CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

26 de novembro de 2016

PROVÍNCIA DO AMAZONAS: 1871-72 (1)

A seguir, a segunda parte do Relatório sobre o Amazonas, referente ao biênio 1871-72, escrito pelo falecido mestre Agnello Bitencourt. Esta publicação foi realizada no Boletim da Associação Comercial do Amazonas, em 1956.





BOLETIM DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DO AMAZONAS
A Província do Amazonas e sua Capital em 1871 e 1872
Agnello Bittencourt


A Assembleia Provincial cumpria a feitura dos orçamentos municipais, cujas despesas foram fixadas para esse ano. (1871):
Capital (Manaus)      Cr$ 36.895,00
Maués (Conceição) “  3.450,00
Tefé (Ega)                   “ 12.180,00
Serpa (Itacoatiara)   “  4.770,00
Serpa                           “  1.450,00
Parintins (Vila Bela) “  2.930,00
Barcelos                     “  2.930,00

Em 1869, a importação subiu a Cr$ 6.902.422,50, mais do que o do ano anterior em Cr$ 619. 293,40. E a exportação também naquele ano (1869) elevou-se a Cr$ 8.531.384,40, superior a do exercício antecedente em Cr$ 1.976.470,40. Tudo através da Alfandega e da praça de Belém, pois, como dissemos atrás, os barcos estrangeiros ainda não chegavam ao porto de Manaus.

II - MANAUS

Já vimos que Manaus era a sede de um dos 7 grandes municípios que formavam a Província. Estendia-se das terras de Silves às de Barcelos, no Rio Negro, às de Tefé no Solimões, empreendendo parte do Purus e do Madeira. Uma imensidão!
Como se sebe, as despesas totais da Câmara limitavam-se a Cr$ 36.895,00. Convém observar que os dispêndios de maior vulto corriam à custa da Província.

Iluminação pública
A cidade era iluminada por 120 lampiões a querosene. O contratante do serviço recebia dos cofres da Província, anualmente, Cr$ 20.000,00. Paro ampliar e melhorar a rede dos combustores, foi-lhe aumentado o pagamento para Cr$ 40.000,00.
Nas noites de luar, não se acendiam os lampiões. Esse péssimo serviço perdurou por muitos anos, até que, a 15 de outubro de 1896, foi inaugurado a luz elétrica de Manaus, sob o governo de Fileto Pires Ferreira.

População de Manaus
Como resultado do recenseamento de 1° de agosto de 1872, a que aludimos, verificou-se que a população da Capital da Província era de 16.383 brasileiros e 645 estrangeiros, num total de 17.028. Deste cômputo, 493 eram escravos. População livre 16.535 habitantes.

Câmara Municipal
Superintendente (hoje Prefeito Municipal) – Tenente-Coronel João José de Freitas Guimarães. Vereadores: Guilherme José Moreira, João Ignácio Rodrigues do Carmo, Antônio José Barroso, José Pereira de Moraes, Eusébio Luiz Antônio de Menezes, João Fleury da Silva Brabo, Antonio da Cunha Mendes e Hilário Pereira de Jesus. Igual número de suplentes, como os titulares, eleitos bienalmente.

Topografia
A Capital baré foi certamente a cidade brasileira que mais sofreu na sua topografia. No escopo de higiene, conforto e embelezamento. Foi aquele militar que iniciou as grandes obras, tendo deixado prontas algumas. Muito realizou, podendo dizer: “Encontrei Manaus uma grande aldeia e fiz dela uma cidade moderna”.
Onde é, hoje, a principal artéria da cidade, a avenida Eduardo Ribeiro, achava-se em 1871, o igarapé do Aterro, que podia ser percorrido por pequenas embarcações (canoas, lanchas), ao tempo das enchentes (junho e julho). No verão, seu leito era um imundo pantanal, que começava onde está o atual edifício do “Jornal do Comércio”, indo terminar onde se estende o flutuante da Manaus Harbour Limited.
No lugar em que estão as avenidas Floriano Peixoto e Getúlio Vargas prolongava-se o igarapé do Espírito Santo. No inverno, os embarcações subiam o seu curso até onde se edificou o cinema Politeama. Duas extensas pontes de madeira atravessavam-na: uma, no altura em que se encontra o “Hotel Amazonas”, e, outra, na rua da Glória (hoje Quintino Bocaiuva).

O litoral também se modificou profundamente. Havia, na época, um trecho arrampado correspondente à praça da Imperatriz (praça 15 de Novembro), na sua descida para o Rio Negro: a “rampa dos carroceiros”. Era o desembarcadouro situado à foz do igarapé do Aterro, à extremidade ocidental de uma ponte de madeira, ligando o prolongamento da rua dos Barés (prolongamento que é a atual rua Marquês de Santa Cruz) à praça referida. Todo esse litoral era uma suave descida da rua dos Barés para o rio. Nada o ocupava.

No litoral ou “praia”, aportavam centenas de “igarités” e “montarias”, chegadas do interior da Província, máxime aos sábados, repletas de gêneros alimentícios e outros. Praticamente, não existindo mercado, esse conjunto de pequenas embarcações era a feira dos caboclos.  

