinto, 1970

Para muitos, O Jornal  já não mais existia, antes que ele cerrasse suas portas. Havia desaparecido das bancas há tempos, pois os poucos exemplares do dia eram destinados a assinantes, a "todos órgãos oficiais" e a comprovante de publicidade.

UMA VOZ QUE CALOU

Começou a faltar o material indispensável à confecção do jornal: o papel, o flan, o zinco, sem os quais era impossível fazê-lo circular. Os fornecedores só entregavam o material se se pagasse "na ficha". Uma coisa dolorosa!...
Era preciso, então, fazer alguma coisa. E o fizemos a duras penas. O papel era arranjado através de “tocos" de bobinas, que só dava para "quebrar o galho", salvando os anúncios. O flan
foi substituído por um papelão grosseiro. A ilustração era feita com "clichês" antigos, desgastados pela frequente utilização, para tapar os buracos à falta de matérias na Redação.

A situação era insustentável. O pagamento do pessoal era feito através de "vales de lágrimas", "diziam os colegas", que muitas vezes falhava, provocando a ira dos funcionários, muitos dos quais faltavam ao trabalho. Foram tantos os domingos em que o jornal deixou de circular por causa disso. Os anúncios que publicava eram de amigos que desejavam tão somente ajudar de alguma forma.

Até que, no dia 14 de fevereiro do ano passado, às vésperas de tanta alegria dos outros, o Carnaval, para nós nada mais restava a fazer. Era o fim mesmo de tudo...  

Nesse dia, a Companhia de Eletricidade cortou definitivamente o fornecimento de energia elétrica à empresa. A máquina de prensagem estava quebrada e não havia jeito de se adquirir o papel, nem a "tocos”, e o flan.  

E O Jornal calou a sua voz para sempre...       

Texto de Ajuricaba Almeida, A Crítica, 8 dezembro 1977.