Companhia de Aprendizes Marinheiros
Foi criado por Decreto n° 4.861, de 17 de janeiro de 1871. Instalada no mesmo ano. Funcionou com 50 alunos. Teve duração efêmera.

Seminário Episcopal
Situado à praça da Imperatriz, sob a reitoria do Pe. Dr. Frederico Celani, que regia a cadeira de Latim criada e subvencionada pelo governo Imperial. Aí, também se ensinavam Português, Francês, Geografia e História.
O Liceu Provincial, instituído pelo Regulamento n° 18, de 14 de março de 1869, funcionou, por alguns anos no Seminário, transferindo-se para outro prédio igualmente particular e impróprio, até que teve casa adequada, a do atual Colégio Estadual, inaugurada, com grandes festas, em 5 de Setembro de 1886.

Sociedades diversas
Existiam as seguintes “Ateneu das Artes” fundado em 6 de janeiro de 1869, sob a presidência do professor José Justiniano Braule Pinto; “Nacional Beneficente do Amazonas” criada em 6 de novembro do mesmo ano, sob a direção de João Wilkens de Mattos; “Harmonia Amazonense”, sob a presidência de Nicolau José de Castro e Costa; “Emancipadora Amazonense”, a primeira que se criou para o fim especial de libertar os escravos existentes no Província, para cuja finalidade muito realizou.

Advogados
Apenas quatro pleiteavam no Foro: Dr. Gustavo Adolfo Ramos Ferreira, Alfredo Sergio Ferreira, Candido Antonio Pereira e o major Clementino José Pereira Guimarães.

Médicos
Dr. Aprigio Martins de Menezes, João Pedro Maduro da Fonseca e Joaquim Januario dos Santos Pereira. (...)

Como os “regatões” que enxameavam o interior da Província, navegando nas suas “cobertas”, de sítio em sítio, isto é, de porto em porto, assim, na Capitel baré, os “teque-teques”, com suas caixas às costas de fazendas e quinquilharias, atravessando a cidade de habitação em habitação. Esse comércio ambulante era exercido por sírios e libaneses.
Não havia ainda um mercado (edifício) para a venda de gêneros alimentícios. O peixe, as frutas, a farinha d’água, o feijão fresco etc., etc., eram vendidos no litoral da cidade, quase sempre pelos próprios produtores. Outros gêneros negociavam ou eram adquiridos nos “mercearias” ou tabernas. Não se falava em metro, quilograma e litro, mas em “côvado”, “libra”, “quartilho”, “canado” etc., em se tratando de negócios.

Casaria em geral

Manaus, em 1871, época fixada em nossas referências, era uma cidade pobre, continuando assim ainda por muitos anos, como acentuou Eduardo Ribeiro, dizendo-a "uma grande aldeia". Numerosos casebres cobertos de palha pululavam, mesmo no centro da cidade. Poucas, as casas assobradadas. Nelas residiam as autoridades mais graduadas e a gente rica. O sobrado era uma habitação nobre.
Àquele tempo, Manaus não tinha um edifício condigno para a sede do Governo. O que, pomposamente, possuía o nome de Palácio do Governo, não passava de um casarão particular, tomado por aluguel. No pavimento térreo, estava a Secretaria Geral, no superior, a residência do Presidente. A cidade não conhecia canalização d’água, esgoto, telefone, telégrafo, nem jardins.
Suas praças públicas enchiam-se de capinzais e formigueiros. Calçamento das ruas, uma novidade, um luxo...

Quase tudo, que Manaus tem de melhor, apareceu depois de 1889, a ponto de provocar, do saudoso Afonso Pena, que a visitou em 1906, vendo e sendo informado que as obras importantes eram recentes, a sentença: "Manaus é uma revelação da República".

Costumes
Apesar de se tratar de uma cidade modesta, bem falha dos confortos que a civilização oferece, integrada nos hábitos simplórios dos seus 17.028 habitantes, era, contudo, um pequeno mundo de atividades e alegrias, realizando as suas constantes reuniões domésticas, religiosas e cívicas.
Cultivava em alto grau, o espírito de fraternidade, estima e respeito. As pugnas eleitorais entre "liberais" e "conservadores", não deixavam ressentimentos. Após um pleito renhido, não mais havia adversários. Uma palavra empenhada valia por uma escritura.
As festas familiares sucediam-se e prolongavam-se até a madrugada. O carnaval, com seus “entrudos”, brutais, invadindo os casas, sujando-as, alagando-as muitas vezes, também não molestava ninguém.
Nas noites de Santo Antonio e São João, as ruas (ainda calçadas) pontilhavam-se de fogueiras. Pode-se dizer que, em frente a cada residência, lá estavam os labaredas. E, na sala principal, uma grande mesa repleta de iguarias destinada aos parentes e amigos que, infalivelmente, apareciam.
Como eram frequentes, ainda, as “festas de arraial”, em frente às igrejas, com seus leilões de “prendas” e barracas de “sorteio”. Faziam-se “pic-nics” no longínquo bairro da Cachoeirinha, em cujo igarapé a gente grã-fina da época ia banhar-se e distrair-se.

Velhas famílias amazonenses
Numa relação inevitavelmente omissa, vejamos abaixo, os nomes de algumas famílias colhidas nos raros registros da época: Nomes — Chefes ou representantes:
Antony – Henrique Antony;
Aguiar – João José de Aguiar;
Augusto Bitencourt – Gentil Augusto Bitencourt;
Barbosa de Amorim – Mateus Barbosa de Amorim;
Brito Amorim – Alexandre Paulo de Brito Amorim;
Botelho do Cunha – Álvaro Botelho da Cunha;
Bacury – Sebastião de Melo Bacury;
Braule Pinto – José Justiniano Braule Pinto;
Barroso – José Antonio Barroso;
Batista Bitencourt – Antonio Batista Bitencourt;
Batista Pereira – Manoel Batista Pereira;
Castro e Costa – Nicolau José de Castro e Costa;
Cascaes – Antônio José Ribeiro Cascaes;
Faria Teixeira – Cosme de Faria Teixeira;
Fleury – José Ferreira Fleury;
Faria e Souza – Gentil Batista de Faria e Souza;
Ferreira dos Anjos – Manoel Ferreira dos Anjos;
Fonseca – Deodato da Fonseca;
Gonçalves Pinheiro – Febronio Gonçalves Pinheiro;
Lopes Braga – Antônio Lopes Braga;
Langbeck – Ludovico Langbeck;
Menezes – Dr. Aprígio Martins de Menezes;
Miranda Leão – José Coelho de Miranda Leão;
Mavignier – Aristides Justo Mavignier;
Moreira – Emílio José Moreira;
Matos Ribeiro – Francisco Leopoldo de Matos;
Monteiro Tapajós – Francisco A. Monteiro Tapajós;
Melo Cardoso – Nuno Alves de Mello Cardoso;
Moraes – Gregorio José de Moraes;
Malcher – Leonardo Antônio Malcher;
Nery – Silvério José Nery (capitão reformado);
Oliveira Horta – Bernardino de Oliveira Horta;
Pucu – Geraldo José Joaquim Pucu;
Pereira Guimarães – Clementino José Pereira Guimarães;
Pau Brasil – João Marcelino T. Pau Brasil;
Pinto Ribeiro – José Arthur Pinto Ribeiro;
Paula Ribeiro – Maximiano Paula Ribeiro;
Ponce de Leão – José Vicente Ponce de Leão;
Ribeiro Bitencourt – José Ferreira Ribeiro Bittencourt;
Ribeiro Guimarães – Gabriel A. Ribeiro Guimarães;
Rebello – Raymundo José Rebelo;
Ramos Ferreira – Dr. Gustavo A. Ramos Ferreira;
Sarmento – Joaquim José Paes da Silva Sarmento;
Silva Ramos – Manoel de Azevedo da Silva Ramos;
Thury – José Manoel da Rocha Thury;
Zuany – José Anacleto Zuany.

Hóspedes ilustres
À época em apreço, Manaus hospedou alguns militares já notáveis nos fastos do guerra. Aí esteve o Tenente-Coronel Floriano Peixoto, bravo da guerra do Paraguai, comandando o 3° Batalhão de Artilharia a pé. Também o Coronel Antônio Tibúrcio de Souza, na Comissão de Inspeção de Fronteiras e Obras Militares, e o Brigadeiro João Guilherme Bruce.

Jornais
Não obstante a Capital da Província ser então uma cidade modesta, como dissemos atrás, já possuía homens cultos, que visavam os superiores horizontes de sua terra e do Brasil, o que se infere da imprensa indígena. No Arquivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, colecionados, encontram-se os seguintes jornais: "Comércio do Amazonas" (diário), "Catequista" (semanal), "Amazonas" (diário, semioficial), "Reformo Liberal" (semanal), "Jornal do Norte" (diário) e "Argos" (semanal). A leitura desses órgãos da imprensa regional patenteia cultura, discernimento e patriotismo.

Cemitério de São José
Ao tempo em que se instalou a Província (1852), servia de necrópole à Capital o terreno que se estende por trás da Igreja dos Remédios, no local em que está o edifício da extinta Faculdade de Farmácia e Odontologia, prolongando-se pelas adjacências da rua Leovigildo Coelho (antiga da Cruz).
Em 1871, estava, há muito encerrado, porque os inumações passaram a ser feitas no Cemitério de São José, também fechado, salvo engano, em 1898, e ficava situado onde, depois da 1930, se construiu a atual sede do "Rio Negro Clube", sociedade de esportes e diversões.
Que contraste no destino do local! Onde, outrora, se derramaram lágrimas, no adeus da separação eterna, onde repousaram na quietude dos túmulos os nossos avós, hoje, ali mesmo, dança-se e bebe-se.
E aqui, encerramos esta breve síntese, de fundo histórico, uma despretensiosa revivescência para que os rapazes de hoje se identifiquem nos virtudes e compreensões dos homens de 1871, na ânsia de um Amazonas integrado nos desígnios da moral, do progresso e do patriotismo.

Rio de Janeiro, julho de 1956.